Pense Grande
O fracasso
“Muitas coisas não ousamos empreender por
parecerem difíceis; entretanto, são difíceis
porque não ousamos empreendê-las.”
(Sêneca)
LIDANDO COM O FRACASSO
Estudando pessoas que realizaram feitos fantásticos, é possível observar algumas atitudes que foram determinantes em suas jornadas. Uma das que se destacam é a maneira como essas pessoas lidam com o medo do fracasso.
Enquanto para muitos, a menor possibilidade de fracassar é motivo suficiente para desistir, os participantes do Grupo dos 5% têm uma postura bem particular em relação a isso, como se verá a seguir.
A educadora Emília Queiroga afirma que “a raiz do medo nos leva a expressar o nosso eu menor, que é chamado de ego ou personalidade humana. Ele conhece o medo e age sob o medo a maior parte do tempo. As pessoas estão buscando o tempo todo se defender de uma série de coisas e proteger seus próprios interesses menores”68.
O tenista Andre Agassi, sobre esse assunto, disse o quanto é perigoso render-se ao medo. “Medos são como drogas mais leves. Você cede para uma droga sem importância e logo está se entregando às mais pesadas”, diz.
As pessoas tomadas pelo medo do fracasso ficam paralisadas. Já aqueles do Grupo dos 5% não cedem ao poder do medo, eles aprendem a conviver com esse sentimento e seguem em frente.
Os exemplos analisados neste livro, de pessoas que realizaram grandes feitos, trazem relatos de fracasso. Esse tema foi tratado em um de meus artigos publicado na edição de número 59 da Revista Você S/A. Todas aquelas extraordinárias pessoas, em algum momento da vida, fracassaram. E o mais interessante, ao contrário do pensamento comum, encararam isso com naturalidade. Em tempo algum acreditaram que seus desafios seriam isentos de percalços, uma estrada em linha reta.
Como afirma Warren Bennis, “o progresso nunca se move em linha reta. É um caminho em espiral, ora indo, ora voltando, pegando e largando, ganhando e perdendo, dando e recebendo”69.
Alexandre Tadeu da Costa ilustra bem essas dificuldades em sua ambiciosa meta de abrir novecentas novas lojas da Cacau Show em apenas sete anos. “Claro que nessa longa trajetória, houve momentos em que tive a sensação de que a meta havia mesmo se tornado impossível. Mas bastava uma boa noite de sono para acordar no dia seguinte, cheio de entusiasmo, achando outra vez que conseguiríamos alcançá-la”, relatou.
O Dr. Paulo Roberto Pereira, sobre o qual falamos há pouco, recomenda: “Uma coisa que eu gostaria de deixar para vocês: não desistam, nós tivemos muitos fracassos, muitas vezes tivemos que voltar atrás, começar de novo, não era o momento, não estava ainda no ponto, mas nunca desistam porque, acreditando nas pessoas, vamos conseguir mudar muito a gestão”70.
O fracasso, portanto, faz parte do processo de mudança para se atingir objetivos finais positivos. Henry Ford, fundador da Ford, afirmava a todo instante que “existem mais pessoas que capitulam do que pessoas que fracassam”71.
Flávia Pacheco, em sua pesquisa com personalidades brasileiras reconhecidamente bem-sucedidas (empresários, artistas, atletas etc.), apontou um aspecto comum a todas elas: desistir nunca foi uma opção. “Todos os entrevistados, em vários momentos da vida, fracassaram. Enfrentaram problemas que pareciam intransponíveis naquele momento. Estes ocorreram em diversas fases de suas vidas e se manifestaram das maneiras mais variadas. Eles atingiram a excelência profissional porque se negaram a desistir. Continuaram lutando, apesar de todas as dificuldades. O que os diferenciou da multidão foi o fato de não terem fugido assustados”, concluiu.
Ela nos dá um exemplo valioso: “Tenho um amigo, um tenista curitibano, que costumava viajar para participar de campeonatos por todo o país. Ele tinha um adversário específico que já conhecia de outras partidas, e ficava feliz quando tinha de jogar contra ele, porque das quinze partidas que jogaram, em diversos campeonatos, o meu amigo ganhou catorze. Depois de alguns anos, ele desistiu da carreira de tenista, mas seu adversário, que costumava perder para ele, não. Seu nome é Gustavo Kuerten, que alcançou a posição de melhor jogador de tênis do mundo, depois de vencer por três vezes o torneio de Roland Garros”.
No campo do esporte, o jogador de basquete Oscar Schmidt recomenda: “Nunca perca a confiança, porque ela é a sua maior força. Sem ela, é melhor nem tentar nada”.
