Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 14 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 12

 

No dia seguinte, ao meio-dia, Giles saiu de um mundo e entrou em outro.

Trinta e seis recrutas inexperientes, sem nada em comum exceto o fato de terem se alistado para servir ao rei, subiram em um trem com um cabo que agia como se fosse uma babá. À medida que o trem partia da estação, Giles olhou através da janela sebenta da terceira classe com uma única certeza: eles estavam rumando para o sul. Mas foi só quando o trem parou em Lympstone quatro horas mais tarde que percebeu quanto ao sul já estavam.

Durante a viagem, Giles ficou em silêncio e ouviu com atenção todos aqueles homens à sua volta que seriam seus companheiros pelas doze semanas seguintes. Um motorista de ônibus de Filton, um policial de Long Ashton, um açougueiro de Broad Street, um operário de obra de Nailsea e um fazendeiro de Winsecombe.

Após desembarcarem do trem, o cabo os levou até um ônibus que os estava esperando.

— Para onde estamos indo? — perguntou o açougueiro.

— Você logo vai descobrir, rapaz — respondeu o cabo, revelando seu país de origem pelo sotaque escocês.

Durante uma hora, o ônibus avançou lentamente em direção a Dartmoor até não haver mais sinal de casas nem de pessoas, apenas as águias que ocasionalmente pairavam sobre eles em busca de presas.

Eles acabaram parando na frente de um desolador grupo de edifícios que exibiam uma placa gasta que anunciava: Quartel de Ypres: Campo de treinamento para o Regimento Wessex. Aquilo não animou Giles. Um soldado saiu marchando da guarita e levantou a cancela para deixar que o ônibus prosseguisse mais cem metros antes de parar no meio de um campo de manobras. Uma figura solitária estava lá em pé esperando que eles desembarcassem.

Quando Giles saltou do ônibus, ficou cara a cara com um homem gigantesco, com um peito largo como um barril e uma farda cáqui, que parecia ter sido plantado no meio do campo de manobras. Em seu peito havia três fileiras de medalhas e, embaixo do braço esquerdo, um medidor de passos, porém, o que mais impressionou Giles naquele homem foi o vinco de suas calças, afiado como uma faca, e o fato de suas botas estarem tão polidas a ponto de poder ver o próprio reflexo nelas.

— Boa tarde, cavalheiros — disse o homem em uma voz que tonitruou pelo campo de manobras, fazendo com que Giles pensasse que, naquele caso, megafones eram inúteis. — Meu nome é sargento-mor Dawson; senhor, para vocês. É minha responsabilidade transformar essa turba atabalhoada em uma força de combate em apenas doze semanas. Ao final, vocês poderão se autodenominar membros do regimento Wessex, o melhor de todos. Nas próximas doze semanas, serei sua mãe, seu pai e sua namorada e, podem ter certeza, só tenho um objetivo na vida: certificar-me de que, ao se deparar com o primeiro alemão, vocês sejam capazes de matá-lo antes que ele mate vocês. Esse processo começará amanhã às cinco horas da manhã — acrescentou, acarretando um resmungo que foi ignorado pelo sargento-mor. — Até lá, deixarei que o cabo McCloud os leve à cantina antes que vocês possam se instalar no dormitório. Tratem de descansar bem esta noite porque precisarão de cada gota de energia que possuem quando voltarmos a nos encontrar. Proceda, cabo.

Giles se sentou diante de uma torta de peixe cujos ingredientes nunca tinham visto água salgada e, depois de tomar um gole de uma água amarronzada que se passava por chá, pôs a caneca novamente sobre a mesa.

— Se você não for comer sua torta de peixe, pode dar para mim? — perguntou o rapaz sentado ao seu lado.

Giles anuiu com a cabeça, e os dois trocaram os pratos. O rapaz só voltou a falar depois de devorar a porção de Giles.

— Conheço sua mãe — disse o homem.

Giles o olhou com mais atenção, perguntando a si mesmo como aquilo era possível.

— Fornecemos carne para Manor House e Barrington Hall — o homem continuou. — Gosto da sua mãe. Uma senhora muito simpática. Meu nome é Bates, a propósito. Terry Bates — disse e apertou com firmeza a mão de Giles. — Nunca achei que fosse acabar sentado ao seu lado.

