Pense Grande
O banqueiro dos pobres
Há aí uma significativa semelhança com as histórias mitológicas e religiosas. Não poderia o desequilíbrio ou o caos justamente se referir à jornada do herói e ao renascimento de um novo Eu que visitou a escuridão (da sua consciência, dos seus conflitos internos e de suas emoções que indicavam a necessidade de mudança) e dela emergiu, reconfigurado e melhorado?
A mesma entropia que leva o sistema à exaustão e foi tão duramente combatida, agora pode ser vista como parte natural de um processo de revolução. A palavra caos, evitada por muitos, em especial no mundo organizacional por sua conotação destrutiva, pode voltar a ter alguma chance, pois traz consigo a ideia de renovação, mudança, revelação. No cristianismo, o ritual do batismo é simbolizado pelo mergulho e imersão. Mais uma vez, morte/vida.
Em sociedades tribais, há rituais de iniciação para os membros que transitam da infância para a vida adulta. Eles “morrem” como crianças e renascem como adultos. Nesses casos, a morte também significa uma transformação psicológica fundamental.
O BANQUEIRO DOS POBRES
Veja o exemplo de Muhammad Yunus, em Bangladesh, e como se deu o processo que mudaria em definitivo a sua vida e a de milhões de pessoas em todo o mundo.
Bangladesh é um país que convive com catástrofes naturais. Inundações e ciclones arruínam seu povo com frequência. Somente no ano de 1974, a fome tirou centenas de milhares de vidas. A população subnutrida (provocando a redução do peso médio e da estatura) é predominantemente analfabeta. O país possuía e, ainda possui, elevada densidade populacional e quase não registrou crescimento econômico no último século.
No mesmo ano, Muhammad Yunus era chefe do Departamento de Economia na universidade da cidade comercial de Chittagong, e foi visitado por uma profunda crise de significado, que o levou a entrar na caverna e lutar contra um fantasma que o atormentava: “Lembro-me de meu entusiasmo ao ensinar as teorias econômicas, mostrando que elas apresentavam respostas para problemas de todos os tipos. Eu era muito sensível à sua beleza e elegância. De repente, comecei a tomar consciência da inutilidade desse ensinamento. Para que poderia ele servir, quando as pessoas estavam morrendo de fome nas calçadas e diante dos pórticos? A partir de então, comecei a achar que minhas aulas eram uma sala de cinema, na qual podíamos relaxar tranquilizados pela vitória certa do herói. Eu sabia desde o início que todo problema econômico encontraria uma solução elegante, mas, até o momento em que saía da sala de aula e confrontava com o mundo real. Lá, os heróis eram moídos de pancadas, e pisoteados com selvageria. Via a vida cotidiana se tornar cada vez mais dura e os pobres ficarem cada vez mais pobres. Para eles, morrer por inanição parecia ser a única saída. (...) Era difícil distinguir os vivos dos mortos. Homens, mulheres, crianças: todos se pareciam. Suas idades também era algo insondável. Os velhos tinham aspecto de crianças, as crianças pareciam velhos (...). Era impossível não ver esses famintos, impossível ignorar a sua existência. Eles estavam em toda parte, esguios, muito calmos. Não gritavam nenhum slogan. Nada esperavam de nós. Estendidos na entrada de nossa casa, não nos condenavam por estarmos bem-alimentados, a salvo da necessidade”. Conviver com esse sentimento passou a afetar cada vez mais a sua consciência, provocando uma situação de conflito interior que, com o tempo, chegou ao nível máximo e se tornou insustentável.
Muhammad mergulhou na escuridão e percebeu que de nada valeriam suas belas aulas de Economia se elas não pudessem contribuir para melhorar a situação do seu país. “Eu tentava superar esse sentimento de impotência redefinindo meu papel. Obviamente não me seria possível ajudar muitas pessoas, mas eu poderia certamente me tornar útil a, pelo menos, um de meus semelhantes. Isso seria para mim uma grande satisfação pessoal”, disse. O professor não tinha qualquer ideia de como fazê-lo. Contudo, decidiu dar o primeiro passo ao procurar conhecer aqueles problemas mais de perto.
Visitou uma aldeia próxima ao campus universitário onde lecionava. Lá chegando, conheceu uma jovem mãe de três filhos. Acocorada, passava os dias fabricando tamboretes de bambu. Os dedos cheios de calos denunciavam seu diuturno trabalho.
