Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 48 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 46

 

 

Harry estava acostumado a ser acordado por pássaros cantando alegremente nas árvores que circundavam Barrington Hall e a ver Sebastian invadindo desabalado a biblioteca sem ser anunciado ou a ouvir o som de Emma chegando para o café da manhã depois da sua cavalgada matinal.

Mas, naquele dia, foi diferente.

Ele foi acordado pelas luzes da rua, pelo barulho do tráfego e pelo Big Ben badalando implacavelmente a cada quinze minutos para fazê-lo lembrar quantas horas faltavam até que, diante de uma assembleia de homens que Harry não conhecia, Lord Harvey se levantasse e iniciasse o debate que antecederia a votação que decidiria o futuro dele e de Giles por mil anos.

Harry tomou um longo banho, ainda era cedo demais para descer para o café da manhã. Depois de se vestir, ligou para Barrington Hall e soube pelo mordomo que a srta. Barrington já havia ido para a estação. Harry ficou intrigado: por que Emma pegaria o trem mais cedo quando o planejado era que eles só se encontrassem na hora do almoço? Quando entrou no salão matinal pouco depois das sete horas, ele não ficou surpreso ao encontrar Giles já de pé e lendo os jornais matutinos.

— Seu avô já se levantou? — perguntou Harry.

— Suspeito que muito antes do que qualquer um de nós. Quando desci, pouco depois das seis, a luz no estúdio dele estava acesa. Quando essa terrível história chegar ao fim, seja qual for o resultado, precisaremos fazer com que ele passe alguns dias no castelo de Mulgelrie para um merecido repouso.

— Boa ideia — disse Harry afundando na poltrona mais próxima, mas, logo em seguida, voltando a se levantar rapidamente enquanto Lord Harvey entrava na sala.

— Hora do café da manhã, rapazes. Nunca é bom ir para o cadafalso de barriga vazia.

Apesar do conselho de Lord Harvey, os três não comeram muito enquanto avaliavam o dia que teriam pela frente. Lord Harvey ensaiou algumas frases importantes enquanto Harry e Giles faziam algumas sugestões de último minuto a serem acrescentadas ou retiradas do discurso.

— Eu gostaria de poder revelar aos lordes a contribuição de vocês dois — disse o velho depois de acrescentar algumas frases à conclusão. — Muito bem, rapazes, hora de fixar as baionetas e escalar o cume.

 

Ambos estavam nervosos.

— Eu esperava que você pudesse me ajudar — disse Emma, incapaz de encará-lo.

— Ajudarei se puder, senhorita — ele disse.

Emma levantou a cabeça e viu um homem que, embora estivesse barbeado e calçando sapatos que provavelmente haviam sido engraxados naquela manhã, trajava uma camisa de colarinho puído e as calças largas de um terno surrado.

— Quando meu pai faleceu... — Emma nunca conseguia dizer “foi assassinado” —, a polícia encontrou uma menina em seu escritório. O senhor tem alguma ideia do que aconteceu com ela?

— Não — respondeu o homem —, mas, como a polícia não conseguiu contatar o parente mais próximo, a menina deve ter sido mandada para uma igreja ou para a adoção.

— O senhor sabe em qual orfanato ela foi parar?

— Não, mas posso sempre apurar se...

— Quanto meu pai devia ao senhor?

— Trinta e sete libras e onze xelins — disse o detetive particular tirando um maço de contas de um bolso interno.

Emma agitou a mão, abriu a bolsa e retirou duas notas novas de cinco libras.

— Quitarei o resto da dívida quando nos encontrarmos novamente.

— Obrigado, srta. Barrington — disse Mitchell enquanto se levantava, deduzindo que o encontro havia chegado ao fim. — Entrarei em contato assim que tiver novidades.

— Só mais uma pergunta — disse Emma levantando a cabeça e olhando para ele. — O senhor sabe o nome da garotinha?

— Jessica Smith — ele respondeu.

— Por que Smith?

