Os Pecados do Pai
Hugo Barrington - 1942-1943
HUGO BARRINGTON
1942-1943
33
O funeral de Sir Walter foi realizado em St. Mary’s Redcliffe, e o finado presidente da Barrington’s Shipping Line teria certamente ficado orgulhoso ao ver uma congregação tão numerosa e ao ouvir o discurso emocionado feito pelo bispo de Bristol.
Depois da missa, as pessoas presentes fizeram fila para oferecer condolências a Sir Hugo, que estava ao lado da mãe na porta norte da igreja. Ele pôde explicar a quem perguntava, graças a informações transmitidas pela mãe na noite anterior, que sua filha Emma estava presa em Nova York, mas não sabia dizer por que ela havia ido para lá, e seu filho Giles, do qual se orgulhava imensamente, estava detido em um campo alemão de prisioneiros de guerra em Weinsberg.
Durante a missa, Lord e Lady Harvey, a ex-mulher de Hugo Elizabeth e sua filha Grace sentaram-se na primeira fila da igreja, do lado oposto ao de Hugo. Todos eles deram os pêsames à viúva e, em seguida, fizeram questão de ir embora sem cumprimentá-lo.
Maisie Clifton ficou sentada nos fundos da igreja, a cabeça inclinada durante toda a missa, e foi embora momentos após o bispo ter dado a bênção final.
Quando Bill Lockwood, o diretor-executivo da Barrington’s, se apresentou para apertar a mão do novo presidente e expressar suas condolências, tudo o que Hugo disse foi:
— Espero vê-lo amanhã no meu escritório às nove horas.
O sr. Lockwood inclinou levemente a cabeça.
Uma recepção foi organizada em Barrington Hall após o funeral, e Hugo circulou entre os convidados, muitos dos quais estavam prestes a descobrir que não tinham mais um emprego na Barrington’s. Quando o último convidado se foi, Hugo subiu para o quarto e mudou de roupa para o jantar.
Adentrou a sala de jantar de braços dados com a mãe. Depois que ela se sentou, ele assumiu o lugar do pai na cabeceira da mesa. Durante a refeição, enquanto não havia serviçais por perto, ele disse à mãe que, apesar das apreensões do pai, ele estava regenerado.
Ainda assegurou que a empresa estava em boas mãos e que tinha planos bem animadores.
Hugo, ao volante do seu Bugatti, entrou pelo portão do estaleiro Barrington’s pela primeira vez em dois anos às 9h23 da manhã seguinte. Estacionou na vaga do presidente antes de subir para o antigo escritório do pai.
Ao sair do elevador no quarto andar, viu Bill Lockwood andando para a frente e para trás no corredor diante do escritório com a pasta vermelha embaixo do braço. Mas a intenção de Hugo sempre foi mesmo fazê-lo esperar.
— Bom dia, Hugo — disse Lockwood dando um passo adiante.
Hugo passou por ele sem responder.
— Bom dia, srta. Potts — disse à velha secretária, como se nunca tivesse se afastado. — Avisarei quando estiver pronto para receber o sr. Lockwood — acrescentou antes de prosseguir para o seu novo escritório.
Sentou-se atrás da mesa do pai — ainda era assim que ele pensava a respeito e ficou imaginando quanto tempo aquela sensação duraria — e começou a ler o The Times. Depois que americanos e russos entraram na guerra, muito mais gente estava começando a acreditar em uma vitória dos Aliados. Largou o jornal.
— Vou receber o sr. Lockwood agora, srta. Potts.
O diretor executivo entrou no escritório do presidente com um sorriso no rosto.
— Bem-vindo de volta, Hugo — disse.
Hugo o encarou fixamente e disse:
— Presidente.
— Sinto muito, presidente — disse um homem que fazia parte do conselho da Barrington’s desde que Hugo usava calças curtas.
— Gostaria de que você me atualizasse a respeito da situação financeira da empresa.
— Claro, presidente — disse Lockwood abrindo a pasta vermelha que estava carregando embaixo do braço.
Embora o presidente o tenha convidado a se sentar, Lockwood permaneceu em pé.
— Seu pai — iniciou — conseguiu conduzir a empresa com prudência em meio a tempos conturbados e, apesar de vários reveses, sobretudo o fato de os alemães terem continuamente tomado de mira as docas durante os bombardeios aéreos noturnos no início da guerra, conseguimos, com a ajuda de contratos governamentais, resistir às dificuldades; portanto, deveremos estar em uma boa situação quando essa terrível guerra chegar ao fim.
— Chega de floreios — disse Hugo — e vá direto aos resultados.
— Ano passado — prosseguiu o diretor executivo virando uma página —, a empresa teve um lucro de 37.400 libras e dez xelins.
— Não podemos esquecer os dez xelins, não é mesmo? — disse Hugo.
