Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 15 de 48

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Os Pecados do Pai

Harry Clifton - 1941

HARRY CLIFTON

1941

13

 

Harry nunca esqueceria o dia em que Lloyd foi libertado de Lavenham e, embora não tenha ficado decepcionado por vê-lo ir embora, ficou surpreso com as palavras de Max ao se despedir.

— Você poderia me fazer um favor, Tom? — Lloyd disse enquanto eles trocavam um aperto de mão pela última vez. — Estou gostando tanto do seu diário que gostaria de continuar a lê-lo. Se você pudesse mandá-lo para este endereço — acrescentou, entregando a Harry um cartão como se já estivesse do lado de fora. — Devolvo tudo para você em uma semana.

Harry ficou lisonjeado e concordou em enviar a Max cada caderno assim que o completasse.

Na manhã seguinte, Harry assumiu seu posto atrás da mesa do bibliotecário, mas não pensou em ler o jornal da véspera antes de ter terminado suas tarefas. Continuou a atualizar seu diário toda noite e, sempre que chegava ao fim de um caderno, enviava seus últimos esforços a Max Lloyd. Ficava aliviado, e um pouco surpreso, sempre que eram devolvidos, como prometido.

À medida que os meses passavam, Harry começou a aceitar o fato de que a vida na prisão era em sua maior parte rotineira e mundana; portanto, quando o diretor irrompeu na biblioteca uma manhã brandindo sua cópia do New York Times, ele levou um susto. Harry pôs de lado a pilha de livros que estava recolocando nas prateleiras.

— Temos um mapa dos Estados Unidos? — Swanson perguntou.

— Temos, claro — respondeu Harry, caminhou silenciosamente até a seção de livros de referência e pegou uma cópia do Mapa dos Estados Unidos de Hubert. — Algum lugar em especial, diretor? — perguntou.

— Pearl Harbor.

Nas vinte e quatro horas seguintes só havia um único assunto na boca de todos, tanto prisioneiros quanto guardas: quando os Estados Unidos entrariam na guerra?

Swanson voltou à biblioteca na manhã seguinte.

— O presidente Roosevelt acabou de anunciar no rádio que os Estados Unidos declararam guerra ao Japão.

— Muito bem — disse Harry —, mas quando os americanos vão nos ajudar a derrotar Hitler?

Harry se arrependeu da palavra nos assim que a pronunciou. Levantou a cabeça, viu Swanson, que o fitava intrigado, e rapidamente voltou a pôr nas prateleiras os livros do dia anterior.

Harry descobriu a resposta algumas semanas mais tarde, quando Winston Churchill embarcou no Duke of York e navegou até Washington para discutir o assunto com o presidente norte-americano. Quando o primeiro-ministro voltou à Grã-Bretanha, Roosevelt havia concordado que os Estados Unidos voltariam a própria atenção para a guerra na Europa e para a tarefa de derrotar a Alemanha nazista.

Harry encheu páginas e mais páginas do seu diário com a reação dos seus colegas prisioneiros à notícia de que o país deles estava em guerra. Concluiu que a maioria dos prisioneiros se encaixava em uma de duas categorias: os covardes e os heróis, ou seja, os que ficavam aliviados por estarem trancafiados com segurança na cadeia e só esperavam que as hostilidades terminassem bem antes de serem soltos e aqueles que mal podiam esperar para sair e enfrentar o inimigo ainda mais odiado do que os guardas da prisão. Quando Harry perguntou ao seu colega de cela em que categoria ele se encaixava, Quinn respondeu:

— Você já conheceu algum irlandês que não gosta de uma boa briga?

Harry, por sua vez, ficou ainda mais frustrado, convencido de que, agora que os americanos tinham entrado na briga, a guerra terminaria bem antes de ele ter a chance de fazer sua parte. Pela primeira vez desde que foi preso, ele pensou em tentar fugir.

 

Harry tinha acabado de ler a resenha de um livro no New York Times quando um guarda entrou na biblioteca e disse:

— O diretor quer falar com você imediatamente no gabinete dele, Bradshaw.

Harry não ficou surpreso, embora, depois de olhar mais uma vez para o anúncio no pé da página, ainda estivesse se perguntando como Lloyd achava que se safaria. Dobrou o jornal com cuidado e o recolocou no cavalete, saindo da sala atrás do guarda.

— Alguma ideia de por que ele quer me ver, sr. Joyce? — Harry perguntou enquanto atravessavam o pátio.

