Os Pecados do Pai
Harry Clifton - 1945
HARRY CLIFTON
1945
41
— Farei um novo relatório, senhor, assim que os tiver localizado — disse Harry antes de desligar o telefone de campo.
— Localizado quem? — perguntou Quinn.
— O exército de Kertel. Parece que o coronel Benson acha que eles poderiam estar no vale do outro lado da serra — ele disse apontando para o topo da colina.
— Só existe uma maneira para descobrirmos isso — disse Quinn engatando ruidosamente a primeira marcha do Jeep.
— Vá com calma — disse Harry. — Se os hunos estiverem aqui, não precisamos alertá-los.
Quinn manteve a primeira enquanto eles subiam lentamente a colina.
— Já estamos suficientemente perto — disse Harry quando eles estavam a menos de cinquenta metros da beirada da colina. Quinn puxou o freio de mão e desligou o motor. Eles saltaram do veículo e subiram o aclive correndo. Quando estavam a poucos metros do topo, jogaram-se de barriga no chão; em seguida, como dois caranguejos voltando para o mar, engatinharam até parar bem embaixo da crista.
Harry espiou por cima do topo e segurou o fôlego. Não precisou de um par de binóculos para ver o que eles tinham pela frente. O lendário 19º Corpo de Blindados do marechal de campo Kertel estava claramente se preparando para a batalha no vale abaixo. Havia tanques alinhados a perder de vista, e as tropas de apoio teriam enchido um estádio de futebol. Harry estimava que a Segunda Divisão dos Texas Rangers estaria em desvantagem numérica, com pelo menos três alemães para cada soldado americano.
— Se dermos o fora daqui — sussurrou Quinn —, talvez tenhamos tempo suficiente para avisar o penúltimo posto de Custer.
— Não tão depressa — disse Harry. — Talvez seja possível virar essa situação a nosso favor.
— Você não acha que já usamos um número suficiente das nossas nove vidas no ano passado?
— Até agora, contei oito — replicou Harry. — Acho que podemos arriscar mais uma.
Ele começou a descer a colina se arrastando antes que Quinn pudesse dar uma opinião.
— Você tem um lenço? — perguntou Harry enquanto Quinn assumia seu posto atrás do volante.
— Sim, senhor — respondeu ele, tirando um lenço do bolso e o passando para Harry, que o amarrou à antena do rádio no Jeep.
— Você não vai...
— Se render? Sim, é nossa única chance — disse Harry. — Portanto, dirija devagar até o topo da colina, cabo, e em seguida desça o vale.
Harry só chamava Pat de “cabo” quando não queria prolongar uma discussão.
— O vale da morte — sugeriu Quinn.
— Não é uma comparação justa — rebateu Harry. — Eram seiscentos na Brigada Leve e éramos apenas dois. Portanto, eu me vejo mais como Horácio do que como Lord Cardigan.
— Eu me vejo mais como um alvo fácil.
— Isso porque você é irlandês — disse Harry enquanto eles subiam a colina e começavam a lenta descida do outro lado. — Não ultrapasse o limite de velocidade — acrescentou, tentando fazer ironia.
Ele estava esperando uma chuva de balas para receber aquela intrusão despudorada, mas, claramente, a curiosidade dos alemães foi mais forte.
— Não importa a situação, Pat — advertiu Harry com firmeza —, não abra a boca. E tente fazer parecer que tudo isto foi planejado de antemão.
Se Quinn tinha uma opinião, não a expressou, o que era muito estranho para ele. O cabo dirigiu a uma velocidade constante e só pisou no freio quando eles alcançaram a linha de frente dos tanques.
Os homens de Kertel ficaram encarando incrédulos os passageiros do Jeep, mas ninguém se mexeu até que um major abriu caminho entre os soldados e foi direto até eles. Harry saltou do Jeep, ficou em posição de atenção e bateu continência esperando que o alemão aceitasse aquilo.
— Que diabos você pensa que está fazendo? — perguntou o major.
Harry achou que havia entendido a parte essencial da mensagem. Manteve a calma exterior.
— Tenho uma mensagem do general Eisenhower, comandante supremo da Forças Aliadas na Europa, para o marechal de campo Kertel — anunciou sabendo que, quando o major ouvisse o nome Eisenhower, não poderia correr o risco de não passar a mensagem para um escalão superior.
Sem outra palavra, o major subiu na traseira do Jeep, bateu no ombro de Quinn com o seu bastão e apontou na direção de uma grande tenda bem camuflada que ficava para um dos lados das tropas reunidas.
Quando chegaram à tenda, o major saltou.
— Espere aqui — ordenou antes de entrar.
Quinn e Harry ficaram sentados, cercados por milhares de olhos atentos.
— Se olhares pudessem matar... — sussurrou Quinn. Harry o ignorou.
Vários minutos se passaram antes que o major voltasse.
— O que vai ser, senhor — murmurou Quinn —, o pelotão de fuzilamento ou será que ele vai convidá-lo para uma taça de schnapps?