— É o nome que sempre dão a uma criança que ninguém quer.

Lord Harvey se trancou no próprio gabinete no terceiro andar da Queen’s Tower pelo resto da manhã. Não saiu dos seus aposentos nem mesmo para almoçar com Harry, Giles e Emma, preferindo sanduíche e um uísque puro enquanto revisava mais uma vez o discurso.

 

Giles e Harry sentaram-se nos bancos verdes no saguão central da Câmara dos Comuns e conversaram cordialmente enquanto esperavam que Emma se unisse a eles. Harry esperava que qualquer um que os visse — nobres, plebeus e também a imprensa — não tivesse dúvida alguma de que eles eram amigos muito íntimos.

Harry continuava a olhar para o próprio relógio, pois sabia que eles precisavam estar sentados na galeria dos visitantes da Câmara dos Lordes antes que o Lorde Chanceler ocupasse seu lugar no Woolsack às duas horas.

Harry se permitiu um sorriso quando viu Emma entrar correndo no saguão central pouco antes de uma hora. Giles acenou para a irmã enquanto os dois homens se levantavam para recebê-la.

— O que você andou aprontando? — perguntou Harry antes mesmo de se curvar para beijá-la.

— Vou contar durante o almoço — prometeu Emma enquanto dava os braços aos dois. — Mas, primeiro, quero ficar a par das suas notícias.

— Resultado incerto parece ser o consenso — disse Giles enquanto guiava os convidados em direção à sala de jantar dos convidados. — Mas não vai mais demorar muito para conhecermos nossos destinos — acrescentou morbidamente.

 

A Câmara dos Lordes já estava cheia muito antes de o Big Ben dar duas badaladas e, quando o Lorde Chanceler da Grã-Bretanha adentrou o plenário, não havia um lugar sobrando nos bancos apinhados. Na verdade, vários parlamentares ficaram em pé no bar da Câmara. Lord Harvey olhou para o outro lado da assembleia e viu Reg Preston sorrindo para ele como um leão que acabara de avistar o almoço.

Os lordes se levantaram todos juntos quando o Lorde Chanceler assumiu seu posto no Woolsack. Ele se curvou para a assembleia e eles retribuíram o cumprimento antes de voltarem a se sentar.

O Lorde Chanceler abriu sua pasta de couro vermelho com adornos em ouro.

— Meus lordes, estamos aqui reunidos para julgar se o sr. Giles Barrington ou o sr. Harry Clifton tem direito a herdar o título, a propriedade e as alfaias do finado Sir Hugo Barrington, baronete, defensor da paz.

Lord Harvey levantou a cabeça e viu Harry, Emma e Giles sentados na primeira fila da galeria dos visitantes. Foi saudado com um sorriso caloroso da neta e conseguiu ler as palavras formadas por seus lábios: “Boa sorte, vovô.”

— Convido Lord Harvey para abrir o debate — anunciou o Lorde Chanceler antes de se sentar no Woolsack.

Lord Harvey levantou-se do seu lugar no primeiro banco e segurou as laterais da arca dos despachos para ajudar a estabilizar os nervos enquanto os colegas na bancada atrás dele saudavam o nobre e galante amigo com gritos de “Ouçam, ouçam!”. Ele correu os olhos pela Câmara, ciente de que estava prestes a pronunciar o discurso mais importante da sua vida.

— Meus lordes — iniciou —, estou aqui diante de vocês hoje representando meu descendente, sr. Giles Barrington, membro da outra câmara, em sua lícita reivindicação ao título da família Barrington e todas as pertenças daquela linhagem. Meus lordes, permitam-me familiarizá-los com as circunstâncias que trouxeram este caso à sua atenção. Em 1877, Joshua Barrington foi agraciado com o título de baronete pela rainha Vitória por serviços prestados ao setor de transporte marítimo, que incluía a Barrington Line, uma frota de embarcações oceânicas que, até a presente data, continua baseada em Bristol.