— Muito bem, rapazes, vamos lá — disse o cabo.

Os novos recrutas se levantaram rapidamente dos bancos, seguiram o cabo para fora da cantina e atravessaram o campo de manobras até um abrigo Nissen com MARNE pintado na porta.

— Outra batalha honrosa do regimento Wessex — explicou o cabo antes de abrir a porta e revelar o novo lar deles.

Trinta e seis camas, dezoito de cada lado, haviam sido espremidas em um espaço que não era maior do que a sala de jantar de Barrington Hall. Giles fora colocado entre Atkinson e Bates. Não muito diferente da escola primária, ele pensou, embora fosse se deparar com uma ou duas diferenças nos dias seguintes.

— Muito bem, rapazes, hora de tirar a roupa e dormir.

Muito antes de o último homem ter deitado na cama, o cabo apagou as luzes e berrou:

— Tratem de tirar uma pestana. Vocês têm um dia cheio pela frente amanhã.

Giles não teria ficado surpreso se, como Fisher, o velho prefeito da sua escola, ele tivesse acrescentado: “Nem um pio depois de as luzes terem sido apagadas.”

Como prometido, as luzes foram acesas novamente às cinco horas da manhã seguinte; não que Giles tenha tido alguma oportunidade de olhar o relógio depois que o sargento-mor Dawson entrou no barracão e gritou:

— O último homem a pôr os dois pés no chão será o primeiro a levar uma baionetada de um boche!

Um grande número de pés rapidamente tocou o chão enquanto o sargento-mor marchava pelo centro do barracão, o medidor de passos batendo em cada cama cujo ocupante ainda não estava com os dois pés no chão.

— Agora, ouçam e prestem muita atenção — prosseguiu. — Vou dar a vocês quatro minutos para se lavarem e fazerem a barba, quatro minutos para arrumarem as camas, quatro minutos para se vestirem e oito minutos para tomarem o café da manhã. Vinte minutos no total. Recomendo que não haja conversa porque vocês não podem se dar ao luxo de jogar tempo fora e, de qualquer maneira, eu sou o único com permissão para falar. Entendido?

— Certamente — disse Giles, seguido por uma onda de risadas de surpresa.

Um instante mais tarde, o sargento-mor estava em pé na frente dele.

— Sempre que você abrir a boca, filho — ele latiu, apoiando o medidor de passos no ombro de Giles —, tudo o que quero ouvir é “Sim, senhor”, “Não, senhor”, “Prontamente, senhor”. Está claro?

— Sim, senhor — respondeu Giles.

— Acho que não o ouvi, filho.

— Sim, senhor! — gritou Giles.

— Assim está melhor. Agora, trate de ir para o lavatório, seu homenzinho horrível, antes que eu o ponha de penitência.

Giles não fazia ideia do que fosse a penitência, mas não estava disposto a descobrir.

Bates já estava saindo do lavatório quando Giles entrou. Quando Giles terminou de se barbear, Bates já tinha feito a própria cama, se vestido e estava saindo rumo à cantina. Quando finalmente o alcançou, Giles se sentou no banco à sua frente.

— Como você consegue? — Giles perguntou admirado.

— Consegue o quê? — disse Bates.

— Estar tão desperto enquanto o resto de nós está semiadormecido.

— É simples. Sou açougueiro, como meu pai. Levanto todo dia às quatro da madrugada e vou para o mercado. Se eu quero os melhores cortes, preciso estar esperando no momento em que são entregues das docas ou da estação. Bastam alguns minutos de atraso e só consigo pelancas, e sua mãe não ia gostar nada disso, não é?

Giles riu enquanto Bates se levantava e começava a voltar para o barracão para descobrir que o sargento-mor não havia deixado nenhum tempo para que eles escovassem os dentes.

A maior parte da manhã foi gasta com a distribuição dos uniformes, e um ou dois deles pareciam já ter tido um dono. Boinas, cintos, botas, capacetes, pasta para polimento, lustrador de metais e graxa para sapatos foram distribuídos em seguida. Depois de terem sido equipados, os recrutas foram levados para o campo de manobras para a primeira sessão de exercícios. Tendo servido, mesmo que desatentamente, na Força Combinada de Cadetes da escola, Giles saiu em leve vantagem, mas tinha a sensação de que não demoraria muito até ser alcançado por Terry Bates.