— O marechal de campo concordou em recebê-lo — disse o major sem tentar esconder a própria surpresa.
— Obrigado, senhor — agradeceu Harry enquanto saía do Jeep e entrava na tenda atrás do major.
O marechal de campo Kertel se levantou de trás de uma comprida mesa coberta por um mapa que Harry reconheceu imediatamente, mas que tinha modelos de tanques e soldados virados na sua direção. Ele foi cercado por uma dúzia de oficiais de campo, nenhum de patente abaixo de coronel.
Harry ficou rijo na posição de atenção e, em seguida, bateu continência.
— Nome e patente? — o marechal de campo perguntou após ter retribuído a continência de Harry.
— Clifton, senhor, tenente Clifton. Sou o ajudante de ordens do general Eisenhower.
Harry avistou uma Bíblia em uma mesinha dobrável ao lado da cama do marechal de campo. Uma bandeira alemã cobria a tela de um lado da tenda. Algo estava faltando.
— E por que o general Eisenhower mandaria seu ajudante de ordens para falar comigo?
Harry observou atentamente o homem antes de responder à pergunta. Ao contrário de Goebbels ou Goering, o rosto cansado de guerra de Kertel confirmava que ele havia visto muitas ações na linha de frente. A única medalha que ele usava era uma Cruz de Ferro com um ramo de folhas de carvalho, que Harry sabia que ele havia ganhado como tenente na Batalha de Marne em 1918.
— O general Eisenhower quer que o senhor saiba que, na outra extremidade de Clemenceau, estão três batalhões completos de trinta mil homens, além de 22 mil tanques. No flanco direito está a Segunda Divisão dos Texas Rangers, no centro, o Terceiro Batalhão dos Jaquetas Verdes e, no flanco esquerdo, um batalhão da Infantaria Leve Australiana.
O marechal de campo teria sido um ótimo jogador de pôquer, pois não deixou transparecer nada. Ele sabia que os números estavam corretos, caso aqueles três regimentos estivessem realmente em posição.
— Então, a batalha deverá se revelar muito interessante, tenente. Porém, se o seu propósito era me alarmar, o senhor fracassou.
— Isso não fazia parte das minhas instruções, senhor — disse Harry baixando os olhos para o mapa —, pois suspeito não ter dito nada que o senhor já não soubesse, inclusive o fato de os Aliados terem recentemente assumido o controle do aeródromo em Wilhelmsberg — um fato que foi confirmado pela bandeirinha americana espetada no aeroporto no mapa. — O que o senhor talvez não saiba é que, alinhado na pista de pouso, está um esquadrão de bombardeiros Lancaster esperando uma ordem do general Eisenhower para destruir seus tanques enquanto os batalhões Aliados avançam em formação de batalha.
O que Harry sabia era que os únicos aviões no aeródromo eram um par de aeronaves de reconhecimento encalhadas por falta de combustível.
— Vá direto ao assunto, tenente — disse Kertel. — Por que o general Eisenhower o mandou falar comigo?
— Vou tentar me lembrar das palavras exatas do general, senhor — disse Harry tentando parecer que estava recitando uma mensagem. — Não pode haver dúvida de que esta terrível guerra está rapidamente se aproximando do fim, e apenas um homem iludido e com experiência limitada em assuntos de guerra ainda acreditaria na possibilidade de vitória.
A alusão a Hitler não passou despercebida pelos oficiais que circundavam o marechal de campo. Foi então que Harry percebeu o que estava faltando. Não havia nenhuma bandeira nazista ou fotografia do Führer na tenda do marechal de campo.
— O general Eisenhower tem a mais elevada consideração pelo senhor e pelo 19º Corpo — Harry prosseguiu. — Ele não tem dúvida de que seus homens dariam a própria vida pelo senhor, a despeito das chances a favor deles. Mas, em nome de Deus, ele pergunta com que propósito? Este embate acabará com suas tropas sendo dizimadas enquanto nós sem dúvida perderemos uma grande quantidade de homens. Todos sabem que o fim da guerra não está a mais do que a algumas poucas semanas de distância; portanto, o que se pode ganhar com tal carnificina? O general Eisenhower leu seu livro, O soldado profissional, quando estava em West Point, senhor, e uma frase em particular ficou impressa de maneira indelével em sua memória ao longo de toda a sua carreira militar.
Harry lera as memórias de Kertel duas semanas antes quando percebeu que poderia enfrentá-lo; portanto, pôde recitar a frase quase palavra por palavra.
— “Mandar jovens para uma morte desnecessária não é um ato de liderança, mas de vanglória, indigno de um soldado profissional.” Isso, senhor, é algo que o senhor tem em comum com o general Eisenhower e, por isso, ele garante que, se o senhor depuser as armas, seus homens serão tratados com a máxima dignidade e respeito, como determinado pela Terceira Convenção de Genebra.
