Pense Grande
Qual é a sua idade?
“Qual seria sua idade, se você não
soubesse quantos anos tem?”
(Confúcio)
Chegamos ao capítulo final de nossa jornada. Vimos alguns aspectos que nos potencializam como pessoas, e um deles foi a necessidade de ser apaixonado por uma causa, um projeto. Enfim, responder à pergunta fatal: existe algo que, se eu o fizesse, traria grande significado à minha vida?
Esse ponto decisivo pode ocorrer em qualquer momento da vida. Quantas pessoas, porém, trabalham arduamente durante décadas e, aposentadas, deixam de visualizar grandiosas oportunidades de implementar novos projetos e desejos?
O filme Um sonho de liberdade retrata uma situação psicológica curiosa: a do já idoso detento que, ao receber a liberdade, após cumprir longa jornada na prisão, comete suicídio por não conseguir adaptar-se a ela. Também se comete “suicídio” ao desistir, por exemplo, de modificar atitudes negativas e de inércia que exercem esmagadora e paralisante influência sobre alguns.
Há ainda aqueles que declaram estar esperando a aposentadoria para então dispor de melhores condições (quer de tempo ou de dinheiro) para perseguir seus verdadeiros sonhos. Quem está no Grupo dos 5% sabe que o melhor momento para iniciar o processo de mudança é agora, não importa se com dez anos ou na melhor idade.
Por mais de uma ocasião, ouvi pessoas se declarando felizes por estarem próximas da aposentadoria, ansiosas por faltarem apenas “cinco ou sete anos”, como se dissessem cinco ou sete dias. Posso deduzir que esses cinco ou sete anos sejam os mais longos de suas vidas.
A médica pediatra Zilda Arns veio de uma família de padres e freiras. Nunca quis ser religiosa, mas sempre quis ser missionária. Durante os seus primeiros cinquenta anos de vida, desejou, estudou e, em seguida, conseguiu realizar seu sonho: implementar o projeto que iria salvar vidas. Inaugurou, em 1982, a Pastoral da Criança, o que nos leva à pergunta: Quando Zilda Arns iniciou a Pastoral? Quando, aposentada, passou a dispor de mais tempo para isso? Ou desde a sua infância, a partir da inspiração que recebeu da mãe e irmãos que se dedicavam às causas sociais e assistenciais? Ou ainda quando optou pela Medicina, profissão que a ajudaria a conhecer as necessidades alimentares suficientes para uma adequada nutrição infantil e as doenças que sua ausência provoca? Entendo que Zilda se preparou para a Pastoral, mesmo que inconscientemente, em todos esses momentos de sua vida.
Há também aqueles que esperam pelo momento ideal para dar a partida em busca de seus objetivos. Observe o que diz o dicionário: ideal é algo que existe somente na ideia; imaginário, fantástico. O momento ideal, portanto, não existe, a não ser no imaginário dos menos atentos. Os verdadeiros projetos não aguardam nem pelo momento, nem pelos recursos ideais. Eles simplesmente são frutos de mentes grandiosas, que fazem as coisas acontecerem, mesmo tendo muito pouco ou nenhum recurso.
O médico indiano radicado nos Estados Unidos e autor de muitos livros, Deepak Chopra, ensina que, para se determinar a idade de alguém, é preciso analisar três fatores: sua idade cronológica, sua idade biológia e sua idade psicológica, aquela “com que você se sente internamente”101. Esta última, nós podemos modificar apenas com atitudes.
Quantos casos serão necessários para convencer as pessoas de que a idade jamais atua como inibidor de nossas potencialidades?
Tomemos o exemplo do canadense Craig Kielburger, fundador da Kids Can Free the Children, uma das maiores Organizações Não Governamentais (ONG) do mundo, com mais de 100 mil membros, presente em mais de 35 países, criada por crianças para ajudar crianças. Com apenas dezenove anos, foi indicado três vezes ao prêmio Nobel da Paz. Visitou mais de quarenta países, escreveu dois livros e já foi recebido por Desmond Tutu, Nelson Mandela, Dalai Lama, e pelo então Papa João Paulo II, entre outros. Quando fala sobre os problemas do nosso país afirma que “o Brasil tem tudo o que é necessário para tirar as crianças do trabalho. É uma questão de vontade e prioridades”102.
Observe o russo Max Levchin que, aos 27 anos de idade, desenvolveu uma maneira de realizar transações financeiras utilizando a internet, sem a intermediação do sistema financeiro tradicional. Uma nova onda que permite a realização de operações por telefone celular e é foco da atenção de muitos bancos.
