Os Pecados do Pai
Capítulo 34
Hugo pisou no freio do seu novo Lagonda quando ouviu um vendedor de jornais gritando seu nome na esquina de uma rua.
— O filho de Sir Hugo Barrington é condecorado por bravura em Tobruk. Leia tudo a respeito!
Hugo pulou para fora do carro, entregou ao menino uma moeda de meio penny e olhou para uma fotografia do filho como capitão da British Grammar School que dominava a primeira página. Voltou para o carro, desligou a ignição e leu toda a matéria.
O segundo-tenente Giles Barrington, do 1º Batalhão do Regimento Wessex, filho de Sir Hugo Barrington, baronete, foi agraciado com a Cruz Militar após uma ação em Tobruk. O tenente Barrington liderou um pelotão por oitenta metros no deserto aberto, matando um oficial alemão e cinco outros soldados, antes de alcançar uma trincheira inimiga e capturar 63 homens da infantaria alemã do Afrika Korps de Rommel. O tenente-coronel Robertson, do regimento Wessex, descreveu a ação do tenente Barrington como uma mostra notável de liderança e coragem abnegada diante de condições extremamente adversas.
O comandante do pelotão do segundo-tenente Barrington, capitão Alex
Fisher, outro ex-aluno da Bristol Grammar School, participou da mesma ação e também foi mencionado em despachos, bem como o cabo Terry Bates, açougueiro local de Broad Street. Em seguida, o tenente Giles Barrington foi capturado pelos alemães quando Rommel saqueou Tobruk. Nem Barrington nem Bates estão a par da própria condecoração por bravura porque ambos são atualmente prisioneiros de guerra na Alemanha. O capitão Fisher foi dado como desaparecido em combate. Matéria
completa nas páginas 6 e 7.
Hugo foi às pressas para casa para contar a notícia para a mãe.
— Walter teria ficado muito orgulhoso — ela comentou após terminar de ler a reportagem. — Preciso ligar para Elizabeth imediatamente, caso ela ainda não tenha ouvido a notícia.
Era a primeira vez em muito tempo que alguém mencionava o nome da sua ex-mulher.
— Achei que o senhor ficaria interessado em saber — disse Mitchell — que a sra. Clifton está usando um anel de noivado.
— Quem quer se casar com aquela megera?
— Um tal sr. Arnold Holcombe, ao que parece.
— Quem é ele?
— Um diretor de escola. Ensina inglês na Merrywood Elementary. De fato, foi professor de Harry Clifton antes de o garoto ir para St. Bede’s.
— Mas isso tem anos. Por que você nunca mencionou o nome dele?
— Eles só se reencontraram recentemente, quando a sra. Clifton começou a frequentar aulas noturnas.
— Aulas noturnas? — repetiu Hugo.
— Isso mesmo — disse Mitchell. — Ela está aprendendo a ler e escrever. Parece que ela é como o filho.
— Como assim? — disparou Hugo.
— Quando a turma prestou o exame de final de curso, ela tirou a maior nota.
— É mesmo? — disse Hugo. — Talvez eu devesse visitar o sr. Holcombe e contar para ele exatamente o que sua noiva andou aprontando nos anos em que os dois perderam contato.
— Talvez eu devesse mencionar que Holcombe lutou boxe pela Bristol University, como Stan Tancock descobriu às próprias custas.
— Posso cuidar de mim mesmo — rebateu Hugo. — Enquanto isso, quero que você fique de olho em uma outra mulher que talvez venha a se revelar tão perigosa para o meu futuro quanto Maisie Clifton.
Mitchell tirou um caderninho e um lápis de um bolso interior.
— O nome dela é Olga Pietrovska e ela mora em Londres, em Lowndes Square número 42. Preciso saber o nome de todas as pessoas com as quais ela tiver contato, especialmente se for entrevistada por alguém da sua antiga profissão. Não oculte nenhum detalhe, por mais trivial ou desagradável que você possa considerá-lo.
Depois que Hugo parou de falar, o caderno e o lápis desapareceram. Em seguida, ele entregou a Mitchell um envelope, sinal de que o encontro havia chegado ao fim. Mitchell pôs o pagamento no bolso do paletó, levantou-se e saiu mancando.
