Os Pecados do Pai
Capítulo 7
Uma ideia que o avô incutiu em Emma desde a mais tenra idade era nunca se atrasar para um compromisso. Isso causa a impressão errada, ele disse à neta; quer dizer, se você quiser ser levada a sério.
Com isso em mente, Emma deixou Manor House às 9h25 naquela manhã e o carro atravessou o portão do estaleiro Barrington’s exatamente quando faltavam oito minutos para as dez. Quando ela pôs os pés fora do elevador no quinto andar e atravessou o corredor até o escritório do presidente, faltavam dois minutos para as dez.
A secretária de Sir Walter, a srta. Beale, abriu a porta do escritório quando o relógio sobre a lareira do chefe começou a soar dez horas. O presidente sorriu, levantou-se de trás da mesa e atravessou a sala para cumprimentar Emma com um beijo em cada lado do rosto.
— E como vai minha neta favorita? — ele perguntou enquanto a guiava até uma confortável cadeira próxima ao fogo.
— Grace está ótima, vovô — disse Emma. — Saindo-se brilhantemente em Cambridge, pelo que me disseram, e manda beijos.
— Não seja impertinente comigo, mocinha — ele disse, retribuindo o sorriso da neta. — E Sebastian, meu bisneto favorito, como ele anda?
— Seu único bisneto — Emma lembrou enquanto se instalava em uma macia poltrona de couro.
— Como você não o trouxe consigo, deduzo que tenha algo importante a discutir.
Os preâmbulos foram assim encerrados. Emma sabia que Sir Walter tinha alocado um certo tempo ao encontro. A srta. Beale uma vez disse que, aos visitantes, eram concedidos quinze minutos, trinta minutos ou uma hora, dependendo da importância que Sir Walter lhes atribuía. Os parentes não estavam excluídos de tal regra, exceto aos domingos. Emma tinha várias perguntas que precisavam de resposta; portanto, esperava que o avô tivesse reservado a ela pelo menos meia hora.
Ela se recostou e tentou relaxar porque não queria que o avô deduzisse o verdadeiro motivo da sua visita.
— O senhor se lembra de quando gentilmente foi à Escócia — iniciou — para me informar que Harry havia morrido no mar? Receio que eu tenha ficado tão chocada que não assimilei tudo. Então, gostaria que o senhor me falasse um pouco mais dos últimos dias da vida dele.
— Claro, minha querida — disse Sir Walter compreensivamente. — Tomara que minha memória não me falhe. Há algo específico que você gostaria de saber?
— O senhor me disse que Harry se alistou como quarto oficial no Devonian após chegar de Oxford.
— Exato. Foi meu velho amigo, o capitão Havens, que tornou isso possível, e ele foi um dos poucos sobreviventes da tragédia. Quando o visitei recentemente, ele não poderia ter falado com mais carinho de Harry. Descreveu-o como um jovem corajoso, que não apenas o salvou após o navio ter sido atingido por um torpedo, mas que também sacrificou a própria vida ao tentar resgatar o engenheiro-chefe.
— O capitão Havens também foi resgatado pelo Kansas Star?
— Não, por um outro navio que estava nas proximidades; portanto, infelizmente, ele nunca mais viu Harry.
— Então, ele não presenciou o enterro de Harry no mar?
— Não, o único tripulante do Devonian que estava presente quando Harry morreu era um americano chamado Thomas Bradshaw.
— O senhor me disse que um tal dr. Wallace entregou uma carta do tenente Bradshaw à sra. Clifton.
— Correto. O dr. Wallace era o médico-chefe do Kansas Star. Ele me garantiu que toda a sua equipe fez todo o possível para salvar a vida de Harry.
— Bradshaw também escreveu para o senhor?
— Não, apenas para a pessoa mais próxima, se bem me lembro das palavras do dr. Wallace.
— Então, o senhor não acha estranho ele não ter escrito para mim?
Sir Walter ficou em silêncio por um certo tempo.
— Sabe, nunca pensei muito a respeito. Talvez Harry nunca tenha mencionado você para Bradshaw. Você sabe como ele podia ser reservado.
Emma havia pensado muitas vezes a respeito, mas mudou rapidamente de assunto.
— O senhor leu a carta que ele enviou à sra. Clifton?
— Não, não li, mas a vi sobre a lareira quando a visitei no dia seguinte.
