Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 13 de 48

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Os Pecados do Pai

Giles Barrington - 1939-1941

GILES BARRINGTON

1939-1941

11

 

Quando Sir Walter Barrington visitou o neto para dar a terrível notícia de que Harry Clifton morrera no mar, Giles se sentiu entorpecido, como se tivesse perdido um membro. Na verdade, ele perderia um membro de bom grado se aquilo trouxesse Harry de volta. Os dois eram inseparáveis desde a infância e Giles sempre achou que os dois teriam vidas longas e bem-sucedidas. A morte sem sentido e desnecessária de Harry fez com que Giles se tornasse ainda mais resoluto a não cometer aquele mesmo erro.

Giles estava na sala de estar ouvindo o sr. Churchill falando no rádio quando Emma perguntou:

— Você tem algum plano para se alistar?

— Tenho, não vou voltar para Oxford. Minha intenção é me alistar imediatamente.

A mãe, é claro, ficou surpresa, mas disse que entendia. Emma deu um enorme abraço no irmão e disse:

— Harry teria ficado orgulhoso de você.

Grace, que raramente demonstrava alguma emoção, caiu em prantos.

Giles foi de carro até Bristol na manhã seguinte e estacionou ostensivamente seu MG amarelo na frente da porta da junta de alistamento. Entrou com uma expressão no rosto que esperava fosse de determinação. Um sargento-mor dos Gloucesters — o antigo regimento do capitão Jack Tarrant — ficou em posição de sentido assim que viu o jovem sr. Barrington. Entregou a Giles um formulário que foi devidamente preenchido e, uma hora mais tarde, o novo recruta foi convidado a ir para trás de uma cortina a fim de ser examinado por um médico do Exército.

O médico ticou cada um dos quadradinhos do formulário após tê-lo examinado minuciosamente — ouvidos, nariz, garganta, peito e membros — antes de, finalmente, testar sua visão. Giles ficou em pé atrás de uma linha branca e recitou as letras e números exigidos; afinal de contas, ele conseguia rebater uma bola de couro vindo na sua direção a 140 quilômetros por hora para o recanto mais distante. Ele estava confiante de que passaria com grande sucesso até o médico perguntar se ele tinha conhecimento de algum distúrbio ou doença hereditária. Giles respondeu com sinceridade.

— Meu pai e meu avô são daltônicos.

O médico realizou mais uma série de testes, e Giles notou que os hums e ahs se tornaram tsc-tscs.

— Lamento ter de informar, sr. Barrington — disse o médico ao final do exame —, que, devido ao histórico médico da sua família, não poderei recomendá-lo para o serviço ativo. Mas, é claro, não há nada que o impeça de se alistar e fazer trabalho burocrático.

— O senhor não poderia simplesmente ticar os quadradinhos relevantes e esquecer que eu toquei nesse assunto? — perguntou Giles tentando parecer desesperado.

O médico ignorou seu protesto e no quadrado final do formulário escreveu: “C3: incapacitado para serviço ativo”.

Giles retornou à Manor House ainda a tempo para o almoço. Sua mãe, Elizabeth, não comentou o fato de ele ter bebido quase meia garrafa de vinho. Ele disse a todos os que perguntaram e a vários dos que não perguntaram que havia sido rejeitado pelos Gloucesters porque sofria de daltonismo.

— Isso não impediu que Vovô combatesse os bôeres — lembrou Grace depois de uma segunda porção de sobremesa ter sido servida a Giles.

— Naquela época, eles provavelmente não faziam ideia de que a doença existia — disse Giles, tentando fazer pouco das farpas da irmã.

Emma continuou com um golpe baixo.

— Você nunca teve intenção de se alistar realmente, não é? — disse ela, encarando o irmão. Giles estava olhando para os sapatos quando ela desferiu o golpe de misericórdia. — Pena que seu amigo das docas não está aqui para lembrar que ele também era daltônico.