Harry esperava que a resposta do marechal de campo fosse, “Boa tentativa, meu jovem, mas pode dizer a quem quer que esteja comandando sua débil brigada do outro lado daquela colina que estou prestes a varrê-los da face da Terra”. Mas o que Kertel de fato disse foi:
— Discutirei a proposta do general com meus oficiais. Talvez o senhor possa ter a bondade de esperar do lado de fora.
— Claro, senhor — disse Harry, bateu continência, saiu da tenda e voltou para o Jeep. Quinn não falou quando ele se sentou novamente no banco dianteiro ao seu lado.
Estava na cara que os oficiais de Kertel não tinham todos a mesma opinião, pois vozes acaloradas provenientes da tenda puderam ser ouvidas. Harry conseguia imaginar as palavras honra, senso comum, dever, realismo, humilhação e sacrifício sendo lançadas de um lado e de outro. Mas as três que ele mais temia eram “ele está blefando”.
Quase uma hora se passou até o major chamar Harry novamente para dentro da tenda. Kertel estava afastado dos seus conselheiros de maior confiança, uma expressão exausta em seu rosto. Ele havia tomado uma decisão e, embora alguns dos oficiais não concordassem, uma vez que ele desse a ordem, eles jamais o questionariam. Ele não precisou dizer a Harry qual era a decisão.
— Tenho a sua permissão, senhor, para contatar o general Eisenhower e informá-lo da sua decisão?
O marechal de campo anuiu abaixando levemente a cabeça, e os oficiais saíram rapidamente da tenda para garantir o cumprimento da ordem.
Harry voltou ao Jeep acompanhado do major e viu 23 mil homens deporem as armas, descerem dos tanques e fazerem fila em colunas de três enquanto se preparavam para a rendição. Tendo blefado com o marechal de campo, seu único temor era não conseguir fazer o mesmo com o seu comandante de área. Ele pegou o telefone de campo e só teve de esperar alguns instantes até o coronel Benson entrar na linha. Harry esperava que o major não tivesse notado a gota de suor que estava escorrendo pelo seu nariz.
— Descobriu quantos deles vamos enfrentar, Clifton? — foram as primeiras palavras do coronel.
— Poderia me passar o general Eisenhower, coronel? Aqui fala o tenente Clifton, ajudante de ordens dele.
— Ficou louco, Clifton?
— Sim, eu espero enquanto o senhor o procura.
O coração de Harry não poderia estar batendo mais rápido nem se ele tivesse acabado de correr duzentos metros, e ele começou a se perguntar quanto tempo demoraria até o coronel perceber o que ele estava aprontando. Ele acenou com a cabeça para o major, mas o major não reagiu. Será que ele estava ali em pé esperando encontrar uma falha em sua armadura? Enquanto esperava, Harry observava milhares de combatentes, alguns perplexos e outros aliviados, se unindo às filas daqueles que já haviam abandonado os tanques e deposto armas.
— Aqui fala o general Eisenhower. É você Clifton? — disse o coronel Benson quando voltou à linha.
— Sim, senhor. Estou aqui com o marechal de campo Kertel e ele aceitou sua proposta: o 19º Corpo depõe as armas e se rende de acordo com os termos da Convenção de Genebra para evitar, se recordo corretamente suas palavras, senhor, uma carnificina desnecessária. Se o senhor avançar com um dos seus cinco batalhões, eles realizarão a operação ordenadamente. Prevejo superar o cume do monte Clemenceau, acompanhado pelo 19º Corpo — ele olhou para o relógio — às 17 horas aproximadamente.
— Estaremos à sua espera, tenente.
— Obrigado, senhor.
Cinquenta minutos mais tarde, Harry cruzou o monte Clemenceau pela segunda vez naquele dia, o batalhão alemão no seu rastro como se ele fosse o Flautista de Hamelin, e desceu para os braços dos Texas Rangers. Quando setecentos homens e 214 tanques circundaram o 19º Corpo, Kertal percebeu que fora enganado por um inglês e um irlandês cujas únicas armas eram um Jeep e um lenço.
O marechal de campo sacou uma arma de dentro da própria túnica e Harry pensou por um momento que seria baleado por ele. Kertel ficou em posição de atenção, bateu continência, pôs o revólver na têmpora e puxou o gatilho.
Harry não sentiu prazer algum com a sua morte.
Depois que os alemães foram cercados, o coronel Benson convidou Harry para levar o 19º Corpo de Não Blindados até o acampamento. Enquanto eles dirigiam à frente da coluna, até mesmo Pat Quinn tinha um sorriso no rosto.
Eles deviam estar a cerca de um quilômetro e meio de distância quando o Jeep passou sobre uma mina terrestre alemã. Harry ouviu o estrondo de uma explosão e se lembrou das palavras proféticas de Pat, Você não acha que já usamos um número suficiente das nossas nove vidas no ano passado?, enquanto o Jeep era lançado aos ares antes de pegar fogo.
E, depois, nada.