Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 22 de 48

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Os Pecados do Pai

Giles Barrington - 1941-1942

GILES BARRINGTON

1941-1942

20

 

A primeira coisa que Giles viu foi sua perna direita erguida por uma polia e engessada.

Ele se lembrava vagamente de uma longa viagem, durante a qual a dor se tornara quase insuportável, fazendo com que ele deduzisse que morreria muito antes de chegar a um hospital. E ele nunca se esqueceria da operação, como seria possível, já que a anestesia acabou instantes antes de o médico fazer a primeira incisão?

Giles virou a cabeça muito lentamente para a esquerda e viu uma janela com três barras de cima a baixo; depois, virou-se para a direita e foi então que o viu.

— Não, você não — Giles disse. — Por um instante, achei que tivesse fugido e ido para o céu.

— Ainda não — disse Bates. — Antes você precisa passar um tempo no purgatório.

— Quanto tempo?

— Pelo menos até sua perna ficar boa, possivelmente mais.

— Estamos de volta à Inglaterra? — perguntou Giles esperançoso.

— Quem dera! — respondeu Bates. — Não, estamos na Alemanha, campo de prisioneiros de guerra Weinsberg, que é onde todos nós viemos parar após termos sido feitos prisioneiros.

Giles tentou se sentar, mas só conseguiu tirar um pouco a cabeça do travesseiro, o suficiente para ver pendurado na parede um retrato emoldurado de Adolph Hitler fazendo a saudação nazista para ele.

— Quantos dos nossos rapazes sobreviveram?

— Só um punhado. Os rapazes levaram a sério as palavras do coronel: “Todos nós sacrificaremos a própria vida antes que Rommel reserve uma suíte no Majestic Hotel.”

— Mais alguém do nosso pelotão sobreviveu?

— Você, eu e...

— Não me diga... Fisher?

— Não. Se o tivessem mandado para Weinsberg, eu teria pedido transferência para Colditz.

Giles ficou imóvel, olhando para o teto.

— Então, como fugimos?

— Eu estava calculando quanto tempo ia demorar para você fazer essa pergunta.

— E qual é a resposta?

— Sem chance enquanto sua perna ainda estiver engessada e, mesmo depois, não vai ser fácil, mas tenho um plano.

— Claro que você tem.

— O plano não é o problema — disse Bates. — O problema é a comissão de fuga. Eles controlam a lista de espera e você está no final da fila.

— Como vou para o início?

— É como qualquer fila na Inglaterra, você só precisa esperar a sua vez... a não ser que...

— O quê?

— A não ser que o brigadeiro Turnbuill, o oficial de patente mais alta, ache que existe um bom motivo para você avançar na fila.

— De que tipo?

— Falar alemão fluente é um bônus.

— Aprendi um pouco quando estava na escola para oficiais. Quem dera eu ter me concentrado mais...

— Bem, há aulas duas vezes por dia; portanto, alguém tão inteligente quanto você não deverá achar tão difícil. Infelizmente, até mesmo essa lista ainda está bastante comprida.

— Então, o que mais posso fazer para avançar mais rápido na lista de fuga?

— Encontre o trabalho certo. Foi assim que subi três lugares no mês passado.

— Como você conseguiu isso?

— Assim que descobriram que eu era açougueiro, os alemães me ofereceram um trabalho no refeitório dos oficiais. Eu mandei eles se foderem, desculpe o linguajar, mas o brigadeiro insistiu para que eu aceitasse o trabalho.

— Por que ele quer que você trabalhe para os alemães?

— Porque, ocasionalmente, posso dar um jeito e roubar comida da cozinha, porém, mais importante ainda, capto uma ou outra informação útil para a comissão de fuga. Por isso estou perto da frente da fila e você ainda está na traseira. Você vai precisar pôr os dois pés no chão se ainda tiver alguma esperança de chegar ao banheiro na minha frente.

— Alguma ideia de quanto vai demorar até eu poder fazer isso? — perguntou Giles.

— O médico da prisão diz que vai demorar pelo menos mais um mês, provavelmente seis semanas, até você poder tirar o gesso.

Giles se recostou no travesseiro.

— Mas, mesmo quando eu me levantar, que esperança posso ter de arrumar um trabalho no refeitório dos oficiais? Ao contrário de você, não tenho as qualificações certas.

— Mas você tem — disse Bates. — Na verdade, você pode arrumar um trabalho melhor do que o meu, na sala de jantar do comandante do campo, pois sei que eles estão procurando alguém para servir vinho.

— E o que faz você pensar que sou qualificado para servir vinho? — perguntou Giles sem tentar disfarçar o sarcasmo em sua voz.

— Se bem me lembro — respondeu Bates —, você costumava ter um mordomo chamado Jenkins que trabalhava em Manor House.

— Ele ainda está lá, mas isso não me qualifica...

— E seu avô, Lord Harvey, é comerciante de vinhos. Francamente, você é mais do que qualificado.

— Então, o que você está sugerindo?

— Depois que você sair daqui, eles vão fazer você preencher um formulário de trabalho listando seus empregos anteriores. Eu já disse a eles que você era um garçom de vinhos no Grand Hotel em Bristol.

— Obrigado. Mas eles vão saber em minutos...

— Acredite em mim, eles não fazem a menor ideia. Tudo o que você precisa fazer é melhorar seu alemão e tentar se lembrar do que Jenkins fazia. Depois, se conseguirmos pensar em um plano decente a ser apresentado à comissão de fuga, vamos passar para a frente da fila rapidinho. Mas, atenção, temos um probleminha.

— Com você envolvido, claro que temos.

— Mas já descobri uma maneira para contorná-lo.

— Qual é o probleminha?

— Você não pode trabalhar para os boches se estiver fazendo aulas de alemão; eles não são tão burros assim. Fazem uma lista de todo mundo que frequenta as aulas porque não querem ninguém ouvindo as conversas particulares deles.

— Você disse que descobriu uma maneira para contornar esse problema?

— Você vai ter de fazer o que todos os grã-finos fazem para se manter na frente de pessoas como eu: aulas particulares. Até achei um tutor para você, um sujeito que ensinava alemão na Solihull Grammar School. É só o inglês dele que você vai ter dificuldade para entender — disse Giles rindo. — E, como você vai ficar trancafiado aqui por mais seis semanas sem nada melhor para fazer, pode começar imediatamente. Tem um dicionário alemão-inglês embaixo do seu travesseiro.

— Estou em dívida com você, Terry — disse Giles, segurando a mão do amigo.

— Não, eu é que estou em dívida com você, não é mesmo? Por você ter salvado minha vida.