Ao meio-dia foram levados para a cantina. Giles estava com tanta fome que comeu quase tudo o que estava disponível. Depois do almoço, eles voltaram para o barracão e puseram a roupa de ginástica antes de serem levados até o ginásio. Giles agradeceu silenciosamente ao instrutor de educação física da escola secundária por tê-lo ensinado a escalar uma corda, equilibrar-se sobre uma trave e usar barras presas à parede para se alongar. Ele não pôde deixar de notar que Bates copiava todos os seus movimentos.

A tarde terminou com uma corrida de oito quilômetros pelos brejos de Devon. Apenas oito dos trinta e seis recrutas voltaram para o quartel junto com o instrutor de ginástica. Um deles até conseguiu se perder, e uma expedição de busca foi organizada para procurá-lo. O jantar foi seguido pelo que o sargento-mor descreveu como recreação, o que, para a maioria dos rapazes, significou se jogar na cama e cair em um sono profundo.

 

Às cinco horas da manhã seguinte, a porta do barracão foi escancarada novamente e, daquela vez, vários pares de pés já estavam no chão antes mesmo que o sargento-mor tivesse acendido as luzes. O café da manhã foi seguido de uma hora de marcha no campo de manobras e, àquela altura, quase todos já estavam no passo certo. Em seguida, os recrutas se sentaram em círculo sobre a grama e aprenderam como desmontar, limpar, carregar e disparar um rifle. O cabo passou uma tira de tecido pelo cano em um único movimento, lembrando aos outros que o projétil não sabe de que lado está e que, portanto, eles deviam dar-lhe toda a chance de sair do cano pela frente e matar o inimigo, e não sair pela culatra e matá-los.

A tarde foi passada no estande de tiro, onde os instrutores ensinaram cada recruta a alojar com firmeza a coronha do rifle no ombro, alinhar o vértice e a ranhura com o círculo central da mira e a apertar o gatilho suavemente e nunca de maneira violenta. Daquela vez, Giles agradeceu ao avô pelas horas passadas caçando tetrazes, garantindo que ele sempre acertasse na mosca.

O dia terminou com outra corrida de oito quilômetros, jantar e recreação, seguidos pelo apagar das luzes às dez. A maioria dos homens já havia tombado na cama muito antes disso, desejando que o sol não raiasse na manhã seguinte ou que pelo menos o sargento-mor morresse durante o sono. Mas não tiveram sorte. A primeira semana pareceu um mês para Giles, mas, ao final da segunda, ele estava começando a dominar a rotina, embora nunca tenha chegado ao lavatório antes de Bates.

Apesar de, assim como todos os outros, não gostar do treinamento básico, Giles adorava o desafio da competição. Mas teve de admitir que, com o passar de cada dia, ele estava achando cada vez mais difícil deixar para trás o açougueiro de Broad Street. Bates era capaz de equipará-lo golpe a golpe no ringue de boxe, acertar igualmente a mira no estande de tiro e, quando eles começaram a usar coturnos e a carregar rifles na corrida de oito quilômetros, o homem que carregava carcaças de bois no ombro havia anos, de manhã, à tarde e à noite, de repente se tornou bem mais difícil de derrotar.

 

Ao final da sexta semana, ninguém ficou surpreso no momento em que Barrington e Bates foram escolhidos para serem promovidos a anspeçadas, cada um com sua própria unidade.

Assim que eles costuraram as listras na farda, as duas unidades por eles lideradas se tornaram rivais mortais, não apenas no campo de manobras ou no ginásio, mas onde quer que eles fossem em operações noturnas ou sempre que se envolviam em exercícios campais e movimentações de tropas. No final de cada dia, como dois garotos de escola, Giles e Bates se autodeclaravam vencedores. Muitas vezes, o sargento-mor tinha de apartá-los.

À medida que o dia da parada que marcava o final do treinamento se aproximava, Giles sentia o orgulho se manifestando em ambas as unidades, com todos os integrantes começando a acreditar que talvez tivessem se tornado dignos de serem chamados de Wessexions, embora o sargento-mor sempre os alertasse que muito tempo se passaria antes que eles participassem de uma batalha de verdade, contra um inimigo de verdade e com projéteis de verdade. Ele também lembrou a todos que não estaria por perto para segurar a mão deles. Pela primeira vez, Giles aceitou que ia sentir falta daquele maldito homem.

