Pense Grande
A dona de casa que conquistou os mares
Dailza Damas, uma dona de casa paranaense, aprendeu a nadar somente aos 28 anos de idade, com o objetivo de incentivar o filho que sofria de bronquite. A natação tornou-se uma paixão e Dailza decidiu percorrer o mesmo percurso que fez, em 1875, o capitão da Marinha Mercante Britânica Matthew Webb, e atravessar a nado os 33 quilômetros das frias águas do Canal da Mancha, que divide as cidades de Dover (Inglaterra) e Calais (França), onde as correntes marinhas obrigam o nadador a voltar alguns pontos. Não é incomum ter que nadar durante horas para vencer alguns poucos metros. Às vezes, é necessário nadar sessenta e um quilômetros para realizar a travessia.
Para se ter uma ideia do perigo que acompanha a iniciativa, menos de cinco brasileiros haviam realizado tal façanha. Em agosto de 1988, a nadadora paulista Renata Agondi, de 25 anos, morreu tentando cumprir o trajeto.
Em 1969, Donald Crowhurst, velejador que participou de uma das mais perigosas regatas já existentes, ao ser entrevistado sobre alguma situação no mar que o fez pensar que iria morrer afogado, relatou um episódio em que caíra nas águas do mesmo canal que Dailza pretendia vencer: “Nadar 400 metros nas águas do Canal da Mancha, capazes de causar hipotermia, seria uma façanha de sorte e heroísmo”106, disse o velejador.
O que dizer então de uma dona de casa que, tendo aprendido a nadar “muito tarde”, insistisse na ideia de cruzar os mais de trinta quilômetros dessas mesmas águas, em que a temperatura média é de 12º C?
Dailza se divertia com a reação dos empresários ao receberem sua visita com um pedido de patrocínio. “Uma dona de casa deveria largar as panelas para atravessar a nado o Canal da Mancha?”, provavelmente era o pensamento mais comum. Mesmo assim, Dailza deixou o fogão de lado e seguiu em busca de sua meta prodigiosa. Conseguiu? É claro. A primeira travessia foi feita em dezenove horas e dezesseis minutos. Em sua segunda travessia, baixou o tempo para dez horas e quarenta e oito minutos.
É reconhecida como uma das maiores nadadoras no mundo, em mar aberto, tendo atravessado o canal de Catalina (USA), o estreito de Gibraltar e o mar da Galileia. Contornou também as ilhas de Fernando de Noronha, do Mel (PR) e de Manhattan (USA), entre outras façanhas.
Ela mesma não cansa de repetir que a idade é apenas um número. De fato, não há como discordar, pois os casos com os quais nos deparamos reforçam justamente essa ideia.
Os exemplos são vastos. Veja o da americana sedentária Priscila Welch, que venceu a maratona de Nova York aos 42 anos. Ou o da dona de casa Tomie Ohtake, que aos 39 anos de idade, pintou seu primeiro quadro e atualmente é considerada um dos grandes nomes da arte brasileira.
Lembre-se de Burt Munro, que estabeleceu o recorde mundial de velocidade em motos de até 1000 cc aos 68 anos de idade.
Ticiano Vecellio, um dos maiores pintores italianos, pintou sua famosa obra Adão e Eva, aos 94 anos de idade.
Herói das expedições polares, o inglês Ernest Shackleton deu início a sua mais importante expedição também aos quarenta anos, ainda no início do século passado.
Ainda na faixa dos quarenta anos, Lya Luft abandonou a carreira de professora universitária para se tornar escritora e autora do best seller Perdas & Ganhos.
Eliezer Schwartz, um dos raros sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz, obteve seu doutorado aos 81 anos, ao concluir seu trabalho sobre a origem dos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau. Outro sobrevivente do holocausto, o britânico Denis Avey, passou 65 anos em silêncio, mas aos 93 anos de idade decidiu compartilhar, em livro, os momentos de horror vividos também em Auschwitz.
Esconder-se por trás da idade é apenas uma tentativa de ocultar todo o seu potencial e jogar fora tantas imensas transformações que qualquer um poderia gerar em prol dos seus sonhos e da sociedade.
Nuno Cobra foi preparador físico de atletas famosos, como Ayrton Senna, Mika Häkkinen, Gil de Ferran e tantos outros. Seu primeiro aluno, no entanto, foi um senhor de cinquenta anos de idade, que tinha como sonho aprender a jogar tênis. Chamou a atenção de Nuno o quanto a conquista de um objetivo rejuvenesce as pessoas. Segundo ele, “nascia um novo homem... Mais disposto e otimista, com um sorriso de criança estampado no rosto corado e saudável”.
A reunião entre aquilo que realmente nos impulsiona e sua prática, como vimos, faz emergir uma inesgotável fonte de energia, semelhante à das crianças.
No campo profissional, paradigmas sobre a idade também precisam ser quebrados. Se é correta a afirmação de que vivemos a plenitude da era do conhecimento, então se torna mais valioso o funcionário mais experiente. Este profissional só deixa de ser interessante às empresas no momento em que a resistência às mudanças o impede de crescer, de explorar.
