Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 34 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 32

 

— E a senhora diz que seu marido escreveu esse livro?

— Não, sr. Guinzburg — respondeu Emma. — Harry Clifton e eu não somos casados; no entanto, eu sou a mãe do filho dele. Mas, sim, Harry de fato escreveu O diário de um condenado enquanto estava preso em Lavenham.

Harold Guinzburg tirou os óculos de meia-lua da ponta do nariz e examinou com mais atenção a jovem sentada do outro lado da sua mesa.

— Tenho um pequeno problema com a sua afirmação — disse ele — e acho que deveria ressaltar que cada frase daquele diário foi escrita pela mão do sr. Lloyd.

— Ele copiou o manuscrito de Harry palavra por palavra.

— Para que isso fosse possível, o sr. Lloyd precisaria ter dividido uma cela com Tom Bradshaw, o que não deve ser difícil de verificar.

— Ou eles podem ter trabalhado juntos na biblioteca — sugeriu Alistair.

— Caso vocês consigam provar isso — disse Guinzburg —, minha empresa, e nesse caso eu mesmo, ficaria em uma posição no mínimo delicada, e, dadas as circunstâncias, talvez fosse sensato eu procurar ajuda jurídica.

— Gostaríamos de deixar claro desde o início — interveio Alistair, que estava sentado à direita de Emma — que viemos aqui em um espírito amistoso, pois achamos que o senhor gostaria de conhecer a história da minha prima.

— Foi o único motivo para eu ter concordado em recebê-los — disse Guinzburg —, pois sou um grande admirador do seu finado pai.

— Eu não sabia que o senhor o conhecia.

— De fato, não conhecia — esclareceu Guinzburg. — Ele foi a parte adversária em um litígio que envolveu minha empresa e saí do tribunal desejando que ele tivesse sido nosso advogado. Todavia, para que eu possa vir a aceitar a história da sua prima — prosseguiu —, espero que o senhor não se importe de eu fazer algumas perguntas à srta. Barrington.

— Será um prazer responder a suas perguntas, sr. Guinzburg — disse Emma. — Mas posso perguntar se o senhor leu o livro de Harry?

— Faço questão de ler todos os livros que publicamos, srta. Barrington. Não posso dizer que acho todos agradáveis nem que chego ao final de cada um deles, mas, no caso de O diário de um condenado , soube, assim que terminei o primeiro capítulo, que seria um campeão de vendas. Também fiz uma anotação na margem da página 211 — disse, pegou o livro e o folheou antes de começar a ler. — “Sempre quis ser um escritor e estou atualmente trabalhando na trama do primeiro volume de uma série de romances policiais ambientados em Bristol.”

— Bristol — disse Emma, interrompendo o velho. — Como o sr. Max Lloyd poderia saber algo sobre Bristol?

— Existe uma cidadezinha chamada Bristol em Illinois, estado natal do sr. Lloyd, srta. Barrington — respondeu Guinzburg —, como Max salientou quando demonstrei meu interesse em ler o primeiro romance da série.

— Isso nunca acontecerá — assegurou Emma.

— Ele já enviou os primeiros capítulos de Identidade trocada — rebateu Guinzburg — e devo dizer que são bastante bons.

— E esses capítulos foram escritos com o mesmo estilo do diário?

— Sim. E antes que pergunte, srta. Barrington, também são escritos com a mesma caligrafia, a menos que a senhorita esteja sugerindo que eles também foram copiados.

— Ele se safou uma vez. Por que não tentaria novamente?

— Mas a senhorita tem alguma prova concreta de que o sr. Lloyd não escreveu O diário de um condenado? — indagou Guinzburg, começando a soar um pouco irritado.

— Sim, senhor. Eu sou a “Emma” do livro.

— Nesse caso, srta. Barrington, concordo com a opinião do autor de que a senhorita é uma grande beldade e já provou, e aqui vou citá-lo, ser decidida e combativa.

Emma sorriu.

— E o senhor é um galanteador, sr. Guinzburg.

— Como ele escreveu, decidida e combativa — disse Guinzburg pondo os óculos de meia-lua novamente sobre o nariz. — Contudo, duvido que sua afirmação se sustente em um tribunal. Sefton Jelks pode pôr na tribuna das testemunhas meia dúzia de Emmas que jurariam cegamente que conhecem Lloyd desde sempre. Preciso algo mais concreto.