— Pode mandar ver! — foi tudo o que Bates teve a dizer sobre o assunto.

Quando eles finalmente terminaram o treinamento na sexta-feira da décima segunda semana, Giles deduziu que voltaria a Bristol com os outros rapazes para desfrutar de um fim de semana de folga antes de se apresentar ao regimento na segunda-feira seguinte. Mas, quando ele saiu do campo de manobras naquela tarde, o sargento-mor o puxou para o lado.

— Cabo Barrington, você deve se apresentar ao major Radcliffe imediatamente.

Giles teria perguntado por que, mas sabia que não obteria uma resposta.

Atravessou o campo de manobras e bateu à porta do escritório do oficial, um homem que ele só tinha visto de longe.

— Entre — disse uma voz.

Giles entrou no escritório, ficou em posição de sentido e bateu continência.

— Barrington — disse o major Radcliffe depois de ter batido continência em resposta. — Tenho boas-novas. Você foi aceito na escola de treinamento de oficiais.

Giles nem sequer percebeu que estava sendo cotado para uma patente.

— Amanhã de manhã, você terá de viajar direto para Mons, onde iniciará o curso na segunda-feira. Meus parabéns e boa sorte.

— Obrigado, senhor — disse Giles antes de fazer uma pergunta. — Bates irá comigo?

— Bates? — perguntou o major Radcliffe. — Você quer dizer o cabo Bates?

— Sim, senhor.

— Pelo amor de Deus, não — respondeu o major. — Ele não é talhado para ser um oficial.

Giles só podia esperar que os alemães fossem igualmente míopes na escolha de seus oficiais.

 

Quando se apresentou à Unidade de Treinamento de Cadetes de Mons em Aldershot na tarde seguinte, Giles não estava preparado para a velocidade com que sua vida mudaria novamente. Demorou um tempo até ele se acostumar a ser chamado de “senhor” por cabos, sargentos e até pelo sargento-mor.

Ele dormia em um quarto individual cuja porta não era escancarada às cinco da manhã com um suboficial batendo com uma haste nos pés da cama e exigindo que pusesse os pés no chão. A porta só se abria quando Giles assim decidia. Ele tomava café da manhã no refeitório com um grupo de rapazes que não tinham de aprender como segurar um garfo e uma faca, embora parecesse que um ou dois deles jamais fossem aprender a segurar um rifle e muito menos dispará-lo com raiva. Mas, em algumas semanas, aqueles mesmos homens estariam na linha de frente, liderando voluntários inexperientes cujas vidas dependeriam do discernimento deles.

Giles se uniu àqueles homens em uma sala de aula onde estudavam história militar, geografia, cartografia, táticas de batalha, alemão e a arte da liderança. Se teve uma coisa que ele aprendeu com o açougueiro de Broad Street, foi que a arte da liderança não pode ser ensinada.

Oito semanas mais tarde, os mesmos jovens participaram de uma parada de fim de treinamento e receberam o Encargo Real. Foram agraciados com duas insígnias em forma de coroa — uma para cada ombro —, um bastão de couro marrom destinado a oficiais e uma carta de congratulações de um rei agradecido.

Tudo o que Giles queria era voltar para o seu regimento e se juntar aos velhos companheiros, mas ele sabia que não seria possível, pois, quando saiu do campo de manobras naquela tarde de sexta-feira, os cabos, sargentos e até mesmo o sargento-mor bateram continência para ele.

Sessenta jovens segundos-tenentes deixaram Aldershot naquela tarde e foram para os quatro cantos do país para passar um fim de semana com as suas famílias, alguns pela última vez.

Giles passou a maior parte do sábado subindo e descendo de trens enquanto voltava para West Country. Chegou em Manor House em cima da hora para unir-se à mãe no jantar.

Quando viu o jovem tenente em pé no corredor, Elizabeth não tentou esconder seu orgulho.

Giles ficou decepcionado por nem Emma nem Grace estarem em casa para vê-lo de farda. A mãe explicou que Grace, que estava no segundo período em Cambridge, raramente ia para casa, mesmo durante as férias.