— O senhor acha que o dr. Wallace tinha alguma ideia do que Bradshaw havia escrito naquela carta.
— Acho que sim. Ele me disse que era uma carta de pêsames de um colega de tripulação que serviu com Harry no Devonian.
— Se eu pelo menos pudesse me encontrar com o tenente Bradshaw... — disse Emma jogando verde.
— Não sei como você poderia fazer isso, minha querida — disse Sir Walter —, a menos que Wallace tenha mantido contato com ele.
— O senhor tem o endereço do dr. Wallace?
— Só aos cuidados do Kansas Star.
— Mas eles certamente pararam de viajar para Bristol quando a guerra foi declarada.
— Não enquanto houver americanos encurralados na Inglaterra dispostos a pagar mundos e fundos para voltar para casa.
— Com tantos submarinos alemães patrulhando o Atlântico, esse não seria um risco desnecessário?
— Não enquanto os Estados Unidos permanecerem neutros — respondeu Sir Walter. — A última coisa que Hitler quer é começar uma guerra com os ianques simplesmente porque um de seus submarinos afundou um navio de passageiros americano.
— O senhor sabe se o Kansas Star vai voltar a Bristol proximamente?
— Não, mas posso descobrir facilmente.
O velho se levantou da poltrona e caminhou lentamente até a escrivaninha. Começou a virar página após página do cronograma mensal de atracações.
— Ah, aqui está — disse por fim. — Está programado para zarpar de Nova York daqui a quatro semanas e deve chegar em Bristol em 15 de novembro. Se você espera se encontrar com alguém a bordo, saiba que o Kansas Star não vai ficar atracado muito tempo, pois, aqui, estaria vulnerável a ataques.
— Eu poderia subir a bordo?
— Não, a menos que você seja membro da tripulação ou esteja procurando trabalho e, francamente, não consigo ver você nem como taifeiro nem como garçonete de coquetéis.
— Então, como posso fazer para ver o dr. Wallace?
— Vamos ter de esperar nas docas na esperança de que ele desembarque. Quase todo mundo desembarca depois de uma viagem de uma semana. Então, se ele estiver no navio, tenho certeza de que você vai ter oportunidade de vê-lo. Mas não se esqueça, Emma: Harry morreu há mais de um ano; portanto, Wallace talvez não seja mais o médico do navio — advertiu, e Emma mordeu o lábio. — Mas, se você quiser que eu arranje um encontro privado com o capitão, eu ficaria feliz...
— Não, não — Emma disse rapidamente. — Não é tão importante assim.
— Se você mudar de ideia — iniciou Sir Walter, percebendo repentinamente como aquilo era importante para Emma.
— Não, obrigada, vovô — ela disse enquanto se levantava da poltrona. — Obrigada por me dedicar tanto tempo.
— Nem de longe o suficiente — disse o velho. — Eu só gostaria que você aparecesse com mais frequência. E trate de trazer Sebastian da próxima vez — acrescentou enquanto a acompanhava até a porta.
Sir Walter não tinha mais dúvida alguma do motivo para a neta tê-lo ido visitar.
Dentro do carro no caminho de volta para Manor House, uma frase permanecia impressa na mente de Emma. Ela continuava a repetir silenciosamente aquelas palavras, como a agulha de um gramofone presa em um sulco.
Depois de chegar em casa, ela se juntou a Sebastian no quarto das crianças. Ele precisou ser convencido a descer do cavalinho de pau depois de ter derramado algumas lágrimas. Depois do almoço, ele se enroscou como um gato satisfeito e caiu em um sono profundo. A babá o pôs na cama enquanto Emma tocava a sineta para chamar o chofer.
— Eu gostaria de ir novamente a Bristol, Hudson.
— Algum lugar em especial, senhorita?
— O Grand Hotel.
— Você quer que eu faça o quê? — disse Maisie.
— Contrate-me como garçonete.
— Mas por quê?
— Prefiro não dizer.
— Você faz alguma ideia de como esse trabalho é pesado?
— Não — admitiu Emma —, mas não vou decepcioná-la.
— E quando você quer começar?
— Amanhã.
— Amanhã?
— Sim.
— Por quanto tempo?
— Um mês.
— Deixe-me ver se entendi direito — disse Maisie. — Você quer que eu a treine como garçonete, a partir de amanhã, para ir embora daqui a um mês e não quer me dizer por quê?
