Os Pecados do Pai
Capítulo 42
Você sabe quando está morto?
Tudo acontece em um instante e, então, de repente, você não está mais lá?
Harry só podia ter certeza de uma coisa: as imagens que apareciam na sua frente eram como atores em uma peça de Shakespeare, cada um fazendo suas entradas e saídas. Mas ele não conseguia saber ao certo se era uma comédia, uma tragédia ou uma história.
O personagem central nunca mudava e era interpretado por uma mulher com um desempenho notável, enquanto os outros pareciam aparecer e desaparecer do palco de acordo com as suas ordens. Então, a certa altura, seus olhos se abriram e Emma estava ao seu lado.
Quando Harry sorriu, todo o rosto dela se iluminou. Ela se curvou e o beijou delicadamente nos lábios.
— Bem-vindo ao lar — disse ela.
Foi naquele momento que ele percebeu não somente quanto a amava, mas também que nada os separaria novamente. Harry segurou com gentileza a mão dela.
— Você vai precisar me ajudar — começou. — Onde estou? E há quanto tempo estou aqui?
— No Bristol General e há pouco mais de um mês. A situação ficou bastante precária por um tempo, mas eu não ia perder você novamente.
Harry segurou a mão dela com firmeza e sorriu. Estava se sentindo exausto e caiu no sono.
Quando acordou novamente, estava escuro e percebeu que estava sozinho. Tentou imaginar o que podia ter acontecido com todos aqueles personagens nos últimos cinco anos, pois, como em Noite de Reis, eles deviam ter acreditado que ele havia morrido no mar.
A mãe leu a carta que ele havia escrito? Giles usou o daltonismo como desculpa para não ser convocado? Hugo havia voltado para Bristol depois de se convencer de que Harry não era mais uma ameaça? Sir Walter Barrington e Lord Harvey ainda estavam vivos? E outro pensamento continuava a voltar o tempo todo: Emma estava esperando o momento certo para dizer a ele que havia outra pessoa na vida dela?
De repente, a porta do quarto foi aberta e um garotinho entrou correndo e gritando, “Papai, papai, papai!”, antes de pular na cama e abraçá-lo.
Emma apareceu momentos mais tarde e observou o primeiro encontro dos dois homens da sua vida.
Harry se lembrou da foto dele mesmo quando criança que a mãe mantinha sobre a lareira em Still House Lane. Não foi necessário que ninguém dissesse que o menino era seu filho e ele sentiu uma alegria que jamais poderia ter imaginado antes. Observou o menino mais de perto enquanto ele pulava na cama: o cabelo claro, os olhos azuis, o queixo quadrado, iguais ao do pai de Harry.
— Ah, meu Deus — disse Harry e voltou a cair no sono.
Quando acordou novamente, Emma estava sentada na cama ao seu lado. Ele sorriu e pegou a mão dela.
— Agora que conheci meu filho, há alguma outra surpresa? — perguntou.
Emma hesitou antes de acrescentar com um sorriso encabulado:
— Não sei bem por onde começar.
— Possivelmente pelo começo — disse Harry —, como em qualquer boa história. Mas lembre-se de que a última vez em que a vi foi no dia do nosso casamento.
Emma começou com a viagem para a Escócia e o nascimento de Sebastian, o filho deles. Ela havia acabado de tocar a campainha do apartamento de Kristin em Nova York quando Harry adormeceu.
Quando ele acordou de novo, Emma ainda estava com ele.
Harry gostou do relato sobre a tia-avó Phyllis e do primo Alistair e, embora só se lembrasse vagamente do detetive Kolowski, não se esqueceria jamais de Sefton Jelks. Quando Emma chegou ao final da história, estava cruzando o Atlântico em um avião de volta à Inglaterra, sentada ao lado do sr. Harold Macmillan.
Emma presenteou Harry com um exemplar de O diário de um condenado. Tudo o que Harry disse foi:
— Preciso tentar descobrir o que aconteceu com Pat Quinn.
Emma achou difícil encontrar as palavras certas.
— Ele foi morto pela mina? — Harry perguntou baixinho.
Emma baixou a cabeça. Harry não falou mais naquela noite.