“Joshua foi o quinto de uma família de nove filhos e deixou a escola aos 7 anos de idade, incapaz de ler ou escrever, antes de começar a vida como aprendiz na Coldwater Shipping Company, na qual logo ficou claro para todos à sua volta que aquela não era uma criança qualquer.

“Aos 30 anos de idade, ele obteve o certificado de mestre e, aos 42 anos, foi convidado a fazer parte do conselho da Coldwater, que estava passando por um período difícil. Durante os dez anos seguintes, ele salvou a empresa quase que sozinho e, nos 22 anos seguintes, atuou como seu presidente.

“Todavia, meus lordes, os senhores precisam conhecer um pouco mais sobre o homem que foi Joshua para entender por que estamos aqui reunidos, pois certamente essa não teria sido a sua vontade. Sir Joshua era, sobretudo, um homem temente a Deus que honrava a própria palavra. Um aperto de mãos era suficiente para que Sir Joshua aceitasse que um contrato havia sido firmado. Onde estão esses homens hoje?”

— Ouçam, ouçam! — ecoou a assembleia.

— Porém, como tantos homens de sucesso, meus lordes, Sir Joshua demorou um pouco mais do que o resto de nós a aceitar a própria mortalidade — afirmou Lord Harvey suscitando uma onda de risos. — Portanto, quando chegou a hora de redigir seu primeiro e único testamento, sete décadas já haviam se passado desde a firma do seu contrato com o Criador. Isso não o impediu de se dedicar àquela tarefa com o vigor e a visão costumeiros. Para tal fim, ele convidou Sir Isaiah Waldergrave, principal Queen’s Counsel do país, para representá-lo, um advogado que, como Vossa Excelência — disse, voltando-se para o Woolsack —, encerrou sua carreira jurídica como Lorde Chanceler. Menciono tal fato, meus lordes, para enfatizar que o testamento de Sir Joshua está revestido de tamanha força e autoridade jurídicas a ponto de não consentir questionamentos por parte de seus sucessores.

“Nesse testamento, ele deixou tudo para seu primogênito e parente mais próximo, Walter Barrington, meu mais antigo e caro amigo. Cito textualmente o testamento: ‘E tudo o mais aí incluído’. Este debate, meus lordes, não põe em questão a validade das disposições da última vontade e testamento de Sir Joshua, mas apenas o fato de quem pode legitimamente reivindicar a posição de herdeiro. A esta altura, meus lordes, eu gostaria que os senhores levassem em consideração algo que jamais passou pela cabeça temente a Deus de Sir Joshua: a possibilidade de um dos seus herdeiros poder ser o pai de um filho ilegítimo.

“Hugo Barrington se tornou o primeiro na linha sucessória quando seu irmão mais velho Nicolas foi morto em combate por seu país em Ypres no ano de 1918. Hugo recebeu o título em 1942 por ocasião da morte do seu pai, Sir Walter. Quando esta assembleia se retirar, meus lordes, os senhores serão convocados a decidir entre meu neto, o sr. Giles Barrington, que é o filho legítimo de uma união entre o finado Sir Hugo Barrington e minha filha única, Elizabeth Harvey, e o sr. Harry Clifton, que, sugiro, é o filho legítimo da sra. Maisie Clifton e do finado Arthur Clifton.

“Permitam-me, a esta altura, valer-me da sua complacência e expor brevemente alguns fatos acerca do meu neto Giles Barrington. Ele estudou na Bristol Grammar School e, em seguida, conquistou uma vaga no Brasenose College, em Oxford. No entanto, não concluiu os estudos superiores, tendo decidido abandonar a vida de estudante de graduação para alistar-se no regimento Wessex logo após a eclosão da guerra. Enquanto servia em Tobruk como jovem tenente, foi condecorado com a Cruz Militar ao defender aquela localidade do Afrika Korps de Rommel. Em seguida, foi capturado e levado para o campo de prisioneiros de guerra Weinsberg, na Alemanha, de onde fugiu, retornando à Inglaterra para continuar a servir em seu regimento até o fim das hostilidades. Nas eleições gerais, ele concorreu e, de fato, conquistou, o cargo de ilustre representante de Bristol Docklands na outra câmara.”

