Os Pecados do Pai
Emma Barrington - 1941-1942
EMMA BARRINGTON
1941-1942
31
— Sessenta e Quatro e Park — disse Emma enquanto subia em um táxi na frente do escritório de Sefton Jelks em Wall Street.
Ela se sentou no banco traseiro e tentou pensar sobre o que dizer à tia-avó Phyllis quando, ou se, ela a deixasse entrar em sua casa, mas o rádio do carro estava tão alto que Emma não conseguia se concentrar. Ela pensou em pedir ao motorista para baixar o volume, mas já havia aprendido que os taxistas de Nova York eram surdos quando lhes convinha, embora raramente fossem tontos e nunca mudos.
Enquanto escutava o comentarista descrever com uma voz acalorada o que havia acontecido em algum lugar chamado Pearl Harbor, Emma aceitou que a primeira pergunta da tia-avó certamente seria “Há quanto tempo você está aqui?”, seguida de “Por que demorou tanto para vir me ver?”. Emma não tinha uma resposta plausível para nenhuma das duas perguntas, a menos que quisesse contar tudo à tia-avó Phyllis — algo que ela queria evitar porque não havia contado tudo nem mesmo à própria mãe.
Talvez ela nem soubesse que tinha uma sobrinha-neta, pensou Emma. E será que havia uma antiga rixa familiar que Emma desconhecia? Ou talvez a tia-avó fosse reclusa, divorciada, casada novamente ou louca?
Emma só se lembrava de ter visto uma vez um cartão de Natal assinado Phyllis, Gordon e Alistair. Um era o marido e o outro o filho? Para piorar as coisas, Emma não tinha como provar que realmente era a sobrinha-neta de Phyllis.
Emma estava no auge da sua insegurança em relação à tia-avó quando o táxi parou na frente da casa e ela entregou outra moeda de 25 cents ao motorista.
Saltou do táxi, olhou para a imponente mansão de quatro andares de pedras marrons e ficou indecisa se iria realmente bater à porta. Decidiu finalmente dar uma volta no quarteirão na esperança de que se sentiria mais confiante quando voltasse. Enquanto caminhava pela Rua 64, Emma não pôde deixar de notar que os nova-iorquinos estavam correndo de um lado para outro com um ritmo insolitamente frenético e expressões chocadas e ansiosas no rosto. Alguns estavam olhando para o céu. Em sã consciência, eles não podiam acreditar que o próximo ataque aéreo japonês seria em Manhattan.
Um menino que vendia jornais na esquina da Park continuava a gritar a mesma manchete: “Os Estados Unidos declaram guerra! Leia as últimas notícias!”
Quando voltou à frente da casa, Emma havia decidido que não podia ter escolhido um dia pior para visitar a tia-avó. Talvez fosse mais sensato voltar para o hotel e esperar até o dia seguinte. Mas que diferença isso faria? Seu dinheiro havia quase acabado e os Estados Unidos agora estavam em guerra. Como ela voltaria para a Inglaterra e, sobretudo, para Sebastian, do qual ela nunca teve intenção de se separar por mais do que algumas semanas?
Quando deu por si, Emma já estava subindo os cinco degraus e se deparou com uma porta preta reluzente com uma grande aldrava de latão muito bem polida. Talvez a tia-avó Phyllis estivesse fora. Talvez ela tivesse se mudado. Emma estava prestes a bater quando notou uma campainha na parede com a palavra Serviço impressa embaixo. Ela tocou a campainha, deu um passo para trás e esperou, muito mais feliz em lidar com a pessoa que cuidava dos serviçais.
Alguns instantes mais tarde, um homem alto e vestido com elegância, trajando paletó preto, calças listradas, camisa branca e gravata cinza, abriu a porta.
— Em que posso ajudá-la, madame? — indagou, tendo claramente decidido que Emma não era uma serviçal.
— Meu nome é Emma Barrington — disse ela. — Minha tia-avó Phyllis está em casa?
— De fato, está, srta. Barrington, pois suas tardes de segunda-feira são dedicadas ao bridge. Queira ter a gentileza de entrar, vou informar a sra. Stuart da sua chegada.
— Posso voltar amanhã se este não for um momento conveniente — gaguejou Emma, mas ele já havia fechado a porta atrás dela e estava no meio do corredor.
Enquanto esperava no saguão, Emma não pôde deixar de notar de que país provinham os Stuart: um retrato de Bonnie Prince Charlie sobre espadas cruzadas e um escudo do clã Stuart estavam pendurados na parede dos fundos do cômodo. Emma caminhou bem lentamente para que pudesse admirar as pinturas de Peploe, Fergusson, McTaggart e Raeburn. Lembrou-se de que o avô, Lord Harvey, tinha um Lawrence pendurado na sala de estar no castelo de Mulgelrie. Ela não fazia a menor ideia do que o tio-avô fazia, mas ele certamente era bem-sucedido em sua atividade.
