Os Pecados do Pai
Giles Barrington - 1941
GILES BARRINGTON
1941
16
Giles não fazia ideia de para onde o regimento estava indo. Durante dias a fio, ele parecia estar sempre em movimento, incapaz de dormir por mais do que umas poucas horas de cada vez. Primeiro, embarcou em um trem, seguido de um caminhão, antes de subir a passarela de um navio de transporte de tropas que abriu caminho pelas ondas do oceano com seu ritmo próprio até finalmente despejar mil soldados do regimento Essex no porto egípcio de Alexandria, na costa da África Setentrional.
Durante a viagem, Giles se reencontrou com os colegas do acampamento Ypres em Dartmoor e teve de aceitar que eles agora estavam sob seu comando. Para um ou dois deles, Bates em especial, não foi fácil chamá-lo de senhor, e bater continência a cada vez que se encontravam foi ainda mais difícil.
No desembarque, um comboio de veículos militares esperava o regimento Essex. Giles nunca havia sentido tanto calor, e sua camisa cáqui limpinha ficou encharcada de suor instantes após ter posto os pés em solo estrangeiro. Ele rapidamente organizou seus homens em três grupos antes que eles embarcassem nos caminhões que os aguardavam. O comboio avançou lentamente por uma estrada costeira estreita e poeirenta durante várias horas antes de finalmente chegar aos arredores de uma cidade severamente bombardeada que foi anunciada por Bates em voz alta:
— Tobruk! Eu disse! — e o dinheiro começou a trocar de mãos.
Após entrarem na cidade, o comboio deixou os homens em vários pontos. Giles e os outros oficiais saltaram diante do Majestic Hotel, que fora requisitado pelo regimento Essex como quartel-general da companhia. Giles empurrou a porta giratória e rapidamente descobriu que não havia nada de muito majestoso no hotel. Escritórios improvisados haviam sido amontoados em qualquer espaço vazio. Tabelas e mapas estavam presos às paredes no lugar que antes eram de pinturas, e o macio carpete vermelho que acolheu VIPs de todo o mundo tornara-se gasto com o tropel contínuo de coturnos.
A área da recepção era o único lugar que lembrava que, um dia, aquele poderia ter sido um hotel. Um cabo de serviço marcou o nome do segundo tenente Barrington em uma longa lista de novas chegadas.
— Quarto 219 — disse ele, entregando a Giles um envelope. — O senhor encontrará tudo o que for necessário aí dentro.
Giles subiu a larga escadaria até o segundo andar e entrou no quarto. Sentou-se na cama, abriu o envelope e leu suas ordens. Às sete horas, ele deveria se apresentar no salão de baile, onde o coronel do regimento falaria com todos os oficiais. Giles desfez a mala, tomou um banho, pôs uma camisa limpa e voltou ao térreo. Pegou um sanduíche e uma xícara de chá no refeitório dos oficiais e se encaminhou para o salão de baile pouco antes das sete.
O salão, com seu pé-direito alto e magníficos lustres, já estava cheio de turbulentos oficiais que reencontravam velhos amigos e eram apresentados a novos colegas enquanto esperavam para descobrir qual a casa do tabuleiro de xadrez para onde seriam deslocados. Giles viu de relance um jovem tenente do outro lado do salão e achou que o havia reconhecido, mas, depois, o perdeu de vista.
A um minuto para as sete, o tenente-coronel Robertson subiu no palco e todos rapidamente fizeram silêncio e ficaram em posição de atenção. Ele parou no centro do palco e acenou para que os homens relaxassem. Pés afastados, mãos nos quadris, ele começou seu discurso.
— Cavalheiros, deve parecer estranho para vocês ter viajado de todas as partes do império para travar batalha contra os alemães no norte da África. Todavia, o marechal de campo Rommel e seu Afrika Korps também estão aqui com o objetivo de manter o fornecimento de petróleo para suas tropas na Europa. É nossa responsabilidade mandá-lo de volta para Berlim com o nariz sangrando muito antes de o último tanque deles ter ficado sem combustível.
Vivas eclodiram no salão, acompanhados de pés sendo batidos no chão.
