Pense Grande
O teste do marshmallow
Na maior parte das vezes, as pessoas do Grupo dos 5% não sabem ao certo o que o futuro as reserva, mesmo assim, optam por dar as mãos ao desconhecido e confiam no surgimento de respostas. Plantam flores no jardim e aguardam surgir beija-flores.
Quando observamos as pessoas com desempenho de destaque, notamos que priorizam os resultados de médio e longo prazo. Peter Senge, diretor de uma das mais prestigiadas universidades do mundo, ilustra que essa é, por exemplo, uma característica presente na cultura japonesa: “Eles acreditam que construir uma grande organização é como cultivar uma árvore, leva de vinte e cinco a cinquenta anos”, afirma.
O TESTE DO MARSHMALLOW
Daniel Goleman, o “pai” da Inteligência Emocional, relata um estudo desenvolvido, na década de 1960, pelo psicólogo Walter Mischel, numa pré-escola da Universidade de Stanford. Uma das experiências da pesquisa foi realizada com crianças de quatro anos de idade. As crianças foram colocadas diante de marshmallows e foram orientadas de tal forma que poderiam pegar, imediatamente, somente um doce. Mas aqueles que aguardassem um pouco mais, até que o orientador retornasse, receberiam dois.
Como seria natural, algumas crianças mais impulsivas, de imediato asseguraram o seu doce, afinal, como diz um ditado comum entre os adultos: mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Outras, no entanto, aguardaram ansiosamente pelos eternos minutos até receberem os prometidos dois marshmallows.
Doze a catorze anos depois, essas mesmas crianças foram observadas na adolescência e foi constatado que aquelas que resistiram ao imediatismo da tentação eram adolescentes “pessoalmente eficazes, autoassertivos e melhor capacitados para enfrentar as frustrações da vida. Tinham menos probabilidade de desmontar-se, paralisar-se, regredir sob tensão ou ficarem abalados e desarvorados quando pressionados; aceitavam desafios e iam até o fim, em vez de desistir, mesmo diante de dificuldades; eram independentes e confiantes, confiáveis e firmes; tomavam iniciativas e mergulhavam em projetos. E, mais de uma década depois, ainda podiam esperar um certo tempo para receber suas recompensas, enquanto perseguiam seus objetivos”, conclui Goleman.
Por outro lado, “aqueles mais imediatistas que, de pronto, agarraram o marshmallow – cerca de um terço do grupo –, tendiam a ter reduzidas essas qualidades e possuíam, ao contrário, um perfil psicológico relativamente mais problemático. Na adolescência, tinham mais probabilidade de serem considerados tímidos nos contatos sociais; de serem teimosos e indecisos; de perturbarem-se facilmente diante das frustrações; de julgarem-se ‘ruins’ ou indignos; de regredirem ou ficarem imobilizados quando tensos; de serem desconfiados e ressentidos por ‘não conseguir nada’; de tenderem ao ciúme e à inveja; de reagirem, exageradamente, a irritações com mau humor, desta forma provocando discussões e brigas. E, após todos aqueles anos, continuavam sendo incapazes de aguardar a recompensa”. Mais uma vez testadas, quando da conclusão do ginásio, “as que tinham sido pacientes aos quatro anos eram muito superiores, como estudantes, do que as que haviam agido impulsivamente”.
Não são poucas as ocasiões em que essa pesquisa se confirma na prática, todos os dias. Saber esperar é vantajoso e pode ser um fator determinante entre aqueles que desejam resultados mais eficazes. No entanto, uma das características da denominada “geração Y” (aquela nascida entre meados dos anos 1980 e início dos anos 90) é justamente a impaciência, o mesmo se aplicando aos da chamada “geração Z”, formada por jovens constantemente conectados à internet por dispositivos móveis e a grupos virtuais.