O mordomo voltou alguns minutos mais tarde com o mesmo olhar impassível no rosto. Talvez ele não tivesse ouvido a notícia sobre Pearl Harbor.
— Madame irá recebê-la na sala de estar — anunciou.
Como ele lembrava Jenkins: nenhuma palavra desnecessária, um ritmo contínuo que jamais variava e, de alguma maneira, ele conseguia demonstrar deferência sem ser serviçal. Emma queria perguntar de que parte da Inglaterra ele era, mas sabia que o mordomo consideraria aquilo uma intrusão; portanto, seguiu-o ao longo do corredor sem dizer outra palavra.
Ela estava prestes a subir a escada quando o mordomo parou, abriu uma pequena grade e deu um passo para o lado para deixá-la entrar. Um elevador em uma residência? Emma ficou se perguntando se a tia-avó Phyllis era inválida. O elevador estremeceu ao chegar ao terceiro andar e Emma saiu para uma sala de estar lindamente decorada. Se não fosse pelo barulho do tráfego, toques de buzina e sirenes da polícia que provinham da rua, era possível pensar que se estava em Edimburgo.
— Queira aguardar aqui, por favor, madame.
Emma ficou ao lado da porta enquanto o mordomo atravessava a sala até onde quatro damas idosas estavam sentadas em torno de uma lareira, tomando chá e degustando crumpets enquanto ouviam atentamente um rádio que nunca havia ultrapassado um volume educado.
Quando o mordomo anunciou “Srta. Emma Barrington”, todas se viraram e olharam na direção de Emma. Era impossível não saber qual daquelas senhoras era a irmã de Lord Harvey, mesmo bem antes que ela se levantasse para cumprimentá-la: o cabelo vermelho-fogo, o sorriso matreiro e o inequívoco ar de alguém que veio de outro país.
— Não é possível que seja Emma — ela declarou ao deixar o grupo e se dirigir até a sobrinha-neta, uma leve cadência das Highlands ainda em sua voz. — A última vez que a vi, minha querida mocinha, você ainda estava usando um avental do pré-escolar, meias-soquete brancas e sapatos de ginástica, e carregando um taco de hóquei. Fiquei bastante preocupada com os menininhos que jogavam no time adversário — brincou Phyllis. Emma sorriu; o mesmo senso de humor do avô. — E veja só você agora! Desabrochou, tornando-se uma linda criatura — disse. Emma corou. — O que a traz a Nova York, querida?
— Lamento a intrusão, titia — Emma começou, olhando nervosamente para as outras três senhoras.
— Não se preocupe com elas — Phyllis sussurrou. — Depois do anúncio do presidente, elas têm mais do que o necessário para se manterem ocupadas. Onde estão suas malas?
— Minha mala está no Mayflower Hotel — disse Emma.
— Parker — ela disse, virando-se para o mordomo —, mande alguém buscar os pertences da srta. Emma no Mayflower e, em seguida, prepare o quarto de hóspedes principal porque, depois da notícia de hoje, tenho a sensação de que minha sobrinha-neta vai ficar conosco por um certo tempo.
O mordomo evaporou.
— Mas, titia...
— Sem mas nem porém — ela disse levantando a mão. — E insisto para que você pare de me chamar de titia porque me faz parecer uma velha ranzinza. É bem possível que eu seja mesmo uma velha ranzinza, mas não quero ser lembrada disso o tempo todo; portanto, me chame de Phyllis.
— Obrigada, tia Phyllis — disse Emma.
Phyllis riu.
— Adoro os ingleses — comentou. — Venha cumprimentar as minhas amigas. Elas ficarão fascinadas em conhecer uma jovem tão independente. Tão assustadoramente moderna.
“Um certo tempo” acabou se revelando mais de um ano e, à medida que cada dia passava, Emma ficava mais desesperada para rever Sebastian, mas só conseguia acompanhar o progresso do filho por meio de cartas enviadas pela mãe e, de vez em quando, por Grace. Emma chorou quando soube da morte do “Vovô” porque achava que ele fosse viver para sempre. Tentou não pensar sobre quem assumiria a empresa e deduziu que o pai não teria a audácia de aparecer em Bristol.
Phyllis não poderia ter feito Emma se sentir mais à vontade nem mesmo se fosse sua mãe. Emma logo descobriu que a tia-avó era uma típica Harvey, generosa ao extremo, e as páginas que definiam as palavras impossível, implausível e imponderável deviam ter sido arrancadas do seu dicionário na mais tenra infância. O quarto de hóspedes principal, como Phyllis o chamava, era uma suíte com vista para o Central Park, o que foi uma grata surpresa depois do quarto apertado de Emma no Mayflower.