— O general Wavell concedeu ao Essex o privilégio de defender Tobruk e eu disse a ele que todos nós sacrificaremos a própria vida antes que Rommel reserve uma suíte no Majestic Hotel.
A reação foram vivas ainda mais ruidosos e mais pés sendo batidos no chão.
— Agora, quero que vocês se apresentem aos comandantes de suas companhias, que os informarão sobre o plano geral para defender a cidade e as responsabilidades que cada um deverá assumir. Cavalheiros, não temos tempo algum a perder. Boa sorte e feliz caça.
Os oficiais ficaram em posição de atenção mais uma vez enquanto o coronel deixava o palco. Giles verificou novamente suas ordens. Ele fora alocado ao Pelotão 7, Companhia C, que deveria se reunir na biblioteca do hotel após o discurso do coronel para receber as instruções do major Richards.
— Você deve ser Barrington — disse o major quando Giles entrou na biblioteca alguns minutos mais tarde. Giles o saudou. — Foi bondade sua ter se unido a nós tão pouco tempo após ter sido comissionado. Eu o coloquei no comando do Pelotão 7 como coadjuvante do seu velho amigo. Você terá três seções de doze homens e sua responsabilidade será patrulhar o perímetro oeste da cidade. Você terá um sargento e três cabos para auxiliá-lo. O tenente lhe dará maiores detalhes. Como vocês estudaram juntos, não gastarão muito tempo se conhecendo.
Giles ficou se perguntando quem poderia ser. Depois, lembrou-se da silhueta comprida do outro lado do salão de baile.
O segundo-tenente Giles Barrington gostaria de ter dado ao tenente Fisher o benefício da dúvida, embora nunca pudesse apagar a lembrança dele como prefeito em St. Bede’s batendo em Harry todas as noites durante a primeira semana somente por ele ser o filho de um estivador.
— É bom rever você, Barrington, depois de tanto tempo — disse Fisher. — Não vejo motivo para não trabalharmos bem juntos, não é mesmo?
Ele obviamente também se lembrava do tratamento dispensado a Harry Clifton. Giles conseguiu abrir um sorriso amarelo.
— Temos mais de trinta homens sob o nosso comando, além de três cabos e um sargento. Você vai se lembrar de alguns deles dos tempos do treinamento. Na verdade, já encarreguei o cabo Bates da seção número um.
— Terry Bates?
— Cabo Bates — repetiu Fisher. — Nunca use um nome de batismo ao se referir às tropas. No refeitório e quando estivermos a sós, Giles, você pode me chamar de Alex, mas nunca na frente dos homens. Tenho certeza de que você entende.
Você sempre foi um arrogante de merda e, obviamente, nada mudou, pensou Giles. Dessa vez não sorriu.
— Bem, é nossa responsabilidade patrulhar o perímetro oeste da cidade em turnos de quatro horas. Não subestime a importância da nossa tarefa porque, se Rommel atacar Tobruk, as informações que temos são de que ele tentará entrar na cidade pelo oeste. Portanto, precisamos permanecer vigilantes o tempo todo. Vou deixar que você cuide das escalas de serviço. Geralmente consigo fazer um ou dois turnos por dia, mas não posso fazer muito mais por causa de minhas outras responsabilidades.
De que tipo?, Giles queria perguntar.
Giles gostava de patrulhar a parte oeste da cidade com os seus homens e logo conheceu todos os 36, ainda mais porque o cabo Bates o mantinha muito bem informado. Embora ele tentasse mantê-los em alerta perpétuo após o aviso de Fisher, à medida que as semanas transcorriam sem incidentes, ele começou a se perguntar se algum dia iriam ficar cara a cara com o inimigo.
Foi em uma manhã enevoada no início de abril, quando as três patrulhas de Giles estavam realizando um exercício, que uma chuva de projéteis começou a cair do nada. Os homens instantaneamente se jogaram no chão e logo se arrastaram até o edifício mais próximo para se proteger como podiam.
Giles estava com a divisão de vanguarda quando os alemães apresentaram seu cartão de visitas e, em seguida, dispararam uma segunda salva de tiros. As balas não caíram nem perto do alvo, mas ele sabia que não demoraria muito até o inimigo identificar sua posição.