Da bancada oposta, levantaram-se gritos de “Ouçam, ouçam!”.

— Com a morte do pai, ele herdou o título, sem contestação, pois havia sido amplamente divulgada a notícia de que Harry Clifton fora enterrado no mar pouco após a declaração de guerra. Por ironia da vida, meus lordes, foi minha neta Emma, graças à sua diligência e determinação, que descobriu que Harry ainda estava vivo e, involuntariamente, desencadeou uma série de eventos que trouxe os senhores até aqui hoje.

Lord Harvey olhou para a galeria e abriu um sorriso caloroso para a neta.

— Não há dúvida, meus lordes, de que Harry Clifton nasceu antes de Giles Barrington. Todavia, eu diria que não há prova definitiva ou conclusiva de que Harry Clifton é o resultado de uma relação extraconjugal entre Sir Hugo Barrington e a srta. Maisie Tancock, que se tornaria posteriormente a sra. Arthur Clifton.

“A sra. Clifton não nega que teve relações sexuais com Hugo Barrington em uma única ocasião em 1919. Porém, algumas semanas mais tarde, ela se casou com o sr. Arthur Clifton, dando em seguida à luz uma criança cujo nome foi registrado no assento de nascimento como Harry Arthur Clifton.

“Portanto, meus lordes, os senhores têm, de um lado, Giles Barrington, o rebento legítimo de Sir Hugo Barrington; do outro, Harry Clifton, que pode, porventura, ser filho de Sir Hugo, ao passo que Giles Barrington certamente o é. Esse é um risco que os senhores estão dispostos a enfrentar, meus lordes? Se for, permitam-me acrescentar apenas mais um fator que poderá ajudar Vossas Excelências a decidir em que salão eles devem entrar ao final do presente debate. Harry Clifton, que está sentado na galeria dos visitantes esta tarde, deixou bem clara a própria posição inúmeras vezes: ele não tem interesse algum em carregar o fardo — e uso aqui suas próprias palavras — do título, preferindo que seja seu amigo íntimo Giles Barrington a herdá-lo.”

Vários pares levantaram a cabeça em direção à galeria para ver Giles e Emma Barrington sentados cada um de um lado de Harry Clifton, que anuía com a cabeça. Lord Harvey só continuou após ter novamente a atenção de todo o plenário.

— Então, meus lordes, quando os senhores votarem mais tarde, eu os exorto a levar em consideração os anseios de Harry Clifton e as intenções de Sir Joshua Barrington, concedendo ao meu neto Giles Barrigton o benefício da dúvida. Agradeço à câmara por sua complacência.

Lord Harvey se sentou no banco e foi saudado por gritos de aprovação e pautas do dia sendo agitadas. Harry estava confiante de que ele havia ganhado o dia.

Quando a assembleia se recompôs, o Lorde Chanceler se levantou e disse:

— Chamo Lord Preston para a réplica.

Harry olhou lá para baixo e ficou observando aquele até então desconhecido se levantar lentamente da bancada adversária. Lord Preston não devia ter um centímetro além de 1,60 metro, seu corpo atarracado e musculoso e seu rosto marcado não deixavam dúvida de que ele havia sido um operário durante toda a sua vida profissional. Sua expressão combativa sugeria que ele não temia ninguém.

Reg Preston ficou um instante examinando a bancada do outro lado, como um soldado raso que põe a cabeça acima do parapeito para observar o inimigo mais de perto.

— Meus lordes, eu gostaria de iniciar minhas observações parabenizando Lord Harvey por seu discurso brilhante e comovente. No entanto, sugiro que seu brilhantismo também foi sua fraqueza, carregando em si as sementes da sua própria derrocada. A contribuição do nobre lorde foi de fato comovente, mas, à medida que progredia, ele parecia cada vez mais um advogado que sabe muito bem que está defendendo um argumento fraco.