— O senhor não acha um pouco de coincidência demais o fato de o primeiro dia do diário ser o dia da chegada de Thomas Bradshaw em Lavenham?

— O sr. Lloyd explicou que só começou a escrever o diário quando se tornou o bibliotecário da prisão, tendo assim mais tempo à disposição.

— Mas como o senhor explica o fato de não haver menção alguma à sua última noite na prisão ou à manhã da sua libertação? Ele simplesmente toma café da manhã no refeitório e se apresenta à biblioteca para mais um dia de trabalho.

— Que explicação a senhorita oferece? — perguntou Guinzburg olhando-a por cima dos óculos.

— A pessoa que escreveu o diário continua em Lavenham e, provavelmente, está trabalhando no próximo volume.

— Isso não deve ser difícil de apurar — disse Guinzburg levantando uma sobrancelha.

— Concordo — disse Alistair — e já enviei uma solicitação para que a srta. Barrington visite o sr. Bradshaw por motivos humanitários. Estou esperando que o diretor de Lavenham dê sua aprovação.

— Permita-me fazer mais algumas perguntas, srta. Barrington, na esperança de dirimir quaisquer dúvidas remanescentes.

— Claro — concordou Emma.

O velho sorriu, puxou o colete para baixo, ajeitou os óculos e examinou uma série de perguntas em um bloco à sua frente.

— Quem é o capitão Jack Tarrant, às vezes mencionado como Velho Jack?

— O amigo mais antigo do meu avô. Eles serviram juntos na Guerra dos Bôeres.

— Qual avô?

— Sir Walter Barrington.

O editor anuiu.

— E a senhorita considerava o sr. Tarrant um homem honrado?

— Como a mulher de César, ele tinha um passado imaculado. Foi provavelmente a maior influência na vida de Harry.

— Mas a culpa não seria dele pelo fato de a senhorita e Harry não estarem casados?

— Essa pergunta é relevante? — perguntou Alistair interrompendo.

— Acho que estamos prestes a descobrir — disse Guinzburg sem tirar os olhos de Emma.

— Jack achou que era seu dever alertar o vigário da possibilidade de meu pai, Hugo Barrington, também ser o pai de Harry — respondeu Emma com voz embargada.

— Isso era necessário, sr. Guinzburg? — repreendeu Alistair.

— Ah, sim — disse o editor pegando o exemplar de O diário de um condenado que estava em cima da mesa. — Agora estou convencido de que foi Harry Clifton, e não Max Lloyd, que escreveu este livro.

Emma sorriu.

— Obrigada — disse —, embora eu não tenha certeza do que posso fazer a respeito.

— Eu sei exatamente o que vou fazer a respeito — declarou Guinzburg. — Para começo de conversa, vou lançar uma edição corrigida o mais rápido possível com duas grandes mudanças: o nome de Harry Clifton vai substituir o de Max Lloyd na capa, e a foto dele, presumindo que a senhorita tenha uma, vai figurar na quarta capa.

— Várias — assegurou Emma —, inclusive uma dele no Kansas Star antes de atracar no porto de Nova York.

— Isso também explicaria... — começou Guinzburg.

— Mas, se o senhor fizer isso — atalhou Alistair —, será um pandemônio. Jelks vai apresentar queixa por difamação em nome do seu cliente e reivindicar danos.

— Tomara — disse Guinzburg — porque, se ele o fizer, o livro sem dúvida alguma voltará ao primeiro lugar das listas de mais vendidos e lá ficará por vários meses. Entretanto, se ele nada fizer, como suspeito que irá acontecer, será sinal de que ele acredita que é a única pessoa que viu o caderno faltante no qual Harry Clifton escreveu sobre como foi parar em Lavenham.

— Eu sabia que havia outro — disse Emma.

— Certamente — reiterou Guinzburg — e foi sua menção ao Kansas Star que me fez perceber que o manuscrito que Max Lloyd enviou com os primeiros capítulos de Identidade trocada nada mais é do que uma narrativa do que aconteceu a Harry Clifton antes de ter sido condenado por um crime que não cometeu.

— O senhor me permitiria lê-lo?

 

Assim que entrou no escritório de Alistair, Emma percebeu que algo havia dado muito errado. As calorosas boas-vindas e o gracioso sorriso de sempre foram substituídos por uma testa franzida.