— Não atirem até eu mandar — ordenou enquanto esquadrinhava lentamente o horizonte com os binóculos. Giles decidiu informar Fisher antes de dar algum passo. Pegou o telefone de campo e obteve uma resposta imediata.
— Quantos deles estão aí, na sua opinião? — perguntou Fisher.
— Eu diria que não mais do que setenta, no máximo oitenta. Se você avançar com as seções número dois e três, será mais do que suficiente para detê-los até a chegada de reforços.
Uma terceira salva de tiros se seguiu, mas, depois de vasculhar o horizonte, Giles deu mais uma vez a ordem:
— Não atirem.
— Vou mandar a Divisão 2 sob o comando do sargento Harris para dar apoio a vocês — disse Fisher — e, se você me mantiver informado, decidirei se me junto a vocês com a Divisão 3.
A ligação foi encerrada.
Uma quarta salva de tiros rapidamente seguiu a terceira e, daquela vez, quando focou os binóculos, Giles conseguiu ver uma dúzia de homens se arrastando pelo terreno aberto rumo a eles.
— Mirem, mas só disparem quando o alvo estiver no raio de tiro e não desperdicem nem uma bala.
Bates foi o primeiro a apertar o gatilho.
— Peguei você — disse ele enquanto um alemão caía na areia do deserto. Ao recarregar a arma, acrescentou: — Vou ensinar vocês a bombardear Broad Street.
— Cale a boca, Bates, e concentre-se — rebateu Giles.
— Desculpe, senhor.
Giles continuou a vasculhar o horizonte. Conseguia ver dois, talvez três homens, que haviam sido baleados e estavam caídos de bruços na areia a alguns metros de suas trincheiras. Ele deu a ordem para que outra salva fosse disparada e observou muitos outros alemães correndo de volta para a segurança, como formigas se entocando em um buraco.
— Cessar fogo! — gritou Giles, ciente de que eles não podiam se dar ao luxo de desperdiçar munição preciosa. Olhou para a esquerda e conseguiu ver a Divisão 2 já em posição sob o comando do sargento Harris, aguardando ordens.
Ele pegou o telefone de campo e Fisher surgiu novamente na linha.
— Minha munição não vai durar muito mais, senhor. Meu flanco esquerdo agora está coberto pelo sargento Harris, mas meu flanco direito está exposto. Se puder avançar, teremos mais chance de rechaçá-los.
— Agora que você tem a Divisão 2 para reforçar sua posição, Barrington, é melhor eu ficar atrás e cobrir vocês, caso eles consigam passar.
Outra salva de tiros voou na direção deles. Os alemães certamente haviam calculado com exatidão onde eles estavam posicionados, mas Giles ainda instruiu as duas divisões para não abrir fogo. Xingou, desligou o telefone e atravessou o espaço aberto para ir até o sargento Harris. Uma salva de tiros seguiu seu esforço.
— O que você acha, sargento.
— É metade de uma companhia, senhor, cerca de oitenta homens no total. Mas acho que são apenas um destacamento de reconhecimento; portanto, tudo o que temos a fazer é ficar abaixados e ser pacientes.
— Concordo — disse Giles. — O que você acha que eles vão fazer?
— Os boches vão saber que são mais numerosos do que nós; portanto, vão querer montar um ataque antes que algum reforço chegue. Se o tenente Fisher trouxesse a Divisão 3 para cobrir nosso flanco direito, nossa posição seria fortalecida.
— Concordo — repetiu Giles enquanto outra salva de tiros os saudava. — Vou voltar e falar com Fisher. Espere minhas ordens.
Giles ziguezagueou pelo terreno aberto. Daquela vez, as balas estavam um pouco próximas demais para tentar novamente aquele truque. Ele estava prestes a ligar para Fisher quando o telefone de campo tocou. Ele o atendeu.
— Barrington — disse Fisher —, entendo que está na hora de tomarmos a iniciativa.
Giles precisou repetir as palavras de Fisher para ter certeza de que as ouvira corretamente.
— Você quer que eu lidere um ataque contra a posição dos alemães enquanto você avança com a Divisão 3 para me dar cobertura.
