Pense Grande

Alex Bonifácio · Capítulo 41 de 54

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Fracassos: medalhas de guerra

Finalmente, o inventor e escritor norte-americano, Scott Thorpe, investigou a vida de Albert Einstein para averiguar como as decisões tomadas por ele transgrediam a lógica então vigente. Ele verificou que o próprio Einstein se baseou em um “experimento fracassado”, de Michelson e Morley, sobre as variações na velocidade da luz para desenvolver a teoria da relatividade.

FRACASSOS: MEDALHAS DE GUERRA

Enquanto uma criança cai e imediatamente se levanta, mesmo aos prantos, os adultos, à primeira queda, preferem não mais tentar. Ao agir assim, opta-se por abrir mão de obter o que se pretende.

É preciso ter em mente que o fracasso é parte do processo, e não condição para seu fim. Fracassar faz parte do jogo. Como afirma Daniel Goleman, autoridade no campo da inteligência emocional, “se ficarmos preocupados com a possibilidade de fracassar na prova que estamos fazendo, teremos menos atenção para ser empregada na resolução das questões. Nossas preocupações se tornam profecias autoconcretizantes, impelindo-nos para o próprio desastre que predizem”.

Portanto, em vez do medo de tentar, tente repetidas vezes. Em outras palavras, em vez de evitar o fracasso, é preciso fracassar mais ou, como afirma o mesmo Robert Sutton, “fracassar mais rápido”. Ele menciona ainda o episódio em que Thomas Watson, fundador da IBM, chamou um gerente que acabara de cometer um erro que custou US$ 10 milhões à companhia. “O gerente disse: ‘O senhor quer minha demissão, não é?’ Watson respondeu: ‘Você só pode estar brincando. Acabamos de gastar 10 milhões de dólares em sua educação!”.

O ator e diretor Juca de Oliveira, inquestionavelmente bem-sucedido em suas iniciativas, dá a receita: “Não me sinto como quem tenha atingido o sucesso. Desde que descobri o teatro, há mais de cinquenta anos, vivo num delicioso processo de permanente busca e aprendizado. De vez em quando, o resultado é razoável e fico feliz. Mas o insucesso não me deixa infeliz porque aprendemos muito mais com o fracasso do que com o sucesso”74.

Brendan Boyle, fundador da Skyline, um estúdio de design de brinquedos da Califórnia, avisa: “Você não pode ter ideias novas sem ter muitas ideias burras, ruins e malucas. Ninguém em meu setor é bom em adivinhar quais são perda de tempo e quais são o próximo grande sucesso”75.

O editor francês André Gide “passou a lamentar o resto da vida” pela recusa que fez ao livro de Marcel Proust, que viria a ser considerada uma obra “magistral” e seu autor, “uma das grandes referências literárias do século XX”76.

O premiado jornalista Gilberto Dimenstein diz: “Estou convencido, pela minha vida pessoal, de que você não aprende com o acerto, você aprende é com o erro. (...) Tive de errar muito escrevendo: errar, errar, errar, errar. Para concluir que a história da ignorância talvez seja mais pedagógica do que a história do acerto. Porque a ignorância pressupõe que você constate: cometi um grande erro. E é verdade, o que de fato chama a atenção é que as pessoas que cometem erros produzem acertos”.

Poucos sabem, por exemplo, que Jack Welch, considerado o “executivo do século XX”, ex-presidente da General Eletric (GE), uma das maiores e mais conhecidas empresas do mundo, aos 28 anos de idade, foi o responsável pela explosão do telhado de uma fábrica durante o desenvolvimento de um novo processo químico. “Eu estava certo de que tinha explicações sobre os motivos da explosão. E também já desenvolvera algumas ideias para solucionar o problema. Mas, naquele momento, eu não passava de um náufrago nervoso. Minha autoconfiança estava quase tão abalada quanto o prédio destruído”, relatou. Provavelmente, se Jack tivesse sido afastado ou demitido – opção mais sensata para alguns, diante dessas circunstâncias – a GE não teria concluído o Noryl, uma resina plástica utilizada em painéis termoplásticos, produto que renderia mais de US$ 1 bilhão à companhia.

É um engano comum acreditar que mesmo as mais talentosas pessoas não cometeram fracassos. Assim como Welch, Einstein também provocou uma explosão no laboratório, que afetou suas mãos por algumas semanas.

“Bill Gates sai de seu caminho para contratar pessoas que cometeram erros”, afirmam Roberto Kriegel e David Brandt, especialistas no assunto: “Isso demostra que elas arriscaram. A maneira como as pessoas lidam com coisas que dão errado é um indicador de como elas lidam com a mudança”, recomendam.

