Pense Grande

Alex Bonifácio · Capítulo 4 de 54

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Pense Grande

Destampe el puchero

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, descreveu Nelson Mandela como alguém que “tornou claro que não tínhamos que aceitar o mundo tal como ele é, e que podíamos fazer a nossa parte em busca do mundo como deve ser”. Mandela pagou um alto preço por sua aspiração. Passou 27 anos preso, período em que perdeu sua mãe, um filho, e não pôde desfrutar da convivência familiar. Foi impedido de proteger sua esposa, agredida e presa várias vezes, bem como os filhos pequenos deixados aos cuidados de terceiros. Sequer teve acesso a notícias sobre eles. Até mesmo suas cartas eram censuradas. Mas libertou o seu país do apartheid e, por tantos feitos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Esses são apenas alguns dos tantos exemplos a serem explorados mais adiante, capazes de demonstrar que o desejo de mudar uma realidade ou construir algo novo passa antes por um ardente sentimento de introspecção que chamo de “Destampar el puchero”.

DESTAMPE EL PUCHERO

“O animal satisfeito dorme.”

(Guimarães Rosa)

No destapes el puchero é uma expressão popular do Prata, parte da região sul da América do Sul, que significa “não levantes a tampa da panela”. Puchero é uma sopa feita com restos de comida que serve de alimento durante o inverno e faz parte da culinária típica gaúcha. Os platinos utilizam essa expressão para afirmar “não destampe a panela pois, se vir do que é feito o puchero, é provável que você não o coma”.

Se observarmos, conforme os exemplos deste livro, o comportamento e a trajetória das pessoas realizadoras de grandes feitos, perceberemos que elas não temeram lidar com o conflito interno gerado por algum sentimento de impotência, insatisfação ou indignação diante da realidade vivenciada ou em relação ao seu papel como pessoas. Ao invés disso, elas destamparam el puchero, e decidiram mudar, renascer.

Destampar el puchero pode ser apontado como a primeira etapa no processo de mudança presente na vida de pessoas do Grupo Metadesempenho. A indiferença a esses sentimentos é suficiente para impedir o avanço em muitas outras áreas de atuação. Quantas vezes testemunhamos pessoas incomodadas com problemas pessoais ou profissionais, mas que nada fazem para resolvê-los? O conformismo é inimigo da mudança, e desejo sem ação é apenas um sonho distante.

Então alguém poderia rebater: “Mas existem tantas coisas no mundo que realmente me incomodam como a fome, a violência, as crianças de rua, os pedintes nos semáforos dos grandes centros...”. Poderiam, ainda, ser apontados outros fatores como o número de mortes por câncer, a corrupção que causa tantas injustiças, a falta de exploração das capacidades individuais e coletivas no ambiente profissional, a necessidade de ter um melhor relacionamento com o cônjuge e filhos etc.

Enfim, a faísca da mudança que diferencia os membros do Grupo dos 5% dos demais, se dá justamente durante esse momento de crise, de insatisfação em relação a algo. Trata-se de uma emoção, muitas vezes vista como negativa, e que parece indicar um desalinhamento entre o que você realmente é, e o que faz, apontando para uma necessidade de reorientação entre o ser (aquilo que a pessoa é, seus conhecimentos natos, preferências, paixões, curiosidades, experiências etc.) e o que ela de fato faz (seu trabalho, atividades, enfim, ao que ela se dedica).

Ocorre que, assim como podemos chegar à conclusão de que as guerras são um fenômeno presente na história da humanidade, e que muito pouco ou nada podemos fazer para mudar isso, esse sentimento de indiferença pode se estender a inúmeras outras coisas, como a falta de visão dos governantes, a complicação que envolve os relacionamentos conjugais, a dificuldade para montar a sua própria empresa etc. Poderia-se pensar que a vida é assim mesmo. Não há nada que se possa fazer quanto a isso, a não ser administrar da melhor maneira possível a própria existência.

Mas seria esse o nosso papel como seres humanos? Será que agindo assim não estaríamos ignorando um mundo de possibilidades que está ao nosso redor? Da Vinci certa vez afirmou: “Aqueles que não amam a vida, não a merecem”. É essa energia que se dispersa quando as pessoas deixam de lidar com os momentos de escuridão e se entregam ao que parece ser imutável.

Não importa se o desejo é fundar uma das maiores Organizações Não Governamentais do Planeta, como fez o adolescente canadense Craig Kielburger, ou ser eleito síndico do prédio onde mora visando promover algumas melhorias. Todos os anseios são igualmente legítimos e relevantes caso contribuam para o seu desenvolvimento pessoal e também sirvam de instrumento para gerar benefícios a outras pessoas.

O primeiro passo em busca de um novo patamar de desempenho passa necessariamente pelo processo de investigação desse sentimento de “desordem” interior indicador de que algo está errado. A maneira como as pessoas lidam com essa sensação é fundamental e pode identificar o primeiro obstáculo que as impede de adotar uma postura mais combativa. Elas optam por abrir a tampa da panela e ver o que há dentro.