— Essa foi sempre a atitude do seu pai — respondeu Lockwood sem captar o sarcasmo.
— E este ano?
— Nossos resultados do primeiro semestre sugerem que estamos em um bom caminho para igualar, talvez superar, os resultados do ano passado — Lockwood informou e virou outra página.
— Quantas vagas estão em aberto no conselho atualmente? — perguntou Hugo.
A mudança de assunto surpreendeu Lockwood, que teve de virar diversas páginas antes de conseguir responder.
— Três, já que, infelizmente, Lord Harvey, Sir Derek Sinclair e o capitão Havens renunciaram após o falecimento do seu pai.
— Folgo em saber — disse Hugo. — Vai me poupar o trabalho de demiti-los.
— Presumo que o presidente não vá querer que eu registre essas opiniões na ata desta reunião.
— Estou pouco me lixando — disse Hugo.
O diretor executivo baixou a cabeça.
— E quando você vai se aposentar? — foi a pergunta seguinte de Hugo.
— Completo 60 anos daqui a dois meses, mas se o presidente quiser, dadas as circunstâncias...
— Quais circunstâncias?
— Como o senhor acaba de ocupar essa cadeira, por assim dizer, eu poderia permanecer no cargo mais uns dois anos.
— É muita bondade sua — disse Hugo, e o diretor executivo sorriu pela segunda vez naquela manhã. — Mas, por favor, não se apoquente por minha causa. Dois meses são suficientes para mim. Então, qual é o maior desafio que enfrentamos no momento?
— Recentemente, fizemos uma proposta para um importante contrato governamental de arrendamento da nossa frota mercante para a Marinha — respondeu Lockwood após ter se recuperado. — Não somos os favoritos, mas acho que seu pai foi muito meticuloso quando os inspetores visitaram a empresa no início do ano; portanto, devemos ser levados a sério.
— Quando saberemos o resultado?
— Receio que ainda vá demorar um pouco. Os funcionários públicos não primam pela rapidez — acrescentou rindo da própria piada. — Também preparei várias pautas de discussão a serem examinadas, de maneira a deixá-lo bem informado antes de presidir sua primeira reunião do conselho.
— Não prevejo muitas reuniões do conselho no futuro — disse Hugo. — Acredito em uma liderança de ponta, que toma decisões e as defende. Mas pode deixar seus documentos com a minha secretária e eu os examinarei quando tiver tempo.
— Como quiser, presidente.
Instantes após a saída de Lockwood do escritório, Hugo já estava de partida.
— Vou ao banco — disse ao passar pela mesa da srta. Potts.
— Devo ligar para o sr. Prendergast e avisá-lo de que o senhor gostaria de vê-lo? — perguntou a srta. Potts correndo atrás de Hugo pelo corredor.
— De forma alguma — respondeu ele. — Eu quero pegá-lo de surpresa.
— Precisa que eu faça algo antes da sua volta, Sir Hugo? — a srta. Potts indagou enquanto ele entrava no elevador.
— Sim, mande trocar o nome na porta antes que eu volte.
A srta. Potts se virou para olhar para a porta do escritório. Sir Walter Barrington, Presidente estava escrito em dourado.
A porta do elevador se fechou.
Enquanto dirigia até o centro de Bristol, Hugo pensou que suas primeiras horas como presidente não poderiam ter sido melhores. Tudo estava finalmente como deveria ser no mundo. Ele estacionou o Bugatti na frente do National Provincial Bank em Corn Street, inclinou-se para a frente e pegou um pacote que havia deixado embaixo do banco do passageiro.
Adentrou o banco, passou pela mesa da recepção e se encaminhou direto para o escritório do gerente, batendo levemente à porta antes de entrar decidido. O sr. Prendergast, assustado, se levantou com um salto enquanto Hugo colocava uma caixa de sapatos sobre a mesa e se acomodava na cadeira à sua frente.
— Espero não estar interrompendo nada importante — disse Hugo.
— Claro que não, Sir Hugo — disse Prendergast olhando para a caixa de sapatos. — Estou a seu dispor a qualquer momento.
— É bom saber, Prendergast. Por que você não começa me atualizando sobre a situação em Broad Street?
O gerente do banco correu pela sala, abriu a gaveta de um arquivo, retirou de lá um espesso dossiê e o pôs sobre a mesa. Folheou alguns documentos antes de falar novamente.
— Ah, sim — disse por fim. — Eis o que eu estava procurando.
Hugo estava tamborilando o braço da cadeira impacientemente.
— Das 22 lojas que deixaram de comerciar em Broad Street desde o início dos bombardeios, 17 já aceitaram sua oferta de duzentas libras ou menos pela propriedade dos lotes, mais exatamente Roland, o florista; Bates, o açougueiro, Makepeace...
— E quanto à sra. Clifton? Ela aceitou minha oferta?