O autor de novelas, Lauro César Muniz, completa: “Tive um colega na faculdade que logo despontou com um grande talento de ator, no teatro universitário. Suscitou logo o interesse do Alberto D’Aversa, um dos maiores diretores teatrais da época. Com certeza teria sido um grande ator; estaria hoje contracenando com o Raul Cortez, mas a pressão da família, um casamento precoce e o nascimento de um filho, o impediram de seguir a carreira dos seus sonhos.”72.
Robert Sutton, à frente da Stanford Engineering School e autor de vários trabalhos no campo da criatividade, afirma que “para encontrar ideias que funcionem, você precisa experimentar algumas que irão fracassar”. Segundo ele, a criatividade se desenvolve também em função da quantidade de produção – efeito denominado por ele de “variância”. Assim, quanto mais se erra, mais aumentaremos nossas possibilidades de acerto.
Vai mais além: afirma que gênios individuais como Mozart, Shakespeare, Picasso, Einstein, não tiveram sucessos em uma taxa mais elevada que os outros. Eles simplesmente fizeram mais. Por isso “tiveram mais sucessos e mais fracassos”. Revela, por exemplo, que em 1998 um estúdio de design de brinquedos desenvolveu cerca de quatro mil ideias, dentre as quais, apenas 230 foram consideradas promissoras, sendo que somente doze delas foram de fato vendidas. De modo semelhante, produtores de Hollywood ouvem centenas de roteiros “jogados” para eles todos os anos, para descobrir uns poucos que poderiam valer a pena, se fossem desenvolvidos para virar filmes. Venture capitalists (investidores privados que vislumbram ganhos e participação em negócios potenciais) leem centenas de planos de negócios e conversam com centenas de empreendedores todos os anos para encontrar uns poucos para financiar.
Ideia semelhante é apresentada pelo ex-presidente da Ferrari norte-americana, Gian Luigi Longinotti-Buitoni: “É muito provável que haja uma correlação direta entre a quantidade de trabalho e a produção criativa. Como o trabalho criativo é muitas vezes guiado pela exploração de possibilidades desconhecidas e de tentativas e erros persistentes, o aumento do número dessas ocasiões multiplica as possibilidades de sucesso”. Ele emenda: “Infelizmente, o medo do fracasso está profundamente arraigado na maioria das culturas. Desde cedo somos ensinados a ser certos, não errados, porque a sociedade e especialmente as empresas têm pouco tempo para erros. Contudo, os erros são importantes experiências de aprendizado que contribuem para todo o sucesso duradouro”.
O dono da maior rede de chocolates finos do mundo, Alexandre Tadeu da Costa, concorda: “Quanto mais conquistas no currículo, maior o número de erros cometidos no caminho”.
O renomado especialista em Administração, Tom Peters, chega a afirmar que as empresas não contratarão quem não tiver uma aberração no curriculum, afinal o mundo corporativo exigirá cada vez mais atitudes de ousadia e audácia73.
Steve Jobs, após ser expulso da empresa que havia criado, a Apple, criou uma nova empresa, a Next, onde pôde exercitar todo o seu poder criativo, sem restrições. O resultado: “Uma série de produtos espetaculares que resultaram em incríveis fracassos comerciais”, relatou Walter Isaacson, que acompanhou Jobs em seus últimos anos. Ele entende ter sido este um momento crucial, que permitiria a Jobs retornar à Apple muito mais capacitado. “O que o preparou para o grande sucesso alcançado no terceiro ato não foi a demissão na Apple no primeiro ato, mas os brilhantes fiascos no segundo”, disse.
Nick Vujicic, o australiano que nasceu sem braços e sem pernas, atesta esse entendimento. Para ele, “quem nunca se levanta depois de uma queda, vê a derrota como algo definitivo e irreversível. O que precisamos ter em mente é o fato de que a vida não é uma prova do tipo em que você passa ou é reprovado, mas, sim, um processo de tentativa e erro. Quem é bem-sucedido consegue dar a volta por cima depois de ter cometido erros estúpidos porque vê os próprios fracassos como experiências temporárias e de aprendizado. Todas as pessoas bem-sucedidas que conheço já fizeram besteiras e enfiaram os pés pelas mãos em algum momento. Muitas vezes elas dizem que seus erros foram fundamentais para seu sucesso. Só conhece a derrota quem se recusa a tentar de novo”. Ele conclui: “Acredite, perder a esperança é pior do que não ter braços e pernas”.