Preston criou um silêncio na assembleia que Lord Harvey não fora capaz de suscitar.

— Consideremos, meus lordes, alguns dos fatos tão convenientemente citados pelo nobre e galante Lord Harvey. Ninguém questiona o fato de o jovem Hugo Barrington ter tido relações sexuais com Maisie Tancock cerca de seis semanas antes do casamento dela com Arthur Clifton. Ou o fato de, quase exatamente nove meses mais tarde, ela ter dado à luz um filho cujo nome foi convenientemente registrado no assento de nascimento como Harry Arthur Clifton. Bem, esse pequeno problema foi resolvido, não é mesmo, meus lordes? Salvo pelo inconveniente fato de que, se a srta. Clifton concebeu aquela criança no dia do seu casamento, o menino nasceu de sete meses e doze dias.

“Bem, caros lordes, eu seria o primeiro a aceitar que essa é uma possibilidade, mas, como apostador, podendo escolher entre nove meses e sete meses e doze dias, eu sei onde poria meu dinheiro e não acho que os corretores me ofereceriam um prêmio muito vultoso.”

Risinhos foram ouvidos na bancada Trabalhista.

— E devo acrescentar, meus lordes, que a criança pesava quatro quilos e meio. Para mim, isso não parece um parto prematuro.

Risos mais altos.

— Vamos considerar em seguida outra coisa que deve ter escapado à ágil mente de Lord Harvey: Hugo Barrington, assim como o pai e o avô, sofria de uma doença hereditária conhecida como daltonismo, que acomete igualmente seu filho Giles. E também Harry Clifton. As probabilidades estão se reduzindo, meus lordes.

Seguiram-se mais risadas, e conversas sussurradas surgiram em ambos os lados da Câmara. Lord Harvey manteve-se firme, esperando o próximo golpe.

— Vamos reduzir ainda mais tais possibilidades, meus lordes. Foi o ilustre dr. Milne, do hospital St. Thomas, que descobriu que, se os pais têm o mesmo tipo sanguíneo Rh negativo, os filhos também serão Rh negativo. Sir Hugo Barrington era Rh negativo. A sra. Clifton é Rh negativo. E, vejam só, Harry Clifton é Rh negativo, um tipo sanguíneo que apenas 12% da população britânica têm. Acho que os corretores de apostas estão pagando, meus lordes, porque o outro cavalo da corrida não chegou até os portões de largada.

Mais risos se seguiram e Lord Harvey afundou ainda mais no banco, com raiva por não ter dito que Arthur Clifton também era Rh negativo.

— Agora, permitam-me falar de um assunto, meus lordes, sobre o qual concordo plenamente com Lord Harvey. Ninguém tem o direito de questionar o testamento de Sir Joshua Barrington, dotado de um pedigree jurídico tão elevado. Portanto, só nos resta decidir o que as palavras primogênito e parente mais próximo significam.

“A maioria de vocês nesta Casa têm plena consciência das minhas opiniões convictas sobre o princípio hereditário — disse Preston e sorriu antes de acrescentar: — Considero-o desprovido de princípio.”

Daquela vez, o riso só surgiu de um lado da Câmara, os que estavam na bancada do lado oposto permaneceram em silêncio sepulcral.

— Caros lordes, caso decidam ignorar o precedente legal e alterar a tradição histórica simplesmente para adequá-la à sua própria conveniência, os senhores farão o conceito de hereditariedade cair em descrédito e, com o tempo, todo esse construto certamente desabará sobre a cabeça de Vossas Excelências — disse Preston apontando para a bancada à sua frente.

