Pense Grande

Alex Bonifácio · Capítulo 18 de 54

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Pense Grande

O que o grupo dos 5% valoriza na profissão?

Joseph Heller, reconhecido escritor norte-americano, emenda: “Dinheiro é importante, mais do que quase tudo. Quer uma boa ideia? Arranje agora um emprego em uma companhia, com um bom plano de aposentadoria e um bom plano de saúde. Pode ser qualquer cargo, em qualquer companhia. Não faz mal que você deteste o emprego; continue nele até estar velho demais. Eis aí a única maneira de viver, preparando-se para morrer”25.

Nick Vujicic, sobre o qual falaremos adiante, concorda. Para ele, “a essência da vida não é ter, mas ser”.

O QUE O GRUPO DOS 5% VALORIZA NA PROFISSÃO?

“Escolha um trabalho que

você ame e não terá que trabalhar

um único dia em sua vida.”

(Confúcio)

Há muitas vítimas do pensamento coletivo que classificam algumas profissões como certas e outras como erradas, independentemente das aptidões, interesses e talentos de cada um. Ainda bem que participantes do Grupo dos 5% sabem disso e têm consciência de que pagarão o preço por remar contra a correnteza.

Em 1965, Paulo Coelho foi internado em uma clínica psiquiátrica pelo pai ao manifestar seu sonho de ser escritor26. Certamente alguns pensariam: escritor? Pelo amor de Deus, você irá morrer de fome! Os brasileiros não leem, não cometa essa insensatez.

Queriam que Einstein fosse engenheiro ao invés de físico. Era uma profissão mais rentável e estável. Sobre isso ele disse: “(...) a ideia de empregar minha energia criativa em coisas que tornam a vida cotidiana ainda mais refinada, com um pequeno ganho de capital como meta, para mim era insuportável”27.

Quando o “mão santa”, Oscar Schmidt, despertou o interesse pelo basquete, seu pai lhe disse: “Não! Você precisa fazer um concurso para o Banco do Brasil, adquirir estabilidade, ganhar dezesseis salários em um ano, ter direito a aposentadoria; é muito melhor que jogar basquete”.

A mãe de Alexandre Tadeu da Costa tentou tirar de sua cabeça a ideia de, aos dezessete anos, vender chocolates. Ela já havia tentado, sem sucesso, o mesmo empreendimento que o filho viria transformar na maior rede de lojas de chocolates finos do mundo.

Quando o australiano Peter Troy deixou a carreira de contador da PriceWaterHouseCoopers, uma prestigiada organização, por acreditar que poderia viver do surfe, também o chamaram de louco. Graças ao esporte, Peter viajou por mais de 140 países, conheceu culturas e rodou o mundo com a prancha debaixo do braço, vivendo exclusivamente do surfe – e muito bem. A revista Surfer o viu como “o maior aventureiro do surfe em todos os tempos”. Peter mostrou que é possível. No início, entretanto, “para correr atrás do que queria, passava horas na praia pedindo emprestada a prancha de quem, desavisado, passava perto...”28, confessou.

O psicólogo, jornalista e consultor Daniel Goleman, autor no campo da inteligência emocional, menciona um estudo com duzentos pintores, dezoito anos depois de deixarem a escola. As conclusões: “Foram aqueles que, nos tempos de estudante, saboreavam o puro prazer de pintar, que se tornaram verdadeiramente artistas. Os que haviam sido motivados na escola de arte por fantasias de fama e fortuna, em sua maioria, afastaram-se da arte depois de formados”.

Observe o exemplo da pesquisadora da Embrapa, de origem checa, Johanna Döbereiner, que em 1997 recebeu uma indicação ao prêmio Nobel de Química e foi responsável pelo desenvolvimento de uma técnica sobre a fixação biológica do nitrogênio que ajudou a agricultura brasileira a economizar bilhões de reais e a bater recordes de produtividade. Apesar de seu trabalho ter sido responsável por inegável avanço nas técnicas agropecuárias, com grandes repercussões econômicas para o país, Johanna foi mais uma daquelas pessoas que atuaram pelo simples prazer de tocar os projetos que lhe engrandecem como pessoa. “Nunca trabalhei para ficar famosa e milionária”, afirmou a pesquisadora, que viveu toda sua vida do salário da Embrapa29.

“São todos loucos”, diriam os caçadores de recompensas. Afinal, quem em sã consciência interromperia sua própria lua de mel para treinar, como fez o remador inglês Steve Redgrave, que aos 38 anos já havia conquistado cinco medalhas de ouro em Olimpíadas e oito títulos mundiais?30.

É também o caso do advogado carioca Ruy Marra, que abandonou os tribunais para viver como instrutor de asa delta, seu sonho legítimo. “Por que eu não posso levar a minha vida como se fosse um final de semana?”, perguntou-se. E emendou: “Eu tenho momentos muito mais felizes agora, porque sinto que estou guiando muito mais a minha vida do que sendo guiado”, disse em entrevista a uma emissora de TV brasileira.