— Não vão me deixar visitar Harry, não é mesmo? — disse ela.

— Não — respondeu Alistair. — Sua solicitação foi indeferida.

— Mas por quê? Você me disse que era meu direito.

— Telefonei mais cedo esta manhã para o diretor da prisão e fiz exatamente a mesma pergunta.

— E que motivo ele alegou?

— Você mesma pode ouvir — disse Alistair —, pois gravei nossa conversa. Ouça atentamente porque ela nos dá três pistas importantes.

Sem dizer mais nada, ele se inclinou para a frente e apertou o botão de reprodução no seu Grundig. Duas bobinas começaram a girar.

— Instituto Correcional Lavenham.

— Eu gostaria de falar com o diretor.

— Quem gostaria?

— Alistair Stuart. Sou advogado em Nova York.

Silêncio seguido de outro sinal de chamada. Um silêncio mais longo. Em seguida:

— Vou passar a ligação, senhor.

Emma estava sentada na beirada da cadeira quando a voz do diretor surgiu na linha.

— Bom dia, sr. Stuart. Aqui fala o diretor Swanson. Em que posso ajudá-lo?

— Bom dia, sr. Swanson. Fiz um pedido dez dias atrás em nome da minha cliente, a srta. Emma Barrington, solicitando uma visita por motivos humanitários para um detento, Thomas Bradshaw, assim que possível. Recebi uma carta do seu gabinete esta manhã dizendo que a solicitação havia sido indeferida. Não consigo ver motivo legal para...

— Sr. Stuart, sua solicitação foi processada da maneira usual, mas não pude deferir seu pedido porque o sr. Bradshaw não se encontra mais detido nesta instituição.

Outro longo silêncio se seguiu, embora Emma pudesse ver que a fita ainda estava girando. Por fim, Alistair disse:

— E para qual instituição ele foi transferido?

— Não estou autorizado a divulgar essa informação, sr. Stuart.

— Mas, de acordo com a lei, minha cliente tem o direito de...

— O prisioneiro assinou um documento abrindo mão de seus direitos. Eu poderia lhe enviar uma cópia.

— Mas por que ele faria isso? — disse Alistair, jogando verde.

— Não estou autorizado a divulgar essa informação — repetiu o diretor sem cair na armadilha.

— O senhor tem autorização para divulgar alguma coisa relacionada a Tom Bradshaw? — perguntou Alistair tentando não parecer exasperado.

Outro longo silêncio se seguiu e, embora a fita estivesse correndo, Emma ficou se perguntando se o diretor havia desligado o telefone. Alistair pôs um dedo nos lábios e, de repente, a voz reapareceu na linha.

— Harry Clifton foi libertado da prisão, mas continuou a cumprir sua pena — disse. Outra longa pausa. — E eu perdi o melhor bibliotecário que este cárcere já teve.

O telefone emudeceu.

Alistair apertou o botão de parada antes de falar.

— O diretor fez o que podia para nos ajudar.

— Ao mencionar o nome de Harry? — perguntou Emma.

— Sim, mas também ao nos informar que Harry trabalhou na biblioteca da prisão até muito recentemente. Isso explica como Lloyd pôs as mãos nos diários.

Emma anuiu.

— Mas você disse que tinha três pistas importantes — lembrou ao primo. — Qual era a terceira?

— Harry foi libertado de Lavenham, mas continua a cumprir sua pena.

— Então, deve estar em outra prisão — deduziu Emma.

— Acho que não — disse Alistair. — Agora que estamos em guerra, aposto que Tom Bradshaw vai cumprir o resto da sua pena na Marinha.

— O que o faz pensar isso?

— Está tudo nos diários — disse Alistair. Pegou da mesa uma cópia de O diário de um condenado , folheou até uma página com um marcador e leu: — “A primeira coisa que vou fazer quando voltar a Bristol é me alistar na Marinha e combater os alemães.”

— Mas eles nunca o deixariam voltar à Inglaterra antes de cumprir a pena até o fim.

— Eu não disse que ele se alistou na Marinha Britânica.

— Ah, meu Deus! — disse Emma enquanto assimilava o significado das palavras de Alistair.

— Pelo menos sabemos que Harry está vivo — disse Alistair com um tom alegre.

— Eu gostaria de que ele ainda estivesse na prisão.