“Vamos, então, examinar os dois jovens envolvidos nessa triste disputa, que, aliás, caros lordes, não foi por eles causada. Harry Clifton, segundo nos dizem, preferiria que seu amigo Giles Barrington herdasse o título. Muito respeitável de sua parte. Mas Harry Clifton é, de fato, um homem respeitável. Todavia, caros lordes, se decidirmos seguir essa estrada, todos os nobres hereditários do país poderiam, no futuro, decidir qual rebento é seu preferido em termos de sucessão, e essa é uma estrada sem saída.”

A Câmara estava em silêncio absoluto e Lord Preston pôde abaixar o tom de voz a quase um sussurro.

— Esse respeitável jovem, Harry Clifton, teve algum outro motivo para dizer ao mundo que queria que o amigo Giles Barrington fosse reconhecido como primogênito?

Todos os olhos estavam fixos em Lord Preston.

— Vejam, caros lordes, a Igreja Anglicana não permitiu que Harry Clifton se casasse com a mulher amada, Emma Barrington, irmã de Giles Barrington, porque não tinha muita dúvida de que os dois tinham o mesmo pai.

Harry nunca desprezara tanto um homem em sua vida.

— Vejo que a bancada dos bispos está apinhada hoje, caros lordes — prosseguiu Preston, voltando-se para os clérigos. — Seria um enorme prazer saber qual é a opinião eclesiástica a respeito, pois eles não podem acatar as duas teses — declarou e alguns bispos pareceram incomodados. — Enquanto abordo o tema da linhagem de Harry Clifton, permitam-me sugerir que, como candidato na arena, ele está absolutamente no mesmo nível de Giles Barrington. Criado nas vielas de Bristol, obteve, contra todas as chances, uma vaga na Bristol Grammar School e, cinco anos mais tarde, uma bolsa de estudos do Brasenose College, em Oxford. E o jovem Harry nem esperou a declaração de guerra para deixar a universidade com a intenção de se alistar, só sendo impedido de concretizar seu desejo quando um submarino alemão torpedeou seu navio, fazendo com que Lord Harvey e o resto da família Barrington acreditassem que ele havia sido enterrado no mar.

“Qualquer um que tenha lido as comoventes palavras do sr. Clifton em seu livro O diário de um condenado sabe como ele acabou servindo no Exército Americano, onde ganhou a Estrela de Prata antes de ser gravemente ferido por uma mina terrestre alemã semanas antes da declaração de paz. Mas os alemães não conseguiram acabar tão facilmente com Harry Clifton, caros lordes, e nós também não deveríamos fazê-lo.”

A bancada do Partido Trabalhista protestou em uníssono e Lord Preston esperou até a assembleia voltar ao silêncio.

— Por fim, caros lordes, devemos nos perguntar por que estamos aqui hoje. Vou lhes dizer o porquê. É porque Giles Barrington está recorrendo de um julgamento proferido pelos sete principais juristas da nação, outro fato que Lord Harvey deixou de mencionar em seu emocionado discurso. Mas lembro-lhes que, em sua sabedoria, os Lordes da Lei decidiram a favor de Harry Clifton no mérito da herança do título de baronete. Se Vossas Excelências estão pensando em reverter tal decisão, caros lordes, devem, antes de fazê-lo, ter certeza de que nossos juristas cometeram um erro fundamental em seu julgamento.

“Assim, caros lordes — disse Preston ao iniciar sua peroração —, quando votarem para decidir qual desses dois homens deve herdar o título dos Barrington, não baseiem sua decisão em conveniência, mas em fortes probabilidades. Pois, nesse caso, para citar Lord Harvey, os senhores concederão o benefício da dúvida não a Giles Barrington, mas a Harry Clifton, pois as probabilidades, senão a própria linhagem, estão a seu favor. E me permitam concluir, caros lordes — disse ele, olhando desafiadoramente para a bancada à sua frente —, sugerindo que, ao entrar no salão das votações, Vossas Excelências levem consigo a própria consciência e deixem a política na assembleia.”

Lord Preston sentou-se enquanto era ruidosamente aclamado pela própria bancada, e vários nobres do lado oposto da Câmara anuíam com a cabeça.