Cada dia produzia novas surpresas porque, inevitavelmente, a vida de todos havia seguido adiante nos cinco anos desde que Harry os vira pela última vez.
Quando foi visitá-lo no dia seguinte, sua mãe estava sozinha. Ele ficou muito orgulhoso ao saber que ela estava se destacando na leitura e na escrita, e era a vice-gerente do hotel, mas ficou entristecido quando ela admitiu que nunca abrira a carta entregue pelo dr. Wallace antes que a mesma desaparecesse.
— Achei que fosse de um tal Tom Bradshaw — explicou ela.
Harry trocou de assunto.
— Vejo que a senhora está usando um anel de noivado e também uma aliança de casamento.
A mãe corou.
— Sim, eu queria ver você sozinha antes que você visse seu padrasto.
— Meu padrasto? — perguntou Harry. — É alguém que conheço?
— Ah, sim — ela respondeu, e teria contado com quem havia se casado se Harry não tivesse adormecido.
Harry acordou em seguida no meio da noite. Acendeu a luz de cabeceira e começou a ler O diário de um condenado. Sorriu várias vezes antes de chegar à última página.
Nada do que Emma lhe contou sobre Max Lloyd o surpreendeu, especialmente depois do reaparecimento de Sefton Jelks. Contudo, ele ficou surpreso quando Emma contou que o livro fora um campeão de vendas instantâneo e que a continuação estava tendo ainda mais sucesso.
— A continuação? — indagou Harry.
— O primeiro diário que você escreveu, sobre o que aconteceu com você antes de ser enviado para Lavenham, acabou de ser publicado na Inglaterra. Está desbancando as listas de mais vendidos aqui, como aconteceu nos Estados Unidos. Isso me faz lembrar: o sr. Guinzburg continua a perguntar quando receberá seu primeiro romance, que você menciona em O diário de um condenado.
— Tenho ideias suficientes para meia dúzia de livros — Harry disse.
— Então, por que não começa logo? — perguntou Emma.
Quando Harry acordou aquela tarde, sua mãe e o sr. Holcombe estavam em pé ao lado da cama, de mãos dadas como se estivessem no segundo encontro. Ele nunca havia visto a mãe tão feliz.
— O senhor não pode ser meu padrasto — Harry protestou enquanto os dois trocavam um aperto de mãos.
— Claro que sou — disse Holcombe. — A bem da verdade, eu deveria ter pedido a sua mãe em casamento vinte anos atrás, mas simplesmente não achava que estava à altura dela.
— E ainda não está — disse Harry com um sorriso. — Mas, afinal, nenhum de nós dois jamais estará.
— Para falar a verdade, casei com a sua mãe por causa do dinheiro dela.
— Que dinheiro? — perguntou Harry.
— Os dez mil dólares que o sr. Jelks enviou, o que nos permitiu comprar um chalé no campo.
— O que nos deixará eternamente gratos — interveio Maisie.
— Não agradeçam a mim — disse Harry. — Agradeçam a Emma.
A surpresa de Harry ao descobrir que sua mãe se casara com o sr. Holcombe não foi nada em comparação ao choque de quando Giles entrou no quarto trajando a farda de tenente do regimento Wessex. Como se não bastasse, seu peito estava coberto de medalhas de combate, inclusive a Cruz Militar. Mas quando Harry perguntou como ele a ganhara, Giles mudou de assunto.
— Estou planejando me candidatar ao Parlamento nas próximas eleições — anunciou.
— A qual distrito eleitoral você planeja conceder essa honra? — perguntou Harry.
— Bristol Docklands — Giles respondeu.
— Mas esse distrito é um bastião dos trabalhistas.
— E pretendo ser o candidato do Partido Trabalhista.
Harry não tentou esconder a surpresa,
— O que deu motivo a essa conversão digna de São Paulo? — perguntou.
— O cabo Bates, que serviu comigo na frente de batalha...
— Terry Bates?
— Sim, você o conheceu?
— Claro que sim. O garoto mais inteligente da minha turma na Escola Elementar Merrywood e o melhor desportista. Ele deixou a escola aos 12 anos para trabalhar na loja do pai: Açougue Bates and Son.