Essa conturbação interna que parece indicar algo que deveríamos fazer, mas não fazemos, tende a aumentar gradativamente ao longo do tempo como o fenômeno do aquecimento da Terra, mencionado pelo renomado analista de questões econômicas Lester Thurow: “Você não vai ver os oceanos subindo rapidamente. Tudo ocorre muito lentamente. E, quando eles começarem a alagar nossas cidades litorâneas, será tarde demais para fazermos alguma coisa”.

O sentimento em torno do desejo de mudança pode levar a duas alternativas: ser ignorado até que outra “crise” seja desencadeada, ou ser reconhecido como algo potencialmente promissor e enfrentado.

Quando se opta pela segunda alternativa, abre-se espaço para ocorrer o Ponto de Ebulição, a partir do qual as ideias e motivações começam a ferver, num turbilhão maravilhoso de caminhos disponíveis que podem ajudar a modificar a realidade percebida em direção aos seus verdadeiros projetos e objetivos.

Quando alguém destampa el puchero, está levantando a tampa dos seus próprios conflitos internos, com o propósito único de dar um basta ao imobilismo. Destampar el puchero é desatar as correntes e reagir. É perceber que aquilo que o incomoda em sua vida pode representar justamente uma mensagem de advertência de que algo precisa ser feito.

Ocorre que, por se tratar de uma sensação desagradável, a imensa maioria das pessoas prefere evitá-la, muitas vezes por desconhecer o imenso potencial oculto naquela “emoção negativa” e o que ela pode desencadear.

Esses pensamentos, por muitos considerados ruins, se parecem com fantasmas, que nos visitam de tempos em tempos. Nelson Mandela falou sobre eles. Ele menciona um sermão sobre um homem cuja casa era mal assombrada. O homem fez de tudo para espantar os fantasmas, mas não conseguiu. Então, resolveu deixar seu povoado. Amontoou tudo que tinha numa carroça e saiu procurando outro lugar para morar. No meio do caminho, encontrou um amigo que lhe perguntou: “Para onde você está indo?” Antes que ele respondesse, veio uma voz lá de fora da carroça: “Estamos pegando a estrada, saindo do nosso povoado”. Era uma assombração. O homem achou que tinha deixado os maus espíritos para trás, mas eles vieram junto. A moral da história é não fuja dos problemas; encare-os! Porque se você não lidar com eles, estarão sempre com você.

Amyr Klink, por exemplo, o navegador brasileiro que fez uma volta completa pela Antártica (quarenta mil quilômetros), experimentou esse momento de profunda falta de significado do que fazia: “O que eu percebia no meu trabalho na época – num banco – é que eu não participava na construção de nada. Se eu não fizesse aquele trabalho, alguém o faria. Esse sentimento traz uma frustração muito grande”. Ele conviveu com isso durante anos, até que se tornou insustentável. Resolveu enfrentar o fantasma e partir em direção àquilo que realmente o impulsionava.

Ao observar há mais de uma década o perfil de pessoas de alto desempenho, é curioso notar que esse momento crucial ocorre com bastante frequência.

Veja o exemplo do renomado economista e filósofo argentino, radicado nos Estados Unidos, Fredy Kofman, que dedicou grande parte de sua vida à transformação das pessoas e das organizações empresariais. Kofman tornou-se professor na Sloan Business School, da Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das melhores universidades do mundo. Alguns anos após chegar ao tão almejado “topo”, mesmo após ter sido escolhido professor do ano, Kofman perdia aos poucos seu interesse pela profissão. “Nas aulas eu ficava repetindo as teorias que tinha aprendido, sem ver como essas teorias poderiam ajudar os seres humanos a viver melhor”, questionava-se. A falta de significado o tomou, mas o medo de abandonar tudo lhe causava pânico: “Perder o meu cargo era como perder minha identidade. Perder o emprego implica um golpe econômico, mas muito mais aterrador é o golpe na identidade”, disse, argumentando que seria um nobre desconhecido caso se desvinculasse do MIT, instituição que tanto prestígio confere aos seus professores. Abandonar tudo seria loucura, mas à medida que crescia o seu interesse pelas questões de linguagem e subjetividade, que repercutem diretamente no desempenho das empresas, diminuía o seu interesse pela rigidez da economia e da contabilidade. Para ele, o mundo artificialmente ordenado criado pelas teorias econômicas, em nada refletia a realidade da vida. Participar de algumas conferências o ajudou a superar esse momento sombrio. Ao ver surgir o interesse de grandes empresas por suas ideias, partiu em direção ao desconhecido. “Morria” como professor e renascia como consultor, bem mais próximo aos seus verdadeiros anseios.

Hoje Kofman é considerado um dos mais renomados pensadores no campo da gestão. Antes, porém, se submeteu ao sacrifício sobre o qual falavam as grandes religiões, o mesmo que conduz à bem-aventurança, enfrentou esse poderoso dragão que se aninhou em sua consciência.