— Não pergunte para mim — disse Joyce, sem tentar esconder seu sarcasmo. — Nunca fui um dos confidentes do diretor.

Harry só voltou a falar novamente quando eles estavam diante da porta do gabinete do diretor. Joyce bateu de levinho à porta.

— Entre — disse uma voz inconfundível.

Joyce abriu a porta, e Harry entrou na sala. Ficou surpreso ao ver um homem desconhecido sentado à frente do diretor. O homem estava usando um uniforme de oficial do Exército e parecia tão elegante quanto Harry parecia um mulambo. Ele não tirou os olhos do prisioneiro.

O diretor se levantou atrás da escrivaninha.

— Bom dia, Tom — era a primeira vez que Swanson se dirigia a ele pelo seu nome de batismo. — Este é o coronel Cleverdon, da 5ª Unidade dos Texas Rangers.

— Bom dia, senhor — cumprimentou Harry.

Cleverdon se levantou e apertou a mão de Harry; outra novidade.

— Sente-se, Tom — disse Swanson. — O coronel tem uma proposta a lhe fazer.

Harry se sentou.

— É um prazer conhecê-lo, Bradshaw — iniciou o coronel Cleverdon enquanto voltava a se sentar. — Sou o comandante dos Rangers — acrescentou e Harry olhou para ele com ar inquisitivo. — Você não nos encontrará listados em nenhum manual de recrutamento. Treino grupos de soldados que serão jogados atrás de linhas inimigas com o objetivo de causar tanta confusão para o inimigo quanto possível, de maneira que a infantaria tenha mais chance de fazer o próprio trabalho. Ninguém sabe ainda onde ou quando nossas tropas vão desembarcar na Europa, mas eu serei um dos primeiros a ser comunicado, pois meus rapazes serão lançados de paraquedas nas áreas-alvo alguns dias antes da invasão.

Harry estava sentado na beirada da cadeira.

— Mas, antes de o balão subir, vou reunir uma pequena unidade especializada para nos preparar para qualquer eventualidade. Essa unidade será composta de três grupos, cada um com dez homens: um capitão, um sargento-chefe, dois cabos e seis soldados. Durante as últimas semanas, entrei em contato com vários diretores de presídios para perguntar se eles tinham homens excepcionais que, em sua opinião, seriam adequados para uma operação desse tipo. Seu nome foi um dos dois apresentados pelo sr. Swanson. Depois de verificar o histórico de quando você serviu na Marinha, tive de concordar com o diretor que você ficaria melhor de farda do que desperdiçando seu tempo aqui.

Harry se virou para o diretor.

— Obrigado, senhor, mas posso perguntar quem é a outra pessoa?

— Quinn — disse Swanson. — Vocês dois me causaram tantos problemas nos últimos dois anos que achei que era a vez de os alemães serem submetidos ao tipo especial de subterfúgios de vocês.

Harry sorriu.

— Se você decidir se unir a nós, Bradshaw — continuou o coronel —, começará imediatamente um curso básico de treinamento de oito semanas, seguido de mais seis semanas com operações especiais. Antes de eu continuar, preciso saber se a ideia lhe agrada.

— Quando começo? — disse Harry.

O coronel sorriu.

— Meu carro está lá fora, no pátio, e deixei o motor ligado.

— Já mandei que suas roupas fossem pegas no depósito — disse o diretor. — Obviamente, precisamos manter em segredo o motivo para você ter partido tão depressa. Se alguém perguntar, direi que você e Quinn foram transferidos para outro presídio.

O coronel assentiu.

— Alguma pergunta, Bradshaw?

— Quinn concordou em se unir ao senhor? — perguntou Harry.

— Ele está sentado no banco de trás do meu carro, provavelmente se perguntando por que você está demorando tanto.

— Mas o senhor sabe por que estou preso, coronel?

— Deserção — respondeu o coronel Cleverdon. — Então, vou ter de ficar de olho em você, não é? — ironizou e os dois homens riram. — Você se juntará ao meu grupo como soldado, mas posso garantir que seu histórico não vai atrapalhar suas chances de promoção. Todavia, já que estamos falando a respeito, Bradshaw, uma mudança de nome talvez seja apropriada, devido às circunstâncias. Não queremos que algum espertinho em arquivos ponha as mãos nos nossos dossiês da Marinha e comece a fazer perguntas constrangedoras. Alguma ideia?

— Harry Clifton, senhor — ele disse um pouco rápido demais.

O diretor sorriu.

— Sempre me perguntei qual era seu verdadeiro nome.