Pense Grande
Caçadores de recompensas julgam profissões como certas ou erradas
Aqueles que vivem em função das recompensas, visando, por exemplo, desfrutar da admiração da sociedade, tendem a adotar para si somente os projetos que ela – a sociedade – classifique como viáveis, não censuráveis, politicamente corretos e impecavelmente promissores. Em outras palavras, o fax, o post-it, o avião, o cinema, a energia elétrica, a televisão, a internet, vários medicamentos e tratamentos para doenças como o câncer, o computador pessoal, o filme Titanic e inúmeros outros fantásticos feitos jamais teriam sido criados, pois todos aqueles que os desenvolveram sofreram severas críticas e censuras. Todos eles foram desacreditados em algum momento e conviveram com episódios nada agradáveis àqueles que pautam seu comportamento visando o prêmio ou o elogio. Não teríamos os avanços trazidos por Einstein, Thomas Edison, Picasso, Geoffrey Ballard e Michelangelo. Não teríamos os belos feitos de Zilda Arns, Ayrton Senna, Gustavo Borges e Amyr Klink. Jogaríamos no lixo os livros de Paulo Coelho e os conceitos estéticos de Salvatore Ferragamo.
Quando essas pessoas buscam o dinheiro e ele não vem, ficam frustradas e logo desistem. Quando o elogio tão esperado ocorre de modo menos efusivo do que gostariam, deixam-se abater. Se não foi possível ocupar o cargo tão vorazmente buscado, decepcionam-se, e sua vulnerabilidade, mais aflorada, funciona como um incentivo à desistência. Sentem-se perdedoras. Agir em prol de recompensas acarreta a redução da capacidade de concretizar projetos. Nesses casos, a motivação se desintegra rapidamente.
CAÇADORES DE RECOMPENSAS JULGAM PROFISSÕES COMO
CERTAS OU ERRADAS
Vê-se, a todo momento, mais e mais pessoas tomando decisões sobre a escolha de suas carreiras com base nos benefícios econômicos que podem representar.
Em troca desses benefícios – obviamente sob a influência de deficiências econômicas e sociais – vemos jovens optando por profissões “em alta”, mesmo sem demonstrar nenhuma aptidão ou
identificação com elas. São muitos os médicos, advogados1, odontólogos etc., que fizeram a opção profissional apenas em função de fatores puramente extrínsecos, na maior parte das vezes buscando um certo nível de conforto financeiro. Ao focarem as recompensas, distanciam-se da sua fonte de energia essencial. Tornam-se profissionais sem brilho e entusiasmo, sem perceber que agindo assim, a criatividade e a motivação, indispensáveis ao pleno desempenho de suas funções, se esvaem. Fazendo isso, criam condições suficientes para afastar justamente aquilo que tanto desejam: a recompensa. Agir assim em nada contribui para se elevar o desempenho pessoal num mercado já altamente competitivo.
Lamentavelmente, a ênfase na recompensa tem se tornado um comportamento corrente nos dias atuais. Estamos diante de um exército cada vez maior de caçadores de recompensas, cujo conceito de sucesso está intimamente ligado a poder, dinheiro e status.
Agindo sob essa influência, os caçadores de recompensas passam a classificar algumas atividades profissionais como certas ou erradas. Certas são aquelas que prometem status, reconhecimento, dinheiro. Erradas são todas as outras que não proporcionam isso. Agrava-se ainda mais a situação quando tentam impor essa “verdade” aos filhos, amigos e colegas.
Formula-se um conceito de sucesso ligado a essas recompensas e, em função disso, o vírus se espalha ao ponto de alguns pais, por exemplo, direcionarem os filhos apenas a carreiras consideradas nobres, como as de cirurgiões plásticos, executivos, médicos, engenheiros, advogados etc., sem levar em conta se essas atividades estão ou não ligadas à sua principal fonte de realização e interesse.
Os jovens, inadvertidos, são as principais vítimas dessa espécie de vírus que, não raramente, direcionam suas escolhas com repercussões durante toda a vida. Prova disso é a pesquisa realizada pela Target Group Index Latino, em 2002, concluindo que 41% dos jovens acham que o dinheiro é a maior medida de sucesso.
A CPM Research também promoveu pesquisa semelhante, e perguntou a jovens entre quinze e 22 anos o que gostariam de ser: 31% responderam “empresário rico”, 26% “jogador de futebol famoso”, 22% desejam ser “ator/atriz”, 17% “médico famoso”, e 17% “modelo internacional”, confirmando o que disse o poeta espanhol Ramón de Campoamor (1817-1901): “Hoje, ter ou não ter dinheiro é ser ou não ser: eis o problema”14.
Observe como todas as respostas estão condicionadas ao “famoso”, “rico” ou a profissões que já trazem embutidas tais ideias. Está se formando uma grande legião de caçadores, que abdicam do seu poder criativo em troca de uma promessa, que não conta com nenhuma garantia de se concretizar. Em consequência, as chances de se criar mais uma multidão de pessoas com reduzido poder de realização se elevam drasticamente.
Certa vez, em um treinamento com gerentes de nível intermediário de uma grande instituição financeira, foi perguntado aos participantes quais eram seus maiores sonhos. A esmagadora maioria respondeu que desejava ocupar os mais altos cargos da empresa. Naquele momento, pensei comigo mesmo: “Ou se criam umas duzentas novas vagas na diretoria ou muita gente aqui vai ficar frustrada no futuro”.
Quando se voltam para recompensas, as pessoas passam a considerar felicidade e renda diretamente proporcionais e até condicionantes. Torna-se impraticável cogitar, por exemplo, a possibilidade de um operário ser feliz e se sentir realizado.