Lord Harvey escreveu um bilhete ao adversário parabenizando-o por um discurso poderoso que tornou-se ainda mais persuasivo por sua óbvia convicção. Seguindo a tradição da Câmara, os dois oradores iniciais permaneceram em seus lugares para ouvir a opinião de outros colegas.

Houve várias contribuições imprevistas de ambos os lados da Câmara, o que só deixou Lord Harvey ainda mais inseguro acerca do resultado da votação por divisão. Um discurso ouvido com total atenção por toda a assembleia foi o do bispo de Bristol, claramente endossado por seus amigos nobres e eclesiásticos, sentados na bancada ao seu lado.

— Caros lordes — disse o bispo — se, em sua sabedoria, os senhores votarem hoje a favor do sr. Giles Barrington no que tange à herança do título, meus nobres amigos e eu não teremos outra opção a não ser retirar a objeção da igreja ao legítimo matrimônio do sr. Harry Clifton e da srta. Emma Barrington. Porque, caros lordes, se os senhores decidirem que Harry não é filho de Hugo Barrington, não poderá mais haver objeção alguma a tal união.

— Mas como eles vão votar? — sussurrou Lord Harvey ao colega sentado ao seu lado no primeiro banco.

— Meus colegas e eu não vamos votar a favor de nenhum dos lados quando a divisão for convocada, pois achamos que não somos qualificados para julgar política ou legalmente essa questão.

— E quanto a um julgamento moral? — perguntou Lord Preston suficientemente alto para ser ouvido na bancada dos bispos. Lord Harvey finalmente encontrou um ponto de concordância entre eles.

Outro discurso que surpreendeu a Câmara foi o de Lord Hughes, um parlamentar não alinhado e ex-presidente da Associação Médica Britânica.

— Caros lordes, devo informar à Câmara que recentes pesquisas médicas realizadas no hospital Moorfields mostraram que o daltonismo pode apenas ser transmitido pela linhagem feminina.

O Lorde Chanceler abriu sua pasta vermelha e fez uma correção em suas anotações.

— Portanto, a sugestão avançada por Lord Preston de que, devido ao fato de Sir Hugo Barrington ter sido daltônico, é maior a probabilidade de Harry Clifton ser seu filho, é inválida e deve ser rejeitada como nada mais do que pura coincidência.

Quando o Big Ben deu dez badaladas, ainda havia vários parlamentares que desejavam atrair a atenção do Lorde Chanceler. Em sua sabedoria, ele decidiu permitir que o debate seguisse seu curso natural. O orador final sentou-se poucos minutos depois das três horas na madrugada seguinte.

Quando o sino da divisão finalmente tocou, fileiras de parlamentares desgrenhados e exaustos saíram da câmara e se dirigiram ao salão da divisão. Harry, ainda sentado na galeria, notou que Lord Harvey estava ferrado no sono. Ninguém comentou. Afinal de contas, ele não saía do lugar havia 13 horas.

— Tomara que ele acorde em tempo para votar — disse Giles com um risinho que ele mesmo abafou quando o avô afundou ainda mais no banco.

Um mensageiro saiu rapidamente da câmara e chamou uma ambulância enquanto dois oficiais de protocolo adentraram o plenário e, com delicadeza, deitaram o nobre lorde em uma maca.

Harry, Giles e Emma deixaram a galeria dos visitantes, desceram a escada correndo e chegaram ao saguão no exato momento em que os maqueiros saíam do plenário. Os três acompanharam Lord Harvey até fora do edifício e entraram em uma ambulância que estava à espera.

Depois de votarem no parecer de sua escolha, os parlamentares retornaram lentamente para o plenário. Ninguém queria ir embora antes de ter ouvido o resultado da contagem dos votos. Parlamentares dos dois lados da Câmara ficaram intrigados por não verem Lord Harvey em seu lugar no primeiro banco.

Boatos começaram a circular pelo plenário e, quando foi informado da notícia, Lord Preston ficou branco como uma folha de papel.