Quando a mãe de Giles ouviu a notícia, ficou aliviada, obviamente, mas não teceu comentários. Grace não falou novamente com o irmão até voltar para Cambridge.

 

Giles voltou para Oxford no dia seguinte, tentando se convencer de que todos aceitariam o motivo para ele não ter conseguido se alistar e ter decidido continuar sua vida como estudante de graduação. Quando passou pelo portão da faculdade, ele sentiu que o pátio parecia mais uma junta de alistamento do que uma universidade, com mais jovens trajando fardas do que uniformes acadêmicos. Na opinião de Giles, a única coisa boa de tudo aquilo era que, pela primeira vez na história, havia o mesmo número de mulheres e de homens na universidade. Infelizmente, a maioria delas só desejava ser vista de braços dados com alguém fardado.

Deakins, o velho amigo de escola de Giles, era um dos poucos alunos de graduação que não parecia se sentir constrangido por não ter se alistado. Ora, não faria muito sentido Deakins se submeter a exame médico. Seria um dos poucos exames em que ele seria reprovado. Porém, de repente, sumiu e foi para um lugar chamado Bletchley Park. Ninguém sabia dizer a Giles o que eles faziam lá, apenas que tudo era muito “por debaixo dos panos” e Deakins avisou que Giles não poderia visitá-lo em momento algum, em nenhuma circunstância.

Com o decorrer dos meses, Giles começou a passar mais tempo sozinho no pub do que no auditório lotado enquanto Oxford começava a se encher de militares que voltavam do front, alguns com um só braço, outros com uma só perna ou cegos, todos na sua faculdade. Ele tentava seguir em frente como se não tivesse notado; no entanto, a verdade é que, no final do período, começou a se sentir cada vez mais deslocado.

 

Giles foi para a Escócia no final do período para o batizado de Sebastian Arthur Clifton. Apenas a família imediata e um ou dois amigos foram convidados para a cerimônia, que aconteceu na capela do castelo de Mulgelrie. O pai de Emma e Giles não estava entre eles.

Giles ficou surpreso e feliz quando Emma pediu que ele fosse o padrinho, embora tenha ficado espantado quando a irmã admitiu que o único motivo para tê-lo levado em consideração era que, apesar de tudo, ela tinha certeza de que ele teria sido a primeira opção de Harry.

Ao descer para o café da manhã no dia seguinte, Giles notou uma luz no escritório do avô. Ao passar pela porta a caminho da sala de jantar, ele ouviu seu nome sendo mencionado. Parou imediatamente e se aproximou da porta semiaberta. Congelou horrorizado ao ouvir Sir Walter dizer:

— É muito penoso para mim dizer isto, mas tal pai, tal filho.

— Concordo — respondeu Lorde Harvey. — E eu sempre tive muita consideração pelo garoto, o que torna tudo ainda mais desagradável.

— Ninguém — disse Sir Walter — poderia ter ficado mais orgulhoso do que eu, como presidente do conselho de governadores, quando Giles foi nomeado representante da Bristol Grammar School.

— Eu achava — comentou Lorde Harvey — que ele faria bom uso no campo de batalha daqueles notáveis talentos de liderança e coragem exibidos com tanta frequência no campo de jogo.

— O único ponto positivo de tudo isso — sugeriu Sir Walter — é que não acredito mais que Harry Clifton possa ser filho de Hugo.

Giles atravessou o corredor, passou pelo salão do café da manhã e saiu pela porta principal. Entrou no carro e começou a longa viagem de volta para West Country.

Na manhã seguinte, estacionou o carro na frente de uma junta de alistamento. Mais uma vez, entrou na fila, não dos Gloucesters daquela vez, mas do outro lado do Avon, onde o regimento Wessex estava alistando novos recrutas.

Depois de ter preenchido o formulário, foi submetido a outro exame médico rigoroso. Daquela vez, quando o médico perguntou “Você tem conhecimento de algum distúrbio ou doença hereditária que possa impedi-lo de realizar suas funções no serviço ativo?”, ele respondeu:

— Não, senhor.