Pense Grande

Alex Bonifácio · Capítulo 32 de 54

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Pense Grande

Criatividade e paradigma são incompatíveis

Robert Kriegel e David Brandt, especialistas no assunto, revelam que “uma pesquisa interna com 1,2 mil administradores de alto escalão da IBM, feita após a empresa já ter caído em desgraça, mostrou que 40% deles ainda não aceitavam a necessidade de mudanças”.

Mesmo após terem sido confirmadas as fórmulas de Einstein, que lhe renderiam o Prêmio Nobel, vários físicos continuaram rejeitando-as.

Se a realidade é, na verdade, cocriada pelos nossos processos de observação, como afirmam os cientistas, então ela se torna diferente para cada um de nós, de modo que todos podemos construir nossas próprias verdades, em vez de simplesmente aceitar aquelas que nos são impostas. Quando alguém se entrega ao poder que os paradigmas exercem sobre suas vidas, deixa de perceber oportunidades e perigos. No mundo empresarial isso também ocorre. O exemplo mais emblemático é o da Xerox, que ignorou o primeiro computador pessoal, sua própria invenção, por não conseguir enxergar nele uma utilidade viável.

Para derrubar paradigmas é preciso constante avaliação do ambiente em que se vive, de modo a ampliar o campo de visão e detectar atitudes, regras e valores que não têm mais por que existir. Isso exige grande sensibilidade.

Um paradigma é, portanto, uma forma de condicionamento e padronização de raciocínios e atitudes que suprime a motivação e a criatividade.

CRIATIVIDADE E PARADIGMA SÃO INCOMPATÍVEIS

Richard Barrett, um dos mais importantes consultores organizacionais internacionais, realizou uma série de testes com crianças, mostrando que, à medida que crescem, o nível de criatividade genial diminui. Dos três aos cinco anos, as pessoas são 98% criativas. Entre oito e dez anos de idade, essa criatividade cai para 32%. Dos treze aos quinze anos, tem-se apenas 10% de criatividade, que vai para cerca de 2% após os vinte anos de idade. Curiosamente, no decorrer dos anos, as pessoas são submetidas a um número cada vez maior de verdades e valores que são impostos como regras – paradigmas –, diminuindo relativamente sua capacidade de ação, como se camadas de condicionamento fossem envolvendo pouco a pouco a capacidade criativa, inviabilizando-a quase por completo. Em algum momento, esse “embrulho” precisar ser aberto, possibilitando o resgate do poder criativo essencial ao sucesso.

Uma prova disso é a pesquisa divulgada no documentário Sociedade Cibernética, produzido pela rede de TV BBC, que conclui: em cada hora, as pessoas passam 57 minutos ocupadas com coisas diversas e apenas três minutos sendo criativas.

O filho pergunta ao pai se pode comer batata frita com sorvete. O pai logo esclarece ao filho que “não se come batata frita com sorvete”. O garoto não entende o motivo da proibição, afinal, é permitido comer batata frita e também é permitido tomar sorvete, mas os dois juntos são proibidos. Cria-se, naquele momento, um paradigma.

As crianças são mais criativas que os adultos porque “procuram exatamente as experiências que evitamos: o desequilíbrio, a novidade, a perda de controle, a surpresa”.

É o que conclui Gian Luigi Longinotti-Buitoni, ex-presidente da Ferrari norte-americana. Ele ensina que “contrariamente à crença comum, a criatividade não é um atributo reservado somente a grandes mentes ou gênios. Ela pertence a todos os seres humanos (...). A criatividade nasce de uma aptidão genética para observação e percepção. Contudo, como a composição genética de cada pessoa é diferente, cada um de nós percebe as coisas de maneira ligeiramente diferente, oferecendo várias interpretações ao que nossos sentimentos identificam. A criação não requer um processo excepcional de pensamento, como a “iluminação” dos deuses ou a “inspiração” das musas. O pensamento criativo não difere muito do pensamento comum, que se baseia em certa série contínua, na qual velhos conhecimentos são aplicados para gerar novos. Em outras palavras, a inspiração que levou Michelangelo a pintar a Capela Sistina veio do mesmo processo de pensamento que usamos para fazer uma lista de compras”, conclui.

Uma criança que aprende a andar, mesmo sabendo que a queda provoca dor e choro, não descansa até conseguir dar seus primeiros passos com segurança. Enquanto isso não acontece, as quedas são muito frequentes. Mesmo assim, prossegue. Ao contrário dos adultos que, ao visualizar a primeira possibilidade de queda, tendem a desistir. Muitas vezes, preferem não mais “brincar”. Não inovam, não arriscam, não tentam, mesmo cientes de que o processo criativo, como veremos, envolve boa dose de tentativa e erro. Ao temer essas possibilidades, se abdica do exercício da criatividade. Novamente os especialistas Robert Kriegel e David Brandt lembram que “o medo é a causa mais comum da resistência e a mais poderosa”.

Muitos dos obstáculos que se criam em direção àquilo que se deseja foram construídos pelas próprias pessoas, em seus paradigmas. Não residem em outro lugar a não ser em suas mentes. Repousam, única e exclusivamente, em concepções equivocadas a respeito de muitas coisas e, de um modo geral, têm origem no medo.

As pessoas que os alimentam passam a não persistir e inovar, tornam-se medianas. Normalmente, se conformam por seu desempenho, por “estar na média”. Não se dão conta do quanto perdem agindo assim. Não conseguem imaginar os feitos fantásticos que poderiam realizar.

Isso vai ao encontro do que afirma o consultor, professor, conselheiro presidencial e empresário norte-americano, Warren Bennis: “As pessoas capazes de alcançar algo verdadeiramente inédito possuem mais do que simples talento e inteligência. Elas possuem mentes originais. Veem as coisas de forma diferente”.