Vários minutos se passaram até os quatro articuladores de serviço retornarem ao plenário e informarem à Câmara o resultado da votação. Eles atravessaram o corredor central com passo cadenciado, como os oficiais militares que haviam sido, e pararam diante do Lorde Chanceler.

Fez-se silêncio na Câmara.

O articulador principal ergueu a cédula de votação e declarou em voz alta:

— À direita, os favoráveis: duzentos e setenta e três votos. À esquerda, os contrários: duzentos e setenta e três votos.

O pandemônio se instaurou no plenário e na galeria do andar superior enquanto parlamentares e visitantes tentavam obter orientação sobre o que aconteceria em seguida. Os mais tarimbados perceberam que o Lorde Chanceler teria o voto de Minerva. Ele estava sentado sozinho no Woolsack, imperscrutável e inabalado pelo ruído e clamor à sua volta, esperando pacientemente que a Câmara voltasse à ordem.

Quando os últimos sussurros desvaneceram, o Lorde Chanceler se levantou lentamente do Woolsack, ajeitou sua longa peruca e arrumou as lapelas de sua túnica negra com bordados dourados antes de se dirigir à Câmara. Todos os olhos no plenário estavam fixos nele. Na apinhada galeria, aqueles que tiveram a sorte de adquirir um bilhete se debruçaram ansiosos nas grades. Havia três assentos vazios na galeria de convidados ilustres: os das três pessoas cujo futuro o Lorde Chanceler tinha nas mãos.

— Caros lordes — ele iniciou —, ouvi com interesse a cada uma das contribuições de Vossas Excelências durante o longo e fascinante debate. Avaliei os argumentos expostos com tamanha eloquência e paixão por todas as partes e me vejo diante de um dilema. Eu gostaria de compartilhar minhas preocupações com todos os senhores.

“Em circunstâncias normais, diante de um voto empatado, eu não hesitaria em apoiar os Lordes da Lei em seu julgamento anterior, no qual decidiram, por quatro votos a três, a favor de Harry Clifton como herdeiro o título dos Barrington. De fato, teria sido irresponsável de minha parte não fazê-lo. Todavia, Vossas Excelências talvez não estejam cientes de que, pouco após a convocação da divisão, Lord Harvey, que propôs a moção, sentiu-se mal e, portanto, não pôde votar. Nenhum de nós pode ter dúvida alguma acerca de qual corredor ele teria escolhido, assegurando a sua vitória, ainda que pela mais ínfima margem, e o título teria, assim, sido passado ao seu neto Giles Barrington.

“Caros lordes, tenho certeza de que a Câmara concordará que, em vista das circunstâncias, minha decisão final exigirá a sabedoria de Salomão.

Gritos abafados de “ouçam, ouçam” podiam ser ouvidos de ambos os lados da assembleia.

— Todavia, devo dizer à Câmara — prosseguiu o Lorde Chanceler — que ainda não decidi que filho devo cortar ao meio e a que filho devo restabelecer seu direito inato.

Uma onda de risadas seguiu-se a essas observações, o que ajudou a quebrar a tensão no plenário.

— Portanto, caros lordes — ele disse após ganhar novamente a atenção de toda a Câmara —, anunciarei minha decisão sobre o caso de Barrington contra Clifton às dez horas desta manhã.

Ele voltou ao seu assento no Woolsack sem pronunciar mais nenhuma palavra. O diretor de protocolo bateu com seu cajado três vezes no chão, mas mal pôde ser ouvido devido ao clamor.

— A Câmara voltará a se reunir às dez horas da manhã — bradou —, quando o Lorde Chanceler informará sua decisão sobre o caso de Barrington contra Clifton. Levantem-se todos!

O Lorde Chanceler se ergueu, curvou-se diante da assembleia reunida, e Suas Excelências retribuíram o cumprimento.

O diretor de protocolo bateu novamente com o cajado três vezes no chão.

— Sessão suspensa!

Você terminou Os Pecados do Pai

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