Tome o exemplo do famoso Hotel Ritz de Paris, que atribui boa parte do seu sucesso – reconhecidamente um dos melhores e mais luxuosos hotéis do mundo – à polidez de seus funcionários, alguns dos quais lá trabalham há mais de vinte anos e que depois de tanto tempo em contato íntimo com os hóspedes mais distintos e sofisticados do mundo, desenvolveram um know-how sem precedentes, ao ponto de conhecerem as preferências pessoais de cada um deles.
As melhores empresas, cientes disso, não só têm valorizado os funcionários mais antigos, como têm criado novos cargos de nível estratégico com o propósito de gerenciar o conhecimento por eles compartilhado e espalhar por toda a organização os ensinamentos que essas pessoas têm a oferecer. As denominações são diversas: engenheiros do conhecimento, CLO (Chief Learning Officer), diretor de Capital Intelectual, diretor de Transferência do Conhecimento, diretor global de Recursos Intelectuais, e tantas outras.
O Prêmio Nobel de Física, Stephen Hawking, é prova de que o conhecimento é mais importante do que o próprio aspecto físico. Mesmo vítima de uma doença degenerativa que subtrai praticamente todos os movimentos do seu corpo, é um dos maiores cientistas do mundo, autor do best seller O universo numa casca de noz.
Se os colaboradores mais antigos dispõem de um nível de conhecimento mais elevado, e se é válida a ideia de que o maior patrimônio das organizações é o seu capital intelectual, os gestores precisam lembrar-se de que seus empregados levam toda essa riqueza para casa no final do dia, e que é preciso fazer com que queiram voltar a trabalhar no dia seguinte, senão...
Enfim, aqueles que ainda utilizam os critérios do modelo industrial para contratar e demitir estão, na verdade, ignorando o poder das pessoas que enxergam além dos demais e que muitas vezes são mandadas para casa por não aderirem ao comportamento padrão etário. E, como vimos, quem faz parte do Grupo dos 5% aprecia tanto rótulos e paradigmas quanto a ovelha aprecia o lobo.
Portanto, a capacidade de realizar grandes feitos não reside numa dada faixa de idade, mas sim na determinação daqueles que acreditam numa causa maior que eles próprios e dedicam a ela o melhor de si acessando sua fonte de energia vital.
Não há motivos para aguardar pelo amanhã, se podemos iniciar hoje o nosso processo de transformação.
Amyr Klink, em seu livro Mar sem fim, relata um episódio ocorrido em uma de suas expedições, que fala sobre oportunidades: “Já ancorado na Antártida, ouvi ruídos que pareciam de fritura. Pensei: será que até aqui existem chineses fritando pastéis? Eram cristais de água doce congelada que faziam aquele som quando entravam em contato com a água salgada. O efeito visual era belíssimo! Pensei em fotografar, mas falei para mim mesmo: calma, você terá muito tempo para isso... Nos 367 dias que se seguiram, o fenômeno não se repetiu. As oportunidades são únicas”.
Lembre-se de que o seu tempo é agora, não ontem, tampouco amanhã. Elimine de seu vocabulário a expressão “No meu tempo...” Se está aposentado, maior tempo dispõe para concretizar os sonhos que a rotina do trabalho não lhe permitiu alcançar.
O filósofo italiano Domenico de Masi afirma que “paramos de trabalhar e ficamos vinte ou trinta anos à espera da morte, em vez de produzir e nos divertir”107. Se é jovem, dispõe de mais tempo para os fracassos que antecedem ao sucesso. Mais tempo para tentar, errar e acertar.
Sempre é tempo de substituir os velhos alvos por outros novos. Não à toa, Walt Disney repetia a todo momento: “O que você pode sonhar, pode fazer”108.
Qual é a sua verdadeira idade? Pense nisso.
Lembre-se da máxima de John Shedd: “Um navio está seguro no porto, mas ele não foi construído para ficar lá”. E você, quando irá partir?
A vida pode ser generosa, divertida e rica em possibilidades. Também pode ser dura, sofrida e limitada.
Agir ou não como um membro do Grupo dos 5% poderá contribuir para o resultado final dessa equação.
Apenas 5% das pessoas acessam as ferramentas que as capacita para obter seu máximo desempenho e produzir tantas maravilhosas mudanças em si próprias, em seu meio, na sociedade e no mundo. No entanto, essas ferramentas estão disponíveis a todos nós, independente de condição econômica ou social.
Imagine quais seriam os benefícios se um número cada vez maior de pessoas explorassem as infinitas oportunidades que dispõem...
Corremos o tempo todo em busca do sustento de cada dia. Também buscamos uma fonte de energia que nos motive, nos traga significado e entusiasmo para viver. Os recursos que nos permitem acessar essa energia vital estavam obscuros, encobertos por atitudes e valores envoltos por falsas verdades. Não precisa ser mais assim.
Como diziam os polinésios: cuidado, você pode estar em pé numa baleia, mas pescando carpas miúdas.
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Alex Bonifácio
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