Um dos mais renomados cientistas quânticos do mundo, o pesquisador, físico nuclear e professor indiano, Amit Goswami, também viveu um momento decisivo que o faria mudar os rumos de sua trajetória de forma definitiva. Foi em 1973 que um sentimento de insatisfação o tomou por completo. Mesmo após ter conquistado uma carreira brilhante e figurar na elite dos cientistas, Amit não se sentia feliz. “A minha vida e meu trabalho estavam completamente fora de sincronismo”, concluiu. Durante uma conferência na Califórnia, questionou-se: “Por que estou vivendo desta maneira?”. E foi esse o exato momento em que procurou reposicionar a sua linha de pesquisa, antes centrada numa “tristonha” física materialista, para se aventurar em busca de uma física mais “alegre”, que “levaria a uma redescoberta científica de Deus”. Por seus novos trabalhos, Amit se tornou reconhecido mundo afora.

Gunter Pauli, criador do conceito de emissão zero (significa produtividade total dos materiais, um complexo industrial em que todos os resíduos são aproveitados e nada é perdido, em benefício do meio ambiente), também foi visitado por sentimentos perturbadores e precisou destampar el puchero: “Eu fingia ser um pioneiro na ocasião em que ficou muito claro para mim que eu jamais poderia sê-lo enquanto estivesse limpando os rios da Europa e contaminando-os vinte vezes mais em outro lugar”3. Esse conflito se tornou cada vez mais significativo até o momento em que decidiu desenvolver um sistema em que a emissão de resíduos no ambiente é praticamente nula e que provocou grande repercussão.

À medida que observamos outros inúmeros exemplos de pessoas que atingiram resultados impressionantes, é interessante observar que esse momento de conturbação interna é um importante passo em busca de tempos melhores.

Steve Jobs, o ex-cofundador da Apple, uma das maiores e mais respeitadas empresas de tecnologia do mundo (cujo capital inicial foi de apenas US$ 1.300), criador do iPhone, do iPad e de tantos outros produtos notáveis, também passou por experiência semelhante quando, ainda jovem, abandonou seu trabalho na Atari e viajou para a Índia, onde pretendia preencher um vazio que o consumia e, com isso, resgatar sua calma interior. Essa viagem se mostraria reveladora. Quando retornou, sete meses depois, mostrava-se mais preparado. Estava decidido a desenvolver produtos dotados de simplicidade e “máxima sofisticação”4.

Mas será que devemos absorver todos os males que afetam a humanidade e acreditar que temos responsabilidade sobre cada um deles? Nossa participação será fundamental para modificar tantas situações que nos causam desconforto? A resposta é não! Não é possível que tenhamos que tomar alguma iniciativa em relação aos inúmeros problemas com os quais nos deparamos todos os dias. Entretanto, somos afetados de modos diferentes sobre o universo que observamos. Algumas questões que verdadeiramente nos incomodam, em algum momento precisarão ser enfrentadas, sob pena de, ao postergar lidar com esse fantasma ter que com ele conviver de tempos em tempos até que não haja mais alternativa a não ser agir.

Independentemente do ramo ou atividade, destampar el puchero é um requisito inicial àqueles que pretendem desgarrar-se do imobilismo e gerar soluções e melhorias para si ou para o próximo.

Emilia Queiroga, respeitada educadora brasileira, decidiu fundar o Núcleo de Integração das Ciências, a partir de uma sensação que a visitava com frequência. “Bem, eu comecei atuando como educadora em instituições educacionais e senti uma grande lacuna, uma fragmentação muito grande entre as diversas áreas da educação (...). Então eu busquei desenvolver um trabalho de integração nas áreas de conhecimento, principalmente trazendo o conhecimento de ponta, das ciências emergentes, do conhecimento que está disponível e trabalhando uma linguagem integrada, mas que pudesse estar diretamente ligada à vida das pessoas. Um trabalho como esse poderia favorecer uma melhor qualidade de vida, uma capacidade maior de compreensão das pessoas e de relacionamento, trazendo a ciência para a vida, para ela não ficar só no patamar da intelectualidade, do plano puramente intelectual, mas trazer esse conhecimento para ser aplicado no dia a dia, dentro de casa, no trabalho, em toda área de atuação”, afirmou em entrevista5.

Toda a ação em direção a um projeto ou objetivo nasce, portanto, dessa conturbação interna, da inquietação e insatisfação em relação a algo que somente aquele que a vivencia pode modificar. Ao destampar el puchero, damos as mãos ao novo e nos permitimos modificar aquilo que nos perturba. Abrimos espaço para que haja um reposicionamento entre o que somos e o que fazemos. Ao reconhecermos, no sentimento que rouba nosso equilíbrio, a faísca que conduz à transformação, substituiremos aquela postura que o rejeita por outra que percebe nele grande potencial de mudança.