— Por isso vou concorrer como candidato do Partido Trabalhista. — disse Giles. — Terry tinha tanto direito de ir para Oxford quanto você ou eu.
No dia seguinte, Emma e Sebastian voltaram, armados de canetas, lápis, blocos e borracha. Ela disse a Harry que era chegada a hora de ele parar de pensar e começar a escrever.
Durante as longas horas de insônia, ou apenas de solidão, os pensamentos de Harry se voltavam para o romance que ele tencionara escrever se não tivesse saído de Lavenham.
Ele começou a fazer anotações gerais sobre os personagens que deviam prender a atenção do leitor. Seu detetive teria de ser único, original, alguém que ele esperava pudesse se tornar parte do cotidiano dos leitores, como Poirot, Holmes ou Maigret.
Por fim, escolheu o nome William Warwick. O Ilustre William seria o segundo filho do conde de Warwick e declinaria a oportunidade de ir para Oxford, para desgosto do pai, porque queria entrar para a polícia. Seu caráter se basearia vagamente no de Giles. Após três anos de patrulhamento, andando pelas ruas de Bristol, Bill, como era conhecido pelos colegas, se tornaria detetive policial, e faria parte da equipe do inspetor-chefe Blakemore, o homem que interveio quando Stan, o tio de Harry, foi preso e injustamente acusado de ter roubado dinheiro do cofre de Hugo Barrington.
Lady Warwick, a mãe de Bill, seria baseada em Elizabeth Barrington; Bill teria uma namorada chamada Emma, e seus avós, Lord Harvey e Sir Walter Barrington, fariam entradas ocasionais na história, mas apenas para oferecer sábios conselhos.
Toda noite, Harry relia as páginas que havia escrito naquele dia e, todas as manhãs, sua lixeira precisava ser esvaziada.
Harry sempre aguardava ansioso as visitas de Sebastian. Seu filhinho tinha muita energia, era muito curioso e bonito, igual à mãe, como todos costumavam brincar com ele.
Sebastian muitas vezes fazia perguntas que mais ninguém ousaria fazer: como é ficar preso? Quantos alemães você matou? Por que você e mamãe não são casados? Harry contornava a maioria delas, mas, sabendo que Sebastian era inteligente demais para não perceber o que o pai estava fazendo, temia ser encurralado pelo menino.
Toda vez que estava sozinho, Harry continuava a trabalhar no esboço da trama do romance.
Ele havia lido mais de uma centena de romances policiais quando estava trabalhando como bibliotecário assistente em Lavenham e achava que alguns dos personagens com os quais cruzou na prisão e no Exército podiam fornecer material para uma dúzia de romances: Max Lloyd, Sefton Jelks, o diretor Swanson, o guarda Hessler, o coronel Cleverdon, o capitão Havens, Tom Bradshaw e Pat Quinn, especialmente Pat Quinn.
Durante as semanas seguintes, Harry se perdeu em seu próprio mundo, mas teve de admitir que o modo como seus visitantes haviam passado os últimos cinco anos também se revelou mais estranho do que a ficção.
Quando Grace, a irmã de Emma, fez uma visita, Harry não comentou o fato de ela parecer muito mais velha do que da última vez em que ele a vira; afinal de contas, ela estava na escola na época. Agora Grace já estava no último ano em Cambridge e logo prestaria os exames finais. Ela contou a Harry com orgulho que, por alguns anos, trabalhou em uma fazenda e só voltou a Cambridge quando se convenceu de que a guerra já estava ganha.
Foi com tristeza que Harry soube por Lady Barrington que seu marido, Sir Walter, havia falecido; um homem que Harry só não havia admirado mais do que o Velho Jack.
O tio Stan nunca o visitou.
Com o passar dos dias, Harry pensou em abordar o assunto do pai de Emma, mas sentiu que até mesmo a menção do seu nome era delicada.
Então, uma noite, depois de Harry ser informado pelo médico de que logo receberia alta, Emma se deitou ao seu lado na cama e disse que o pai dela havia morrido.
Quando ela terminou a história, Harry disse:
— Você nunca foi muito boa em dissimular as coisas, minha querida; então, talvez esteja na hora de me dizer por que a família toda está apreensiva.