— Mais ou menos isso.
— Você espera ser paga?
— Não — respondeu Emma.
— Bem, isso é um alívio.
— Então, quando começo?
— Às seis horas amanhã de manhã.
— Às seis horas? — repetiu Emma incrédula.
— Isso pode surpreender você, Emma, mas tenho clientes que precisam ser alimentados até as sete horas e estar no trabalho às oito; portanto, você vai precisar estar no seu posto às seis da manhã.
— Meu posto?
— Explicarei se você aparecer antes das seis.
Emma não se atrasou uma vez sequer para o trabalho nos vinte e oito dias seguintes, talvez porque Jenkins tenha batido à sua porta às 4h30 todas as manhãs e Hudson a tenha deixado a cem metros da entrada dos funcionários do Grand Hotel às 5h45.
A srta. Dickens, como ela era conhecida pelo resto dos funcionários, aproveitou-se de suas habilidades de atriz para garantir que ninguém descobrisse que ela era uma Barrington.
A sra. Clifton não demonstrou nenhum favoritismo quando Emma derramou sopa em cima de um cliente regular e menos ainda quando ela deixou cair uma pilha de pratos que se espatifaram no meio da sala de jantar. O custo normalmente teria sido deduzido do salário, se ela tivesse um. E demorou um tempo até Emma pegar o jeito de como usar o ombro para cruzar as portas vaivém que serviam de entrada e saída da cozinha sem colidir com outra garçonete vindo na direção oposta.
Apesar disso, Maisie logo descobriu que só precisava dizer as coisas uma vez e Emma não as esquecia. Também ficou impressionada com a velocidade com que Emma conseguia limpar e preparar uma mesa, embora nunca tivesse posto nenhuma antes. E, embora a maioria das aprendizes demorasse várias semanas para dominar a habilidade de como servir os clientes, algumas nunca conseguiam —, Emma não precisava mais de supervisão já no final da segunda semana.
Ao final da terceira semana, o desejo de Maisie era que ela não fosse embora e, ao final da quarta, esse era o mesmo desejo de vários clientes regulares que insistiam para ser servidos apenas pela srta. Dickens.
Maisie estava ficando ansiosa, pensando em como explicaria ao gerente do hotel que a srta. Dickens havia pedido demissão após somente um mês.
— A senhora pode dizer ao sr. Hurst que me ofereceram um trabalho melhor com um salário mais alto — disse Emma enquanto começava a dobrar o uniforme.
— Ele não vai ficar contente — disse Maisie. — Poderia ter sido mais fácil se você tivesse se revelado inútil. Ou pelo menos tivesse chegado atrasada algumas vezes.
Emma riu e arrumou a touquinha branca sobre as roupas pela última vez.
— Há algo mais que posso fazer por você, srta. Dickens?
— Sim, por favor — disse Emma. — Preciso de referências.
— Vai se candidatar a outro trabalho sem pagamento?
— Algo assim — respondeu Emma, sentindo-se um pouco culpada por não poder se abrir com a mãe de Harry.
— Então, vou ditar uma carta de referências, você a escreve e eu a assino — Maisie disse, passando para Emma uma folha do papel timbrado do hotel. — A quem interessar possa — começou Maisie. — Durante o breve período...
— Posso omitir o “breve”? — perguntou Emma.
Maisie sorriu.
— Durante o período em que esteve conosco no Grand... — Emma escreveu “srta. Barrington”, mas não disse a Maisie —, a srta. Dickens se revelou trabalhadora, eficiente e popular tanto com os clientes quanto com os funcionários. Suas habilidades como garçonete são impressionantes e sua capacidade de aprender no trabalho me convencem de que seria uma sorte para qualquer estabelecimento tê-la como parte de sua equipe. Ficaremos tristes em perdê-la e, caso ela algum dia queira retornar a este hotel, será um prazer recebê-la de volta.
Emma sorriu ao devolver a folha de papel. Maisie rabiscou sua assinatura em cima das palavras Gerente do Restaurante.
— Obrigada — agradeceu Emma, abraçando-a.
— Não faço ideia do que você está aprontando, minha querida — disse Maisie depois que Emma a soltou —, mas, seja lá o que for, desejo que você tenha sorte.
Emma queria dizer: “Vou em busca do seu filho e só volto quando o tiver encontrado.”