– Como a senhora se chama?
– Sufia Begum.
– Quantos anos tem?
– Vinte e um anos.
– O bambu é da senhora? – perguntou.
– Sim.
– Como a senhora o obtém?
– Eu o compro.
– Quanto ele custa?
– Cinco Takas. (Isso representava na época US$ 0,22)
– A senhora tem esses cinco takas?
– Não, eu peço emprestado dos paikars.
– Os intermediários? O que a senhora combina com eles?
– Eu preciso vender para eles meus tamboretes de bambu no fim do dia para devolver o dinheiro emprestado. O que sobra é meu lucro.
– Por quanto a senhora vende o tamborete?
– Cinco takas e cinquenta paisas.
– Então a senhora tem um lucro de cinquenta paisas.
Ela assentiu com a cabeça. Isso equivale a US$ 0,02, nem mais nem menos.
– Mas a senhora não poderia tomar emprestado o dinheiro e comprar a senhora mesma os materiais?
– Poderia, mas me cobrariam um absurdo. E as pessoas que apelam para eles empobrecem mais depressa ainda.
– Com quanto o agiota fica?
– Depende. Às vezes, ele fica com 10% por semana. Eu mesma tenho um vizinho que paga 10% por dia!
– E é tudo o que a senhora ganha fabricando esses belos tamboretes de bambu, 50 paisas?
– É.
O esforço daquela sofrida mulher lhe rendia aproximadamente o equivalente a dois centavos de dólar por dia de trabalho! Atualmente, segundo metodologia do Banco Mundial, considera-se como abaixo da linha de indigência uma renda diária inferior ao equivalente a um dólar norte-americano e dois dólares para a linha de pobreza.
O mais impressionante para Muhammad foi verificar que apenas o equivalente a vinte e dois centavos de dólar seria o capital inicial suficiente para que Sufia adquirisse o bambu necessário para que o lucro da sua atividade, como seria justo, ficasse em suas calejadas mãos.
Situações semelhantes se repetiam com tantas outras pessoas da mesma aldeia. A partir dali, Muhammad iniciou o processo que transformaria muitas vidas para melhor. “Nos cursos que eu ministrava, eu falava em milhões de dólares e ali, sob meus olhos, os problemas da vida eram decididos por centavos. Alguma coisa estava errada. Por que o curso da universidade não refletia em nada a realidade? Eu estava furioso comigo mesmo, furioso com o mundo tão duro e impiedoso”, lembra. Concluiu que a solução para aquela situação de escravidão estava em oferecer crédito aos mais pobres, justamente aqueles que não despertavam o interesse dos bancos tradicionais, pois não dispunham de garantias suficientes para oferecer em troca.
A partir de um empréstimo equivalente a vinte e sete dólares, beneficiando quarenta e duas famílias, Muhammad Yunus desenvolveu o conceito de microcrédito e fundou o Grameen Bank (Banco da Aldeia), primeira instituição que teve por objetivo emprestar pequenos valores àqueles mais necessitados.
Em alguns anos, o Grameen passaria a funcionar em dezenas de países do mundo (inclusive no primeiro mundo, como Estados Unidos e França). Já ultrapassou a marca de US$ 10 bilhões emprestados. O banco, presente em quarenta países, beneficiou mais de 8,34 milhões de pessoas. Passou a financiar também a construção de casas, a assistência à saúde e a aposentadoria, a piscicultura, as telecomunicações etc.
O trabalho de Yunus lhe rendeu o reconhecimento da UNICEF, UNESCO, Banco Mundial, da Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional, entre outras entidades internacionais. Em 2006 ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Yunus poderia ter agido como se faz todos os dias nas ruas: dar alguns trocados àquela jovem mulher, satisfazendo momentaneamente sua consciência e fechando os olhos para aquilo que de fato o incomodava. Seria uma alternativa paliativa, mas, em vez disso, optou por ir além: abdicou da segurança e do controle do seu mundo, enfrentou a escuridão que abalava sua consciência e destampou el puchero.
Cada um tem a sua própria maneira de destampar el puchero, de enfrentar alguns fantasmas. Ninguém, a não ser você, conhece de perto esses sentimentos, emoções e também intuições a respeito daquilo que realmente gostaria de fazer, dos projetos que deseja implementar.