Pense Grande

Alex Bonifácio · Capítulo 14 de 54

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Pense Grande

O grupo dos 5% rema contra a correnteza

Aliás, no campo editorial, esse tipo de coisa ocorre com tanta frequência que o escritor canadense Camilien Roy decidiu escrever A arte de recusar um original. Trata-se de um ensaio com dezenas de modelos de cartas de rejeição que podem ser usadas pelas editoras para enviá-las aos escritores em início de carreira.

Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, teve que pagar para publicarem seu primeiro livro. As editoras não haviam se interessado por sua obra.

Veja o caso de James Cameron. Ao produzir o filme Titanic, recebeu ordens da Viacom e da News Corporation, donas do negativo, para abandonar o projeto e voltar para os Estados Unidos. Afinal, a película, inicialmente estimada em US$ 120 milhões, tornara-se cara demais para uma história cujo final já era conhecido por todos. Mesmo tendo sua verba cortada, Cameron insubordinou-se e prosseguiu produzindo o filme, que renderia US$ 1,4 bilhão somente de bilheteria e se tornaria um dos maiores sucessos do cinema mundial.

O GRUPO DOS 5% REMA CONTRA A CORRENTEZA

O pensamento coletivo e suas certezas absolutas geram uma força capaz de influenciar o comportamento dos indivíduos de determinado grupo, formando uma espécie de correnteza, cujo poder só é vencido por aqueles que acreditam nas próprias ideias e se empenham em concretizá-las, ainda que à revelia do pensamento dominante.

Somos ensinados, desde a infância, que precisamos nos adequar ao grupo. A sociedade impõe regras e valores e qualquer atitude fora do convencional pode não ser bem recebida. Os mais fracos aceitam essa imposição facilmente; os participantes do Grupo dos 5% não.

É suficiente ter um nome ou comportamento incomum para se tornar alvo de bullying pelos colegas da escola, na infância, e situações assim inserem no subconsciente a necessidade cada vez maior de adequação às regras de comportamento e raciocínio padronizado que a sociedade oferece.

Desse modo, as pessoas que agem em busca da aceitação em seu meio profissional e social, muitas vezes, podem ser levadas a fazerem somente aquilo que não é suscetível a críticas, renunciando a sua própria individualidade, muitas vezes sem sequer ter consciência desse processo.

Quantos atuam de maneira padronizada, comportando-se conforme o que o meio social espera, abdicando das próprias iniciativas?

Há ainda aqueles que adotam os projetos alheios que são categorizados como promissores pelos pais ou por terceiros, mesmo sem identificar qualquer ligação com as suas verdadeiras metas de vida e acabam realizando sonhos alheios.

O ex-tenista Marcelo Saliola é um exemplo do quanto sutilmente muitos são levados a abraçar causas alheias em troca de uma boa aceitação por parte daqueles que os cercam. No auge de sua carreira de atleta, Saliola abandonou o esporte para desespero daqueles que o comparavam aos melhores jogadores do mundo e o viam recebendo valiosos cheques em competições nacionais e internacionais. Ele confessa que o tênis não estava em seu sangue e que, na verdade, havia se tornado aquilo que seu pai sonhava para si próprio. “Meu pai era um jogador de basquete frustrado. Ele transferiu toda aquela insatisfação para mim. Se eu errasse uma bola, ele me xingava. Se fechasse um set, ele urrava de felicidade. Era uma tortura psicológica”18, confessou. Para ele, o esporte se tornou um martírio e ainda tenta se livrar dos traumas adquiridos naquela fase da vida.

Por ser importante desfrutar da aceitação do grupo, passa-se a seguir muitas recomendações e respeitar inúmeras regras, mesmo aquelas que não acrescentam nada.

Joseph Campbell, renomado estudioso da mitologia, confirmou esse entendimento ao afirmar que “o mundo está cheio de gente que deixou de ouvir a si mesma, ou aprendeu a ouvir apenas os outros, na hora de decidir o que fazer, como agir e segundo quais valores vai pautar a vida”19.

Um estudo reproduzido por uma emissora de TV estrangeira teve por objetivo avaliar nosso comportamento em grupo. Sob o título Following the herd (Seguindo o Bando – da série The human zoo), demonstrou, de forma incontestável, o poder que o grupo exerce sobre o indivíduo, influenciando seu comportamento e atitudes. Uma sala de um hotel foi preparada para que um incêndio fosse simulado. Foram reunidas algumas pessoas, que receberam a orientação de ignorar totalmente a fumaça e agir com indiferença em relação à ameaça, dando continuidade a uma tarefa qualquer.

Uma pessoa seria convidada para fazer parte do grupo, sem, no entanto, saber do acerto feito com os demais, para que fosse avaliada sua reação. O resultado foi impressionante. Quando as pessoas estavam sozinhas, imediatamente reagiam à ameaça de perigo e procuravam por socorro. No entanto, quando acompanhadas, permaneciam onde estavam e seguiam o comportamento grupal, tornando-se, assim como os demais, indiferentes àquela situação, que representava alto risco para sua própria vida. Para não se sentirem envergonhadas, agiam exatamente de acordo com os demais e se tornaram passivas diante do “incêndio”.

Em média, elas permaneceram indiferentes por 13 minutos, tempo suficiente para, numa situação real, perderem a consciência sob o efeito da fumaça. Em outras palavras, prefeririam morrer a quebrar as regras de conduta e a possibilidade de serem taxadas de alguma forma, caso a ameaça fosse verdadeira. Isso também foi observado em 1979, num incêndio ocorrido num centro comercial da cidade de Manchester. As investigações sobre o acidente revelaram que, embora com muitas lojas, todas as vítimas fatais estavam num único estabelecimento: o restaurante. A perícia concluiu que elas seguiram um mesmo padrão de comportamento: evitaram sair rapidamente e preferiram pagar a conta antes de abandonar o prédio.

Outra experiência, feita com atores contratados, tinha por objetivo aplicar um questionário de conhecimentos gerais a pessoas que transitavam por um centro comercial. Eram reunidos grupos de quatro pessoas (sendo três delas orientadas a dar respostas antecipadamente combinadas). Foram feitas inclusive perguntas impossíveis de se responder como, por exemplo, qual a raiz quadrada de 97. O teste revelou que, mesmo sem saber as respostas, as pessoas que participaram da experiência acompanhavam as mesmas respostas dadas pelo restante do grupo, ainda que quando questionadas sobre qual seria a capital de um país inexistente.

Ao agir em busca dos sonhos e metas, é preciso ter a maturidade para lidar com situações de crítica ou desaprovação e saber que, muitas vezes, aceitar o pensamento coletivo pode implicar em abrir mão do pensamento inovador, que dá origem a promissoras alternativas de ação.

Enquanto se acredita que pouco pode ser feito para combater a fome mundial, Madre Tereza de Calcutá salvou milhares de vidas. O mesmo fez o nosso saudoso Betinho, que combateu o problema da fome e da miséria à frente do movimento Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Essas e outras pessoas, realizadoras de grandes feitos, seguiram seu coração e partiram sem olhar para os lados, sem se deixarem influenciar pelas opiniões que sustentavam ser impossível tal intento.