Durante um jantar de um único prato servido por Jenkins — muitos dos serviçais estavam servindo na linha de frente, e não na sala de jantar, Elizabeth explicou —, Giles contou à mãe como fora o treinamento em Dartmoor. Quando ouviu falar de Terry Bates, ela suspirou.

— Bates and Son, eles costumavam ser os melhores açougueiros de Bristol.

— Costumavam ser?

— Todas as lojas de Broad Street foram destruídas completamente; portanto, ficamos sem o açougue Bates. Os alemães têm muito pelo que responder.

Giles franziu o cenho.

— E Emma? — ele perguntou.

— Não podia estar melhor... só que...

— O quê? — repetiu Giles.

Um certo tempo se passou antes que sua mãe acrescentasse baixinho:

— Teria sido muito mais conveniente se Emma tivesse tido uma filha, e não um filho.

— Por que isso é importante? — perguntou Giles, enquanto enchia novamente sua taça.

A mãe abaixou a cabeça, mas não disse nada.

— Ah, meu Deus! — disse Giles à medida que ia compreendendo o significado das palavras da mãe. — Eu deduzi que, quando Harry morresse, eu herdaria...

— Temo que você não possa deduzir nada, querido — disse a mãe levantando a cabeça. — Isto é, não até que possamos estabelecer que seu pai não é também o pai de Harry. Até então, de acordo com os termos do testamento do seu bisavô, Sebastian é que herdará seu título.

Giles mal falou novamente durante a refeição enquanto tentava assimilar o significado das palavras de sua mãe. Depois que o café foi servido, Elizabeth disse que estava cansada e foi para a cama.

Quando subiu a escadaria e foi para o quarto alguns instantes mais tarde, Giles não conseguiu resistir e deu um pulo no quarto das crianças para ver seu afilhado. Ficou sentado sozinho com o herdeiro do título dos Barrington. Sebastian ressonava em um sono feliz, claramente sem preocupações com a guerra, com o testamento do avó ou com o significado das palavras e tudo o mais aí incluído.

No dia seguinte, Giles foi tomar café da manhã com os avós no Savage Club. Havia uma atmosfera muito diferente em relação ao fim de semana que eles haviam passado juntos no castelo de Mulgelrie. A única coisa que os dois homens idosos pareciam ansiosos para descobrir era para onde seu regimento seria mandado.

— Não faço ideia — respondeu Giles, que também gostaria de saber, mas que teria dado a mesma resposta mesmo se tivesse sido informado, apesar de aqueles dois cavalheiros veneráveis serem veteranos da Guerra dos Bôeres.

 

O tenente Barrington se levantou cedo na manhã de segunda-feira e, depois do café da manhã com a mãe, foi levado de carro por Hudson até o quartel-general do 1º Regimento Wessex. Um fluxo constante de veículos blindados e caminhões cheios de tropas saindo pelo portão principal atravancou sua passagem. Giles saiu do carro e caminhou até a guarita.

— Bom dia, senhor — disse um cabo depois de bater continência rapidamente, algo com que Giles ainda não tinha se acostumado. — O ajudante pediu que o senhor se apresentasse em seu escritório assim que chegasse.

— Seria um prazer, cabo — disse Giles devolvendo a continência — se eu soubesse onde fica o escritório do major Radcliffe.

— Na extremidade oposta da praça, senhor, porta verde. Não há como errar.

Giles atravessou a praça, retribuindo muitas outras continências antes de chegar ao escritório do ajudante.

O major Radcliffe levantou a cabeça atrás da sua escrivaninha quando Giles entrou no escritório.

— Ah, Barrington, meu camarada. É um prazer revê-lo — disse. — Não tínhamos certeza de que você conseguiria chegar a tempo.

— A tempo de quê, senhor? — perguntou Giles.

— O regimento foi designado para o exterior, e o coronel achou que você deveria ter a oportunidade de se unir a nós ou ficar para trás e esperar o próximo fuzuê.

— Para onde vamos, senhor?

— Não faço ideia, meu camarada, está muito acima da minha alçada. Mas uma coisa posso dizer com certeza: será um lugar bem mais próximo dos alemães do que Bristol.