— Se fizermos isso — disse Bates —, seremos alvos fáceis no raio de tiro de um rifle.
— Cale-se, Bates.
— Sim, senhor.
— O sargento Harris acha, e eu concordo com ele — continuou Giles —, que, se o senhor avançar com a Divisão 3 para cobrir nosso flanco direito, os alemães terão de montar um ataque; então, poderíamos...
— Não estou interessado no que o sargento Harris acha — disse Fisher. — Eu dou as ordens e você as executa. Está claro?
— Sim, senhor — disse Giles enquanto batia o telefone.
— Eu poderia matá-lo, senhor — disse Bates.
Giles o ignorou enquanto carregava o revólver e prendia seis granadas de mão ao cinto. Levantou-se para que os dois pelotões pudessem vê-lo e disse em voz alta:
— Armem as baionetas e preparem-se para avançar.
Em seguida, saiu de trás do reparo e gritou:
— Sigam-me!
À medida que começava a correr pela profunda areia escaldante com o sargento Harris e o cabo Bates a apenas um passo atrás, Giles foi saudado por mais uma salva de tiros e ficou pensando quanto tempo sobreviveria contra probabilidades tão desfavoráveis. Ainda faltando percorrer quarenta metros, ele conseguiu ver exatamente onde as três trincheiras inimigas se situavam. Pegou uma granada de mão do cinto, removeu o pino e a atirou na direção da trincheira central, como se estivesse devolvendo uma bola de críquete da extremidade do campo para as luvas do apanhador. A granada aterrissou um pouco à frente de onde ficariam as varetas no campo de jogo. Giles viu dois homens voarem pelos ares enquanto outro caía de costas.
Virou-se e lançou uma segunda granada para a esquerda, uma jogada de sucesso, já que o poder de fogo do inimigo logo secou. A terceira granada acertou uma metralhadora. À medida que continuava a avançar, Giles conseguia ver os homens que o tinham sob mira. Sacou o revólver da cartucheira e começou a atirar como se estivesse em um estande de tiro, mas, daquela vez, os alvos eram seres humanos. Um, dois, três caíram, depois, Giles viu um oficial alemão o enquadrando na mira. O alemão puxou o gatilho com uma fração de segundo de atraso e caiu no chão na frente do inimigo. Giles se sentiu nauseado.
Quando ele estava a apenas um metro da trincheira, um jovem alemão jogou o rifle no chão enquanto outro levantou os braços para o ar. Giles fixou os olhos desesperados dos homens derrotados. Ele não precisava falar alemão para saber que eles não queriam morrer.
— Cessar fogo! — Giles berrou, enquanto o resto das Divisões 1 e 2 rapidamente invadia as posições inimigas. — Reúna-os e os desarme, sargento Harris — acrescentou, e depois virou-se para trás para olhar para Harris, a cabeça caída sobre a areia, sangue escorrendo da boca, a poucos metros da trincheira.
Giles olhou para o terreno que eles haviam cruzado e tentou não contar o número de soldados que haviam sacrificado a própria vida por causa da decisão errada de um único homem. Maqueiros já estavam removendo os cadáveres do campo de batalha.
— Cabo Bates, reúna os prisioneiros inimigos em grupos de três e leve-os para o acampamento.
— Sim, senhor — disse Bates com voz decidida.
Alguns minutos mais tarde, Giles e seu bando desfalcado atravessaram de volta o terreno aberto. Eles haviam percorrido cerca de cinquenta metros quando Giles viu Fisher correndo em sua direção com a Divisão 3 em seu rastro.
— Muito bem, Barrington, eu assumo o comando agora — ele gritou. — Você fica na retaguarda. Siga-me — ordenou enquanto guiava triunfalmente os soldados alemães de volta à cidade.
Quando chegaram ao Majestic Hotel, uma pequena multidão se reunira para saudá-los. Fisher retribuiu os cumprimentos dos seus companheiros.
— Barrington, cuide para que os prisioneiros sejam confinados. Depois, leve os rapazes para tomar um drinque no refeitório, pois fizeram por merecer. Enquanto isso, vou me apresentar e relatar os fatos ao major Richards.
— Posso matá-lo, senhor? — perguntou Bates.