Hugo ficou surpreso com a rapidez com que o cargo de presidente da Barrington’s o entediou. Reuniões infinitas, incontáveis documentos a ler, minutas a serem divulgadas, memorandos a serem considerados e uma pilha de correspondência que precisava ser respondida. E, além disso, todas as noites antes de ele ir embora, a srta. Potts lhe entregava a pasta repleta de mais documentos que deviam ser lidos antes que ele voltasse a se sentar atrás da sua escrivaninha às oito horas da manhã seguinte.
Hugo convidou três amigos para fazer parte do conselho, dentre os quais Archie Fenwick e Toby Dunstable, na esperança de que eles aliviassem sua carga de trabalho. Eles raramente apareciam nas reuniões, mas esperavam receber suas remunerações.
À medida que as semanas foram passando, Hugo começou a chegar ao escritório cada vez mais tarde e, depois que Bill Lockwood lembrou ao presidente que faltavam apenas alguns dias para o seu aniversário de sessenta anos, momento em que se aposentaria, Hugo capitulou e disse que havia decidido que Lockwood podia ficar por mais dois anos.
— É muita gentileza sua reconsiderar meu cargo, presidente — disse Lockwood. — Mas sinto que, tendo servido a empresa durante quase quarenta anos, é chegada a hora de eu abrir caminho para um homem mais jovem.
Hugo cancelou a festa de despedida de Lockwood.
Aquele homem mais jovem era Ray Compton, o adjunto de Lockwood, que só estava na empresa havia uns poucos meses e certamente ainda não havia se ambientado totalmente. Quando ele apresentou os resultados anuais da Barrington’s ao conselho, Hugo aceitou pela primeira vez que a empresa estava, com muito custo, cobrindo as despesas e concordou com Compton que era hora de começar a demitir alguns dos trabalhadores das docas antes que a empresa não conseguisse mais pagar seus salários.
À medida que a situação da Barrington’s piorava, o futuro da nação parecia se tornar mais esperançoso.
Com o exército alemão recuando de Stalingrado, o povo britânico começou a acreditar pela primeira vez que os Aliados poderiam vencer a guerra. A confiança começou a penetrar novamente na psique da nação, e os teatros, clubes e restaurantes começaram a ser reabertos em todo o país.
Hugo queria voltar para a cidade e frequentar novamente seu meio social, mas os relatórios de Mitchell continuavam a deixar bem claro que era melhor ele se manter afastado de Londres.
O ano de 1943 não começou bem para a Barrington’s.
Vários contratos foram cancelados por clientes que ficavam exasperados quando o presidente não se dava ao trabalho de responder suas cartas e muitos credores começaram a exigir pagamentos. Um ou dois deles até ameaçaram dar entrada em ações legais. Então, uma manhã, surgiu um raio de sol que Hugo achou que resolveria todos os seus problemas imediatos de fluxo de caixa.
Foi uma ligação de Prendergast que aumentou a esperança de Hugo.
O gerente do banco fora contatado pela United Dominion Real Estate Company, que estava demonstrando interesse na compra dos terrenos de Broad Street.
— Julgo, Sir Hugo, que seria prudente não mencionar a cifra ao telefone — Prendergast disse com um tom um pouco pomposo.
Hugo estava sentado no escritório de Prendergast quarenta minutos mais tarde e até mesmo ele perdeu o fôlego quando ouviu qual era a oferta.
— Vinte e quatro mil libras? — repetiu Hugo.
— Sim — confirmou Prendergast —, e acredito que essa seja apenas a oferta inicial e que eu possa fazê-los chegar mais perto de trinta. Lembrando que seu gasto original foi inferior a três mil libras, acho que podemos considerá-lo um investimento muito astuto. Mas temos uma pequena pedra no sapato.
— Uma pedra? — disse Hugo parecendo ansioso.
— Uma pedra chamada sra. Clifton — esclareceu Prendergast. — A oferta está condicionada à sua obtenção do título de propriedade de toda a área, inclusive do terreno dela.