A segunda surpresa aconteceu quando Emma desceu para o jantar na primeira noite e encontrou a tia trajando um vestido vermelho-fogo, bebendo um copo de uísque e fumando um cigarro em uma longa piteira. Ela sorriu ao pensar que havia sido descrita como moderna por aquela mulher.
— Meu filho Alistair jantará conosco — Phyllis anunciou antes que Parker tivesse chance de servir a Emma um copo de Harvey’s Bristol Cream. — Ele é advogado e solteiro — acrescentou. — Duas desvantagens das quais é bastante improvável que ele se recupere. Mas, às vezes, ele pode ser muito divertido, embora um pouco brusco.
O primo Alistair chegou alguns instantes mais tarde, vestido formalmente para um jantar com a mãe e, portanto, encarnando a imagem dos “britânicos no exterior”.
Emma calculou que devia ter uns cinquenta anos, e um bom alfaiate disfarçara o fato de ele estar com alguns quilos a mais. Seu humor podia ser um pouco brusco, mas ele era indiscutivelmente inteligente, divertido e bem informado, apesar de ter se delongado um pouco demais a falar do caso em que estava trabalhando naquele momento. Não foi surpresa quando sua orgulhosa mãe disse a Emma durante o jantar que Alistair era o sócio mais jovem da firma de advocacia desde a morte do pai. Emma deduziu que Phyllis sabia por que ele não era casado.
Ela não conseguiu identificar ao certo se foi a comida deliciosa, o excelente vinho ou simplesmente a hospitalidade americana que a fizeram relaxar tanto a ponto de acabar contando aos anfitriões tudo o que havia acontecido desde a última vez que a tia-avó Phyllis a vira em um campo de hóquei na escola Red Maids.
Quando Emma explicou por que havia cruzado o Atlântico apesar dos riscos envolvidos, os dois a fixaram como se ela houvesse acabado de aterrissar vindo de outro planeta.
Após devorar o último pedaço da sua torta de frutas e voltar a atenção para uma grande taça de conhaque, Alistair passou os trinta minutos seguintes interrogando a hóspede inesperada como se ele fosse o advogado da parte adversária e Emma uma testemunha hostil.
— Bem, devo dizer, mamãe — concluiu enquanto dobrava o guardanapo —, que este caso parece muito mais promissor do que Amalgamated Wire contra New York Electric. Mal posso esperar para cruzar espadas com Sefton Jelks.
— De que adianta gastar nosso tempo com Jelks — Emma disse — quando é muito mais importante encontrar Harry e limpar seu nome?
— Concordo plenamente — disse Alistair. — Mas tenho a sensação de que uma coisa levará a outra.
Ele pegou a cópia de O diário de um condenado de Emma, mas não a abriu, apenas examinou o dorso.
— Qual é a editora? — Phyllis perguntou.
— Viking Press — respondeu Alistair tirando os óculos.
— Ninguém menos do que Harold Guinzburg.
— Você acha que ele e Max Lloyd podem ter colaborado nesse embuste? — Alistair perguntou se dirigindo à mãe.
— Claro que não — respondeu ela. — Seu pai me disse uma vez que enfrentou Guinzburg no tribunal. Lembro que ele o descreveu como um adversário formidável, mas um homem que nunca pensaria em manipular a lei, muito menos infringi-la.
— Então, temos uma chance — disse Alistair — porque, se esse for o caso, ele não vai ficar contente ao descobrir o que foi perpetrado em seu nome. Todavia, vou precisar ler o livro antes de marcar um encontro com o editor — acrescentou, olhou para o outro lado da mesa e sorriu para Emma. — Vou ficar fascinado ao descobrir o que o sr. Guinzburg acha de você, minha jovem.
— E eu — disse Phyllis — também ficarei igualmente fascinada ao descobrir o que Emma acha de Harold Guinzburg.
— Touché, mamãe — Alistair admitiu.
Após Parker ter servido a Alistair um segundo conhaque e reacendido seu charuto, Emma ousou perguntar quais eram, segundo ele, as chances de obter uma permissão para visitar Harry em Lavenham.
— Enviarei uma solicitação em seu nome amanhã — ele prometeu entre baforadas. — Vamos ver se tenho mais sorte do que seu prestativo detetive.
— Meu prestativo detetive? — repetiu Emma.
— Insolitamente prestativo — disse Alistair. — Após ele ter percebido que Jelks estava envolvido, fico surpreso de o detetive Kolowski ter concordado em recebê-la.
— Não fico nem um pouco surpresa por ele ter sido prestativo — disse Phyllis piscando para Emma.