Outro exemplo impressionante é o da também canadense Severn Suzuki que, aos doze anos de idade, reuniu alguns amigos e com recursos próprios resolveu vir ao Brasil para protestar, em 1992, durante a ECO 92, contra a postura dos países desenvolvidos em relação ao meio ambiente. Sua atitude impressionou tanto os conferencistas que Severn foi convidada a discursar aos representantes das nações.
Imagine uma garota de doze anos, modestamente trajada, proferindo o seguinte discurso:
“Olá, sou Severn Suzuki, represento a Eco... A organização das crianças em defesa do meio ambiente.
Somos um grupo de crianças canadenses, de doze a treze anos tentando fazer nossa parte, contribuir...
Vanessa Suttie, Morgan Geisler, Michelle Quigg e eu.
Todo o dinheiro de que precisávamos para vir de tão longe, conseguimos por nós mesmas, para dizer que vocês, adultos, têm que mudar o seu modo de agir.
Ao vir aqui hoje, não preciso disfarçar meu objetivo, estou lutando pelo meu futuro.
Não ter garantia quanto ao meu futuro não é o mesmo que perder uma eleição ou alguns pontos na bolsa de valores.
Estou aqui para falar das gerações que estão por vir.
Estou aqui para defender as crianças com fome, cujos apelos não são ouvidos.
Estou aqui para falar em nome dos incontáveis animais que estão morrendo em todo o planeta porque não têm mais para onde ir.
Não podemos mais permanecer ignorados.
Hoje, tenho medo de tomar sol por causa dos buracos na camada de ozônio.
Tenho medo de respirar esse ar porque não sei que substâncias químicas o estão contaminando.
Eu costumava pescar em Vancouver com meu pai, até o dia em que pescamos um peixe com câncer.
Temos conhecimento de que animais e plantas estão sendo destruídos a cada dia e estão em vias de extinção.
Durante toda a minha vida, sonhei ver grandes manadas de animais selvagens, selvas, florestas tropicais repletas de pássaros e borboletas.
Mas, agora, eu me pergunto se meus filhos vão poder ver tudo isso.
Vocês se preocupavam com essas coisas quando tinham a minha idade?
Todas essas coisas acontecem bem diante dos meus olhos e, mesmo assim, continuamos agindo, como se tivéssemos todo o tempo do mundo e todas as soluções.
Sou apenas uma criança e não tenho as soluções. Mas quero que saibam que vocês também não têm.
Vocês não sabem como reparar o buraco na camada de ozônio.
Vocês não sabem como salvar os salmões das águas poluídas.
Vocês não podem ressuscitar os animais extintos.
Vocês não podem recuperar as florestas que um dia existiram, onde hoje é deserto.
Se vocês não podem recuperar nada disso, então, por favor, parem de destruir!
Aqui, vocês são os representantes de seus governos, homens de negócios, administradores, jornalistas ou políticos.
Na verdade, vocês são mães e pais, irmãos e irmãs, tias e tios. E todos também são filhos.
Sou apenas uma criança, mas sei que todos nós pertencemos a uma família de cinco bilhões de pessoas e, ao todo, somos trinta milhões de espécies.
Compartilhamos o mesmo ar, a mesma água, o mesmo solo.
Nenhum governo e nenhuma fronteira poderão mudar essa realidade.
Sou apenas uma criança, mas sei que esse problema atinge a todos nós e deveríamos agir rumo a um único objetivo.
Apesar da minha raiva, eu não estou cega. Apesar do meu medo, não sinto medo de dizer ao mundo como me sinto.
No meu país, geramos tanto desperdício, compramos e jogamos fora, compramos e jogamos fora... E os países do norte não compartilham com os que precisam, mesmo quando temos mais do que o suficiente.
Temos medo de perder nossas riquezas, medo de compartilhá-las.
No Canadá, temos uma vida privilegiada, com fartura de alimentos, água e moradia. Temos relógios, bicicletas, computadores e aparelhos de TV.
Há dois dias, aqui no Brasil, ficamos chocados quando estivemos com crianças que moram nas ruas.
Ouçam o que uma delas nos contou:
‘Eu gostaria de ser rica e, se fosse, daria a todas as crianças de rua alimentos, roupas, remédios, moradia, amor e carinho’.
Se uma criança de rua que não tem nada, ainda deseja compartilhar, por que nós, que temos tudo, somos tão mesquinhos?
Não posso deixar de pensar que essas crianças têm a minha idade e que o lugar em que nascemos faz uma grande diferença.