A Disney Animation, mesma empresa que produziu sucessos como Branca de Neve e os sete anões, Os 101 Dálmatas, Cinderela e tantos outros também desenvolveu o Caldeirão Negro, que foi considerado pelo diretor de animação de longa-metragem da empresa, Peter Schneider, como o pior filme já feito em todos os tempos. “A única vantagem que eu tinha é que não poderia fazer pior do que O caldeirão negro”77, disse.

Vastos são os registros que reproduzem momentos de fracasso vividos por membros do Grupo dos 5%.

Os pesquisadores Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi analisaram organizações japonesas para verificar como geravam o conhecimento que se convertia em inovação e criatividade. Eles estudaram o processo de criação e desenvolvimento da Home Makery (uma máquina caseira de fazer pão) pela Matsushita Electric Industrial Co., que, tempos depois, se transformaria em um grande sucesso de vendas. Até encontrar o produto final adequado, no entanto, o gerente responsável admitiu que “no início, tudo era surpresa. Após vários fracassos, comecei a questionar as diferenças entre o padeiro e eu. Não acredito que se possa compreender ou aprender essa habilidade sem realmente praticá-la”.

Muitas vezes somos equivocadamente levados a crer que as pessoas à frente de grandes empresas não convivem com grandes fracassos e sérias dificuldades. Todas elas se deparam com situações semelhantes. Analisando organizações, ainda Robert Kriegel e David Brandt concluíram que “qualquer que seja a mudança – redução de tamanho, reorganização ou apenas imaginação – as pessoas irão cometer erros. As situações novas criam erros. Conte com isso. A maneira como você lida com esses erros terá um verdadeiro impacto sobre a resistência do empregado”.

Em 1968, um engenheiro da IBM respondeu às pessoas que garantiam que o microprocessador era a onda do futuro, dizendo: “Para que diabos serve isso?”78.

A Ford Motors investiu US$ 250 milhões no veículo Edsel, considerado o automóvel de maior fracasso da companhia em todos os tempos.

O Filme Máquina de guerra (Título Original: The Pentagon wars, 1998, HBO filmes) reproduz a real história de um dos maiores “micos” militares norte-americanos: uma espécie de tanque de guerra M2 Bradley, que teve seu desenvolvimento iniciado em 1960 e, após dezessete anos de estudos e US$ 14 bilhões consumidos, se apresentou como um fracasso memorável.

Donald N. Sull, doutor pela Universidade de Harvard, ao investigar os fatores que levam as grandes empresas a falhar e corrigir seus rumos, comenta: “Na verdade, capitalistas empreendedores e headhunters, às vezes, consideram empresários fracassados os mais valiosos por sua experiência com o mundo real. Derrotas que constam no currículo são como cicatrizes de batalhas e medalhas de guerra; elas demonstram que esses profissionais viram a ação ao vivo e sobreviveram, para tentar novamente”.

O professor no campo da criatividade, Robert Sutton, chega ao ponto de defender que as organizações recompensem tanto o sucesso quanto o fracasso. “Não estou dizendo que uma empresa deva recompensar pessoas burras, preguiçosas ou incompetentes. Quero dizer que você deve recompensar os fracassos inteligentes, não os fracassos burros. Se você deseja uma organização criativa, a inação é o pior tipo de fracasso”.

Também o fundador e CEO emérito da VISA, Dee Hock, concorda que “os fracassos são parte essencial da vida”.

O mundialmente conhecido líder da revolução americana e inventor Benjamin Franklin, quando questionado por um jornalista sobre os tantos fracassos cometidos, assim sentenciou: “Não fracassei. Descobri dez mil esquemas que não funcionam”79.

William Golding, autor de O senhor das moscas, considerado uma das maiores obras da literatura mundial, teve seu livro rejeitado 22 vezes pelas editoras antes de ser publicado.

Albert Einstein foi reprovado no teste de admissão para a Politécnica de Zurique. Ele se formou na faculdade em penúltimo lugar de sua classe. Foi o único de sua seção da Politécnica a não receber nenhuma oferta de emprego e precisou esperar por quatro anos até conseguir uma indicação para se tornar professor assistente. Mesmo assim foi recusado. Tempos depois, candidatou-se novamente a uma vaga numa escola técnica, mas entre 21 candidatos, sequer foi finalista.

O mesmo homem que realizou, em 1969, pela primeira vez a volta ao mundo num barco a velas, sozinho, sem escalas, foi antes reprovado nos exames para ingressar na marinha inglesa.

Michael Jordan foi rejeitado em sua tentativa de jogar no time do colégio e isso o abalou profundamente. Mas foi justamente dessa adversidade que Jordan extraiu grande fonte de motivação: “Quero me lembrar para sempre do gosto amargo de ter sido rejeitado. Para que, treinando ou jogando, eu me esforce tanto e de tal forma que ninguém me faça sentir outra vez o que estou sentindo agora”80, disse à sua mãe.