— Receio que não, Sir Hugo. A sra. Clifton disse que não se contentaria com menos de quatrocentas libras e disse que só vai esperar até a próxima sexta-feira para obter uma resposta.
— É mesmo? Desgraçada. Muito bem, pode dizer a ela que minha oferta final é de duzentas libras. Aquela mulher nunca teve um tostão furado em seu nome, e por isso acho que não vamos ter de esperar muito até ela raciocinar com clareza.
Prendergast deu uma leve tossida que Hugo conhecia bem.
— Se o senhor conseguir comprar todas as propriedades da rua, exceto a da sra. Clifton, quatrocentas libras serão um preço bastante razoável.
— Ela está blefando. Tudo o que precisamos fazer é esperar o momento oportuno.
— Se é isso que o senhor acha...
— É isso mesmo. E, de qualquer maneira, conheço o homem certo para convencer essa mulherzinha de que seria uma boa ideia aceitar duzentas libras.
Prendergast não parecia convencido, mas se satisfez perguntando:
— Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
— Pode — respondeu Hugo, tirando a tampa da caixa de sapatos. — Você pode depositar este dinheiro na minha conta pessoal e emitir um novo talão de cheques para mim.
— Claro, Sir Hugo — disse Prendergast olhando para dentro da caixa. — Vou contar e emitir um recibo e um talão de cheques.
— Mas vou precisar fazer um saque imediato, pois estou de olho em um Lagonda V12.
— Vencedor de Le Mans — disse Prendergast —; afinal, o senhor sempre foi um pioneiro nesse campo.
Hugo sorriu enquanto se levantava da cadeira.
— Ligue para mim assim que a sra. Clifton perceber que não receberá mais do que duzentas libras.
— Ainda empregamos Stan Tancock, srta. Potts? — Hugo perguntou enquanto entrava novamente no escritório.
— Sim, Sir Hugo — respondeu a secretária, seguindo-o. — Ele trabalha como estivador nos armazéns das docas.
— Quero vê-lo imediatamente — disse o presidente enquanto se afundava na poltrona atrás da escrivaninha.
A srta. Potts saiu apressadamente.
Hugo olhou para os dossiês empilhados sobre sua mesa que deveriam ser lidos antes da próxima reunião do conselho. Abriu a capa do que estava em cima: uma lista das exigências do sindicato após o último encontro com a direção. Hugo havia chegado ao item quatro da lista, duas semanas de férias pagas por ano, quando ouviu baterem à sua porta.
— Tancock está aqui, presidente.
— Obrigado, srta. Potts. Mande-o entrar.
Stan Tancock entrou no escritório, tirou o boné de pano e ficou em pé diante da mesa do presidente.
— O senhor queria me ver, patrão? — disse com ar um pouco nervoso.
Hugo levantou a cabeça e olhou para o estivador atarracado e barbado cuja barriga de cerveja não deixava muitas dúvidas acerca de onde a maior parte do seu salário ia parar nas noites de sexta-feira.
— Tenho um serviço para você, Tancock.
— Pois não, patrão — disse Stan com uma expressão mais esperançosa.
— Diz respeito à sua irmã, Maisie Clifton, e ao terreno que ela possui em Broad Street, onde ficava a casa de chá Tilly’s. Você sabe alguma coisa a respeito?
— Sim, patrão, algum sujeito estranho ofereceu duzentas pratas pelo terreno.
— É mesmo? — disse Hugo sacando a carteira de um bolso interno do paletó. Retirou uma nota de cinco libras novinha e pôs sobre a mesa. Hugo lembrou-se da mesma lambida de lábios e dos mesmos olhos porcinos da última vez em que o subornou. — Quero que você garanta, Tancock, que sua irmã aceitará a oferta sem dar a entender que estou envolvido de alguma maneira.
Deslizou a nota de cinco libras sobre a mesa.
— Sem problema — disse Stan, não mais olhando para o presidente, mas apenas para a cédula de cinco libras.
— Haverá uma outra dessa — disse Hugo batendo na carteira — no dia em que ela assinar o contrato.
— Considere feito, patrão.
Hugo acrescentou casualmente:
— Lamento pelo seu sobrinho.
— Não faz muita diferença para mim — disse Stan. — Na minha opinião, ele quis ir longe demais.
— Enterrado no mar, foi o que me disseram.
— É, há mais de dois anos.
— Como vocês descobriram?
— O médico do navio foi visitar minha irmã.
— E ele confirmou que o jovem Clifton foi enterrado no mar?
— Com certeza. Até levou uma carta de um colega que estava no navio quando Harry morreu.
— Uma carta? — disse Hugo inclinando-se para a frente. — O que dizia essa carta?
— Não faço ideia, patrão. Maisie nunca a abriu.
— E o que ela fez com a carta?
— Ainda está sobre a lareira.
Hugo sacou outra nota de cinco libras.
— Eu gostaria de ver essa carta.