Mas, mesmo sendo um ícone dessas novas e impacientes gerações, o jovem americano Mark Zuckerberg, que em 2004 criou em seu alojamento da universidade um então desconhecido site chamado Facebook, parece ser um daqueles que preferem aguardar para receber o seu “marshmallow”. Ao observar o vertiginoso crescimento da ferramenta e o interesse dos ávidos investidores desejosos em oferecer alguns bilhões de dólares por ela, optou por esperar. Quando muitos não entenderam o que o levou a recusar tanto dinheiro, ele respondeu: “Quero criar o melhor produto possível. Às vezes, as empresas se preocupam com o dinheiro cedo demais e isso significa sacrificar a visão de longo prazo. Quero garantir que não vamos cometer esse erro. A publicidade vai bem. Mas o que vai determinar se este foi um ano bom, não é ganhar X milhões de dólares: é saber que nossos usuários estão felizes, que estamos fazendo um bom trabalho”, declarou a um jornalista88.
De todos os princípios herdados pela sociedade industrial, talvez o que mais se consolida é o da velocidade.
É curioso notar que, apesar dos inúmeros avanços tecnológicos que tornam possível realizar muitas diferentes tarefas em pouco tempo, continua-se trabalhando muito mais do que antes.
Os especialistas Robert Kriegel e David Brandt alertam: “O americano médio de hoje está trabalhando 20% mais horas do que há apenas cinco anos. Trata-se de um dia inteiro por semana. Cinquenta e sete por cento estão rotineiramente em suas mesas de trabalho de 50 a 65 horas por semana. Muitos relatórios até estão dizendo que os americanos de colarinho branco estão se aproximando da tradição japonesa do dia de trabalho de doze horas e das noites cheias de trabalho”.
Há décadas, a jornada de trabalho legal é de oito horas diárias. Nesse período, o mundo tornou-se completamente diferente. A era industrial foi superada pelos serviços. As profissões passaram por uma metamorfose tremenda. O trabalho, na atualidade, exige muito mais da mente do que do corpo. O conhecimento e a informação tornaram-se ferramentas da vida profissional, sem falar da tecnologia, que nos auxilia a fazer coisas antes inimagináveis.
O homem moderno está sendo inconscientemente conduzido pelo paradigma da velocidade. Ele passou a cultuar resultados instantâneos. Tem dificuldade em aguardar e, portanto, está mais sujeito a frustrações. Essa foi uma das conclusões de Fredy Kofman, renomado consultor para o desenvolvimento de lideranças e pessoas, ao apontar os inimigos do aprendizado. Em seu livro Metamanagement, anota que “sem a motivação de longo prazo, é impossível investir o esforço necessário para adquirir conhecimento”. Segundo ele, “a necessidade de gratificações permanentes conduz grandes frustrações no aprendiz e o estimula a abandonar seu caminho”.
Exemplos nos ensinam que, às vezes, a velocidade atua como elemento redutor de produtividade. Conforme publicou a revista Exame, cirurgiões de cinco hospitais da Nova Inglaterra (EUA) passaram todo o ano de 1996 observando uns aos outros e conversando sobre o seu trabalho, nada mais. Enquanto muitas empresas considerariam um absenteísmo inaceitável, o resultado foi uma queda de 24% no número de mortes nas cirurgias, ou 74 vidas salvas89.
A serenidade para aguardar resultados a longo prazo vai se perdendo em meio à ansiedade pelos resultados imediatos. Aos participantes do Grupo dos 5%, conciliar esse conflito entre respeitar o tempo das coisas e a necessidade coletiva por velocidade, passa a ser um desafio.
Esse tipo de comportamento imediatista inviabiliza muitas importantes conquistas. O sucesso é como um bom vinho. É preciso aguardar um bom tempo para se perceber os resultados da espera. Enquanto se cria uma consciência coletiva que vê o tempo como um inimigo que precisa ser vencido a todo custo, a verdade é que ele – o tempo – é um aliado, tanto para um bom vinho, quanto para a construção de resultados sólidos e perenes.