Pense Grande

Alex Bonifácio · Capítulo 7 de 54

Páginas do PDF

Pense Grande

Enfrente o problema.

MOVA-SE!

Encarar os dilemas que eventualmente são apresentados por nossa consciência é uma condição essencial para que deixemos nossa marca no mundo, para participar em vez de assistir, para concretizar os nossos sonhos, em vez de abandoná-los. Com isso, abdicamos da postura de meros expectadores e nos tornamos os roteiristas de nossas vidas.

Margaret J. Wheatley, sobre a qual mencionamos, é presidente do Berkana Institute, fundação de pesquisas científicas e educacionais sem fins lucrativos, que se dedica à descoberta de novas formas de organização. Apesar de não ser cientista, sempre se interessou por ciência quântica. Em certa altura, passaram a lhe incomodar os baixos resultados apresentados pelas empresas de um modo geral. Ela supunha que poderia haver um novo tipo de organização, mais próspero e promissor, como ela própria reconhece: “Essas questões vinham me inquietando há vários anos e reduzindo o meu senso de competência. Quanto mais eu me ocupava do trabalho e quanto mais projetos assumia, tanto maiores eram minhas dúvidas. Até o momento em que iniciei minha primeira jornada”.

Foi então que decidiu combater tal inquietação e escrever A Liderança e a nova ciência, obra reconhecida pela revista Industry Week como “um dos melhores livros de negócios de todos os tempos”, cujo propósito foi o de responder a muitas das suas principais inquietações e revelar ao mundo empresarial possibilidades de organização ainda desconhecidas. Ela admite: “Os momentos de escuridão são normais na vida; não há nada de errado conosco, quando mergulhamos periodicamente no abismo”, revelando que o sentimento que nos incomoda é o mesmo que nos liberta.

Casos semelhantes reproduzem-se com bastante frequência entre os membros do Grupo Metadesempenho.

Ocorreu também com o norte-americano Eliyahu Goldratt. Em 1982, ele era “presidente e um dos principais acionistas de uma empresa classificada pela Inc. Magazine como a sexta empresa de maior crescimento nos Estados Unidos”. No entanto, ele se sentia “extremamente frustrado”. Esse sentimento o impulsionou a escrever A meta, livro que viria a se tornar um best seller mundial. Atendeu ao chamado ao perceber que precisava “enfocar a necessidade de mudar o paradigma que governa a indústria”.

Esse processo de amadurecimento, da percepção de que algo precisa ser feito, também foi vivenciado por Zilda Arns antes de decidir criar a Pastoral da Criança da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): “Como médica e sanitarista, sentia falta de um trabalho de educação nas comunidades, junto às famílias, especialmente junto às mães. Tinha a certeza de que a maioria das doenças que acometiam gestantes e crianças poderiam ser facilmente prevenidas se as famílias tivessem mais conhecimento e apoio necessário”10, disse ela. Esse foi o sentimento que fez surgir a Pastoral da Criança, cujo trabalho reúne milhares de voluntários em todo o Brasil e em outros países numa mesma causa: salvar vidas.

O ex-advogado John Clark também sentiu angústia semelhante, que o levou a reposicionar sua carreira profissional. Ele afirma ter sido tomado por uma crescente “sensação de vazio”, de “inércia”, até retomar os rumos de sua vida, dedicando-se ao mundo empresarial. “Hoje adoro meu trabalho. Houve um tempo em que me pareceu tolice esperar que um dia isso acontecesse”.

A parábola do guardião do castelo, escrita por Alzira Castilho, tem muito a nos ensinar nesse sentido:

“O Grande Mestre e o Guardião dividiam a administração de um mosteiro zen. Certo dia, o Guardião morreu e foi preciso substituí-lo. O Grande Mestre reuniu todos os discípulos para escolher quem teria a honra de trabalhar a seu lado.

– Vou apresentar-lhes um problema – revelou o Grande Mestre. – Aquele que primeiro vier a resolvê-lo será o novo Guardião do templo.

Terminado o seu brevíssimo discurso, colocou um banquinho no centro da sala. Em cima dele, havia um vaso de porcelana valiosíssimo, com uma rosa vermelha a enfeitá-lo.

– Eis o problema – disse o Grande Mestre.

Perplexos, os discípulos contemplavam os desenhos sofisticados e raros da porcelana, a frescura e a elegância da flor. O que representava aquilo? O que fazer? Qual seria o enigma?

Depois de alguns minutos, um dos discípulos levantou-se, caminhou resolutamente até o vaso e atirou-o no chão, destruindo-o.

– Você é o novo Guardião, afirmou o Grande Mestre ao aluno.

Assim que o discípulo voltou ao seu lugar, o mestre explicou:

– Eu fui bem claro: disse que vocês estavam diante de um problema. Não importa quão belo e fascinante um problema seja. Ele tem de ser eliminado. Um problema é um problema; pode ser um vaso de porcelana muito raro, um lindo amor que já não faz sentido, um caminho que precisa ser abandonado, mas que insistimos em percorrer por nos trazer conforto.”

Infelizmente, a maior parte das pessoas evita destampar el puchero. Afinal, não é fácil nem agradável admitir que não se está utilizando todo o potencial disponível e que, portanto, alguns esforços tendem a produzir resultados pouco expressivos. Muitos se perguntam: o que será que outras pessoas fazem para obter um desempenho superior? Por que não estou feliz com os resultados que obtenho?

Vimos que existe uma maneira nova de lidar com os sentimentos negativos que nos visitam vez ou outra: recebendo-os com gratidão e enfrentando-os sem piedade. Esse é o primeiro e mais valioso passo em direção a tempos melhores.