— Ofereça oitocentas libras a ela — Hugo latiu.
Prendergast deu sua costumeira tossida, embora não tenha lembrado ao cliente que, se ele tivesse seguido seu conselho, eles poderiam ter fechado negócio com a sra. Clifton por quatrocentas libras meses antes e se por acaso ela viesse a saber da oferta da United Dominion...
— Avisarei assim que tiver notícias dela — foi tudo o que Prendergast disse.
— Faça isso — disse Hugo — e, já que estou aqui, preciso sacar uma pequena soma da minha conta pessoal.
— Lamento, Sir Hugo, mas essa conta está no negativo neste momento...
Hugo estava sentado no banco dianteiro do seu moderno Lagonda azul-real quando Holcombe saiu pela porta da escola e começou a atravessar o pátio. Parou para falar com um faz-tudo que estava aplicando ao portão uma nova demão de lilás e verde, as cores da escola Merrywood.
— Belo trabalho, Alf.
— Obrigado, sr. Holcombe — Hugo ouviu o faz-tudo dizer.
— Mas ainda espero que você se concentre mais em seus verbos e tente não chegar atrasado na quarta-feira.
Alf levou a mão ao boné.
Holcombe começou a caminhar na calçada e fingiu não ter visto Hugo sentado atrás do volante do carro. Hugo deu um sorriso sarcástico; todos olhavam admirados seu Lagonda V12. Três jovens que estavam à toa na calçada oposta não conseguiam tirar os olhos do carro havia meia hora.
Hugo saltou do carro e ficou em pé no meio da calçada, mas Holcombe continuou a ignorá-lo. Ele não podia estar a mais de um passo de distância quando Hugo disse:
— Será que poderíamos trocar algumas palavras, sr. Holcombe, meu nome é...
— Sei muito bem quem é o senhor — disse Holcombe e seguiu em frente sem parar.
Hugo saiu atrás do diretor da escola.
— É só que achei que o senhor deveria saber...
— Saber o quê? — disse Holcombe, parando repentinamente e se virando para encará-lo.
— O que sua noiva fazia para ganhar a vida há não muito tempo.
— Ela foi forçada a se prostituir porque o senhor se recusou a pagar para o filho dela... — ele fixou os olhos de Hugo — para o seu filho os estudos nos últimos dois anos da Bristol Grammar School.
— Não há provas de que Harry Clifton é meu filho — disse Hugo desafiador.
— As provas foram suficientes para que um vigário se recusasse a deixar Harry se casar com a sua filha.
— Como o senhor sabe disso? Não estava lá.
— Como o senhor sabe disso? Saiu fugido.
— Então, deixe-me dizer algo que o senhor certamente não sabe — disse Hugo quase aos gritos. — Esse exemplo de virtude com o qual o senhor planeja passar o resto da vida me ludibriou e tirou de mim um terreno de minha propriedade em Broad Street.
— Deixe-me dizer algo que o senhor sabe muito bem — rebateu Holcombe. — Maisie pagou cada penny do seu empréstimo com juros e o senhor a deixou com menos de dez libras.
— Aquele terreno agora vale quatrocentas libras — retorquiu Hugo, arrependendo-se imediatamente do que acabara de dizer — e pertence a mim.
— Se assim fosse, o senhor não estaria tentando comprar o terreno pelo dobro desse valor.
Hugo ficou lívido por ter revelado até que ponto estava interessado no terreno, mas ainda não havia terminado.
— Então, quando o senhor faz sexo com Maisie Clifton, tem de pagar, diretor? Eu certamente não tive.
Holcombe levantou um punho.
— Vamos, bata em mim — aguilhoou Hugo. — Ao contrário de Stan Tancock, eu o processaria e tiraria cada tostão seu.
Holcombe abaixou o punho e saiu andando chateado consigo mesmo por ter permitido a Barrington irritá-lo.
Hugo sorriu. Achou que tivesse desferido o golpe final.
Virou-se e viu os garotos do outro lado da rua rindo. Afinal, eles nunca haviam visto um Lagonda lilás e verde.