Eu poderia ser uma daquelas crianças que vivem nas favelas do Rio. Eu poderia ser uma criança faminta na Somália. Uma vítima da guerra no Oriente Médio ou uma mendiga na Índia.
Sou apenas uma criança, mas ainda sei que, se todo o dinheiro gasto nas guerras fosse utilizado para acabar com a pobreza, para achar soluções para os problemas ambientais, que lugar maravilhoso a Terra seria!
Na escola, desde o jardim de infância, vocês nos ensinaram a ser bem-comportados. Vocês nos ensinaram a não brigar com os outros. Resolver as coisas bem. Respeitar os outros. Arrumar nossas bagunças. Não maltratar outras criaturas. Dividir e não ser mesquinhos.
Então, por que vocês fazem justamente o que nos ensinaram a não fazer?
Não esqueçam o motivo de estarem assistindo a estas conferências e para quem vocês estão fazendo isso.
Vejam-nos como seus próprios filhos.
Vocês estão decidindo em que tipo de mundo nós iremos crescer.
Os pais devem ser capazes de confortar seus filhos dizendo-lhes: tudo ficará bem. Estamos fazendo o melhor que podemos.
Mas não acredito que possam nos dizer isso. Estamos sequer na sua lista de prioridades?
Meu pai sempre diz: ‘Você é aquilo que você faz, não aquilo que você diz.’
Bem, o que vocês fazem me faz chorar à noite.
Vocês – adultos – nos dizem que nos amam.
Eu desafio vocês.
Por favor...
Façam suas ações refletirem suas palavras.
Obrigada.”
A média de idade dos cientistas que desenvolveram a bomba atômica (revestidos do nobre e ingênuo propósito de que a nova arma acabaria com todas as guerras) era de somente 25 anos. O canal de músicas MTV foi construído a partir de ideias de jovens de, no máximo, 24 anos de idade.
O ex-piloto de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, optou pelo automobilismo já aos doze anos de idade. Segundo ele, “eu vi um carro de corrida e disse: é isso que eu quero fazer na vida. Fui determinado... Eu queria fazer aquilo”103.
Situação semelhante viveu a tenista Martina Navratilova: “Ainda me lembro da primeira vez em que joguei tênis, em uma quadra de verdade. No momento em que pisei naquele barro vermelho, percebendo o saibro sob o calçado, e senti a alegria de mandar uma bola por cima da rede, soube que estava no lugar certo. Devia ter uns seis anos, mais ou menos, quando isso aconteceu, mas me lembro como se tivesse sido ontem”104. Martina disputou sua primeira olimpíada em 2004, após trinta anos dedicados ao esporte.
Uma das frases mais comuns que normalmente se ouve por aí é “no meu tempo...”, como se o tempo daqueles que a pronunciam já tivesse se esgotado. Dizer isso equivale a aceitar o raciocínio de que o auge da vida ficou para trás e que agora só há descida pela frente quando, na verdade, o mundo nos mostra o oposto.
Estabelecer para si próprio um limite de idade ideal para realizar algo é impor-se, gratuitamente, uma barreira que não existe. Diante dos inúmeros exemplos pesquisados, a idade jamais foi fator inibidor do potencial humano em direção à sua capacidade de realizar. Seu tempo é hoje!
Ainda bem que muitos de nós temos despertado a tempo. É cada vez mais comum encontrar pessoas com mais de uma profissão: aquela que lhe foi imposta e outra, escolhida com mais maturidade, não raramente aos quarenta, cinquenta, sessenta anos ou mais, a partir dos sonhos, interesses e paixões. Nesse caso, essas pessoas tendem a um desempenho superior, naturalmente destacando-se em suas atividades. Confirmei essa impressão observando o desempenho de meus alunos universitários em que os mais maduros, aqueles que haviam conscientemente feito a escolha pelo curso, naturalmente, se destacavam entre os demais.
Quando Donald Sull perguntou aos executivos que entrevistou o que teriam feito de diferente se tivessem conhecido antes os “compromissos transformadores” que impulsionavam seu desempenho, a resposta mais frequente foi: “Eu teria começado mais cedo e feito tudo mais rápido”.
Estudos indicam que as melhores obras de Picasso foram criadas quando ele tinha apenas 26 anos. Paul Cézanne, um renomado artista francês, criou suas mais brilhantes obras aos 67 anos. Os artistas plásticos mexicanos Diego Rivera e Rufino Tamayo, e o cubano Wilfredo Lam, criaram seus mais importantes trabalhos aos 31, 44 e 39 anos de idade, respectivamente105.