Pense Grande
A mãe da pastoral da criança
Quando se tem a crença de que os recursos necessários para concretizar os projetos estão disponíveis, o próximo passo é ficar atento para detectá-los. Para o Grupo dos 5%, esses recursos jamais escasseiam e, para encontrá-los, sabe que a experimentação é uma ferramenta poderosa.
Só é possível perceber essa máxima – que todas as oportunidades e recursos necessários, sejam eles quais forem, estão à disposição e bem à frente dos olhos – quando se exercita o poder criativo e se olha as mesmas coisas de modo diferente, questionando os paradigmas. Agindo assim, coisas novas e fascinantes se revelam em novas possibilidades e muitas outras alternativas que antes estavam ocultas. Ao longo do caminho, alternativas de ação que não eram cogitadas são encontradas.
A MÃE DA PASTORAL DA CRIANÇA
Veja o exemplo de Zilda Arns e a Pastoral da Criança. A Dra. Zilda sabia exatamente o que queria fazer – salvar crianças da morte estúpida por desnutrição ou desidratação – e iniciou seu projeto. O pensamento tradicional nos diria: para fazer isso – ajudar mães e filhos carentes a suprir suas necessidades alimentares básicas – precisamos de, no mínimo, dinheiro e doação de alimentos. A Dra. Zilda acreditava que era preciso criar um modo diferente para fazer com que a própria comunidade desenvolvesse as soluções de que necessitava, em vez de simplesmente oferecer donativos, alternativa que torna as pessoas cada vez mais dependentes. Era preciso fazer com que essas comunidades carentes percebessem os recursos que estavam à sua disposição, mas que eram ignorados em função do pensamento padronizado do qual eram vítimas.
O soro caseiro foi um exemplo: composto por água, uma pitada de sal e um pouco de açúcar, resolveu o problema da desidratação. Custo: praticamente zero.
Restava, ainda, combater a desnutrição característica das regiões mais pobres do país. Para isso, a Pastoral da Criança desenvolveu ações com produtos de alto valor nutricional e baixo custo – a multimistura é um deles – como o pó da casca de ovo, suco feito da casca de frutas, folhas ricas em proteínas, que eram consideradas mato, e tantos outros disponíveis nas regiões onde a Pastoral está presente e que, misturados, tornam-se suficientes para repor a maior parte dos nutrientes necessários ao desenvolvimento saudável das crianças. A partir desses resultados, Zilda Arns se convenceu de que, somente com os alimentos que são desperdiçados todos os dias, é possível acabar com a fome no país.
Aos poucos, o trabalho evoluiu e as ideias, realisticamente simples, se multiplicaram e produziram efeitos fantásticos. São mais de 130 mil líderes comunitários que acompanham mais de um milhão de famílias em todos os estados do país. O número de mortes de crianças acompanhadas pelo programa caiu de 52 por 1 mil para treze por 1 mil. Tudo isso ao custo mensal de R$ 1,69 por criança (em 2008). O modelo está sendo copiado por dezenas de países, inclusive desenvolvidos.
A Pastoral da Criança não só presta assistência às mães, desde a gestação, como desenvolve soluções para doenças por meio de remédios caseiros, prevenção de acidentes e violência domésticos, educação sexual para prevenção de doenças sexualmente transmissíveis etc. A Pastoral também educa quanto à saúde bucal, alfabetiza jovens e adultos, dispõe de um programa de renda e assiste a terceira idade em suas necessidades. Uma das máximas de Zilda Arns era: “Adotamos somente soluções simples e abandonamos tudo o que é complexo”.
Quantas novas possibilidades surgem quando se refutam as fórmulas prontas e se criam as próprias regras, alterando a realidade percebida! Para evoluir nesse campo é preciso abrir mão do controle e da estabilidade, dar as mãos ao novo, ao desconhecido. Explorar. Controle e inovação são conceitos antagônicos. Quando as pessoas se desgarram da necessidade infrutífera de controlar as coisas, tornam-se mais leves para olhar para outras direções e abrem caminho para que suas mentes alcancem novas possibilidades de ação.
Quando se aceita a ideia de que a escassez, e não a abundância, pauta a vida das pessoas, surge a dificuldade em compreender, por exemplo, como uma pessoa que nasceu sem braços e sem pernas, como Nick Vujicic, não apenas declare que nada lhe falta, como também dedique sua vida a encorajar e inspirar as pessoas a fazer a diferença no mundo.
Por não compartilharem do sentimento de abundância, no campo empresarial, por exemplo, também há estranheza quando gestores se deparam com a forma como algumas empresas, como a norte-americana de softwares SAS, lida com seus funcionários.
Lá, eles trabalham sete horas por dia, dispõem de creche para seus filhos, academias, aulas de ginástica, golfe, tênis e dança africana. Massagens são disponibilizadas várias vezes por semana. Há campos de futebol, softball e o programa de incentivos é bastante generoso.
A empresa exibe aos funcionários cerca de três mil obras de arte e mantém um clube próximo à sede. Ainda lava as roupas suadas do pessoal que faz ginástica. Resultado: mais de 22 anos de lucros ininterruptos, com o mais baixo índice de turnover (rotatividade de pessoal) do setor. Os gastos evitados com demissões compensam as medidas de incentivo.
Seu presidente parte da premissa de que prosperidade gera prosperidade. Segundo ele, funcionários felizes tornam os clientes felizes e ele próprio, por consequência, também.
O mesmo pode ser dito pelo biscate que se tornou dono de um dos maiores grupos empresariais do país, Samuel Klein e as Casas Bahia. Sempre pegava de surpresa os funcionários do departamento de recursos humanos ao ordenar repentinamente que fossem distribuídas bonificações extras a todos os seus colaboradores. “Quanto mais Deus manda, mais eu distribuo”60, disse. Este é um dos seus princípios de vida.
Os membros do Grupo dos 5% têm consciência da necessidade de constantemente encontrar as soluções para seus projetos e sabem que essa atitude deve ser passada adiante. Como líderes, procuram incutir nas pessoas ao seu redor (familiares, amigos, funcionários) que oferecer as coisas sem exigir um certo esforço de busca pode inibir o potencial de cada um. Em vez disso, estimulam a busca por engenhosas soluções.
Segundo a pesquisa de Flávia Pacheco, os bem-sucedidos empreendedores brasileiros, por exemplo, em relação aos pedidos de seus filhos, se revelaram cautelosos em atendê-los. Eles não procuram dar as coisas de mão beijada para os filhos, ela conclui. Essas pessoas perceberam que, a longo prazo, seria uma atitude devastadora.
O técnico da seleção brasileira de voleibol, Bernardinho, mais uma vez confirma esse entendimento. Para ele, é importante criar dificuldades para os que têm talento. As facilidades os limitam. “Provocar, desafiar, instigar, buscar nada menos que o máximo – essa é a obrigação de todo gestor. Só isso faz crescer. A complacência ou a autocomplacência apequena”, relata.
Esse comportamento é explicado por Alexandre Tadeu da Costa, idealizador da maior rede de chocolates finos do mundo, ao afirmar que “quem construiu algo a partir do próprio esforço tende a ter uma visão bem diferente sobre dinheiro do que a de quem teve uma vida mais confortável”. Ele mesmo lembra que, mesmo após a Cacau Show se tornar a maior do mundo, ainda não havia comprado seu primeiro carro zero quilômetro.
Essa opinião é compartilhada por Oscar Schmidt. Para ele, “sem cobrança e sem pressão, a tendência é de estacionar e não crescer. Ao contrário, sendo cobrados, evoluímos, porque estamos sendo testados todos os dias, chegando ao limite todos os dias”.