É fundamental que as escolhas sobre os projetos que desejamos desenvolver se baseiem em nossos verdadeiros talentos e se traduzam em fonte de inspiração e entusiasmo. Caso contrário, haverá tantas outras vítimas da falácia que sugere a recompensa como fonte de reconhecimento, fazendo com que a capacidade de realização seja cada vez mais reduzida.

Quando Robert Quinn estudou nas pessoas “o poder de transformar” e a “capacidade de realizar coisas extraordinárias”, uma de suas conclusões foi que “somente renunciando aos desejos de riqueza e poder é possível crescermos em direção a um novo patamar de desempenho”. São pessoas “que realizam coisas pela simples satisfação de realizá-las”.

Observe o revelador depoimento do autor de novelas Lauro César Muniz e como lidou com a questão da recompensa31:

“Desde muito cedo, ainda criança em Guará, uma cidade do interior de São Paulo, sentia uma nítida e forte atração pelo mundo do espetáculo, através das caravanas de artistas de rádio ou dos circos itinerantes.

No fundo do quintal, imitava os palhaços para os moleques e, depois, usando um terreiro de café como palco, inventava pantomimas para divertir os colonos da fazenda de um tio rico.

Mais tarde, mudando para São Paulo, fui levado ao teatro Santana para ver o Procópio Ferreira, a Dulcina e o Odilon fazendo chover no palco, o Oscarito, hilariante, de papai fanfarrão. Um mundo mágico que estava ali e que, por uma razão misteriosa, parecia ao meu alcance. Ou eu me incluo nele ou nada mais me interessa, proclamei. Nascia em mim uma paixão, uma obsessão, que era a própria razão da minha vida.

Tudo que estava fora de um palco não tinha o menor sentido para mim. Não que eu quisesse estar no lugar dos atores, no foco dos refletores. Ao contrário, queria ficar às escondidas, criando histórias para eles.

Minha cabeça estava povoada por peripécias de situações dramáticas e divertidas que eu precisava colocar diante daqueles refletores. Isso era tão claro para mim, que logo me lancei à tarefa: tomei uma peça editada como modelo, vi como se dispunham no papel as personagens e marcações cênicas e comecei minha primeira comédia.

Cresci fazendo isso, testando meus escritos, primeiro com os bonecos fantoches do João Minhoca, depois com amadores. E as coisas que eu punha no papel se materializavam no palco e me davam respostas, um aprendizado rápido.

Veio o primeiro prêmio do festival de teatro, as portas começavam a se abrir, mas de repente, acaba o tempo das aventuras e chega a idade das definições, de pensar sério na vida. “Teatro não dá camisa”, era o conselho que eu ouvia.

Havia nos classificados dos jornais a seção que chamávamos de “mercado de escravos:” as melhores ofertas de trabalho eram para os engenheiros; na construção do Brasil desenvolvimentista da década de 50, Teatro não dava camisa e diploma dava muito dinheiro.

Deixei minhas aventuras teatrais de lado para entrar na faculdade. Encarei a rigidez da Matemática, da Física, Química, Desenho Geométrico e, para minha desgraça, fui aprovado no vestibular. O teatro cada vez mais maravilhoso, com Cacilda Becker e o elenco do Teatro Brasileiro de Comédia, e eu diante de um curso de concreto armado, topografia, resistência dos materiais, eletricidade, estruturas metálicas... A absoluta incompatibilidade, a inferioridade de um aluno deslocado, a infelicidade chancelada! Cinco anos! O engenheiro formado virara um espectador de teatro, triste, frustrado. A tentativa de me tornar adequado àquele mundo só me violentava: sentia-me um medíocre naquele mundo de vencedores.

À noite ou nos fins de semana, eu mergulhava compulsivamente nas minhas personagens, criava minhas comédias, meus dramas, para, no dia seguinte, durante as oito horas do expediente, me desligar, voar nos meus devaneios para solucionar as cenas que tinham ficado no papel à minha espera...

– Está voando, companheiro? Eu estou falando com você, não está ouvindo? O que há?!

Eu estava cindido, mais que isso, destroçado. Meu mundo real não batia com a realidade! Eu vivia navegando na ficção, enquanto a Engenharia me pedia exatidão. Precisava reencontrar meu mundo ideal, que ficara perdido anos atrás.

A oportunidade de organizar a cabeça surgiu quando soube que seria aberto um curso de dramaturgia na Escola de Arte Dramática. O contato com gente do teatro, com uma cultura humanista, ao contrário da aridez da Engenharia! Testar se meus escritos teatrais tinham algum sentido. Apesar de me sentir um escritor, eu perdera a confiança, precisava saber se eu tinha, de fato, um talento verdadeiro, ou se era apenas mais um diletante...