Pense Grande
O sucesso
“Se você acha que é bom no que faz,
está morto.”
(Michael Hammer)
Há uma máxima vinda da ciência quântica que diz: o desequilíbrio, e não o equilíbrio, é que gera a mudança. Então, uma situação estável e confortante é o cenário ideal para desenvolver o comodismo tão nocivo à capacidade de executar ousados projetos pessoais ou profissionais.
A ciência nos mostra que há bilhões de anos, quando bactérias se depararam com um ambiente repleto de oxigênio, muitas morreram até que algumas conseguissem se “adaptar” ao cenário, dando origem ao que hoje conhecemos como “respiração”. Se não houvesse esse desequilíbrio gerado pela presença excessiva de oxigênio, provavelmente as formas de vida no planeta, se existissem, seriam bastante diferentes das que conhecemos.
Como afirmarmos, embora pareça uma proposta um tanto inusitada, a ciência sugere que se deve valorizar o desequilíbrio e não o equilíbrio, a instabilidade e não a estabilidade.
O sociólogo italiano Domenico de Masi menciona que os países com maior produção criativa foram justamente aqueles que conviveram historicamente com muitas invasões e instabilidades políticas em sua história. Vimos algo parecido quando falávamos em destampar el puchero.
Ao alcançar os seus objetivos, uma pessoa tende a adentrar num momento que se mostra ao mesmo tempo prazeroso e perigoso, próprio do sentimento de dever cumprido, conduzindo ao imobilismo que discutimos anteriormente. As pessoas ainda não atentaram para o perigo que o sucesso, quando atingido, pode trazer consigo, tendo em vista a comodidade e a soberba que o acompanham. O sucesso obtido pode levar à entropia.
Uma das poucas empresas brasileiras de que tenho notícias, que realmente avaliaram os perigos derivados do sucesso, é o Magazine Luiza, uma das mais fortes redes varejistas do país. Ainda em 1992, após atingir uma ousada meta em vendas, a partir do lançamento de um conceito pioneiro de comércio eletrônico, a equipe liderada por Luiza Helena pôde avaliar que o mesmo sucesso que entorpece pode contribuir para o declínio. Para evitar isso, adotaram uma postura semelhante à dos jogadores de futebol, “baixaram a bola” e colocaram os pés no chão para evitar esses perigos. A Revista Exame elegeu o Magazine Luiza como a melhor empresa para se trabalhar naquele ano. Em 2011, o Great Place to Work Institute (GPTW) a escolheu como a sexta melhor empresa para se trabalhar no Brasil.
Portanto, ao atingir o pico da montanha, concretizando os sonhados objetivos e projetos, é preciso ter cuidado para não se render aos encantos da conquista e não se deixar seduzir pela inebriante vontade de relaxar e aproveitar o momento. É preciso localizar o próximo pico a escalar e seguir em frente.
Relaxar e curtir o sucesso pode não ser uma boa ideia.
O navegador brasileiro Amyr Klink afirma que todos os acidentes sérios que sofreu, sem exceção, aconteceram em momentos de calmaria. O sucesso simboliza justamente isso, a aparente calmaria que sucede a luta. O fato de nos sentirmos inquietos e inconformados, como já observado, é uma excelente maneira de reunirmos nossas melhores forças para ir além e prosseguir em outras conquistas, outros desafios. Isso confirma o entendimento, segundo o qual, a ansiedade e a incerteza são elementos necessários ao crescimento.
Ao analisar equipes de altíssimo desempenho, Warren Bennis concluiu que, mesmo quando esses grupos não têm inimigos, eles criam um. “Não importa se o inimigo existe na natureza ou se é fabricado, ele serve à mesma proposta.” Ele cita, ainda, as pesquisas realizadas pela psicóloga social Teresa M. Amabile, confirmando que “a competição com alguém de fora aparentemente impulsiona a criatividade”.
Edward Adrian Wilson, considerado o “alicerce” da expedição polar do inglês Robert Falcon Scott, em 1911, demonstrou sua preocupação quanto aos perigos que o habitual conforto poderia lhe trazer: “Estou ficando cada vez mais preguiçoso e dependente de confortos e detesto isso. Quero suportar condições difíceis e, em vez disso, aprecio jantares em hotéis e prefiro água quente à fria, e assim por diante – todos são maus sinais, e algo deve ser feito para evitá-los”97.
O técnico da seleção brasileira de voleibol, Bernardinho, a todo momento manifesta sua preocupação quanto aos efeitos nocivos do sucesso que, no caso dele e de suas equipes, são frequentes. Segundo ele, “o sucesso sempre traz consigo o risco de a vaidade se exacerbar e o ego se hipertrofiar, fazendo desaparecer a condição que fez do atleta um vencedor”. Para combater esses efeitos colaterais, ele procurava tirar os jogadores das zonas de conforto “para evitar que achassem que todas as suas metas já tivessem atingidas”. Ele cita o caso do famoso treinador John R. Wooden, que chegava a desejar muitas vitórias aos seus desafetos, para que se afogassem no próprio sucesso.
David Remnick, ao descrever a vida do lutador Muhammad Ali, nos mostra isso com clareza. Ali observava um de seus mais esperados adversários, Sonny Liston. Enquanto Sonny já havia se consagrado como campeão mundial, Muhammad Ali, com apenas 22 anos, era considerado apenas mais um desafiante “morto de medo”.
Enquanto Ali treinava “com mais afinco do que nunca” e estudava os filmes das lutas de seu adversário, “Liston vivia mergulhado até o pescoço no ritual luxuoso e sedentário dos campeões”. Ali sabia dos efeitos nocivos que acompanham aqueles que atingiram o topo. “Eu quase batia palmas cada vez que lia ou ouvia falar em alguma festa ou cerimônia importante, na qual ele passava metade da noite acordado, bebendo e farreando”, disse.
Ao tempo que Muhammad Ali buscava se aperfeiçoar a todo o tempo, seu adversário e campeão era visto comendo cachorro-quente, tomando cerveja, uísque e saindo com prostitutas. Começou a se dedicar aos treinos, mesmo de forma superficial, somente um mês antes da disputa. Liston acreditava que seria uma luta rápida e que iria matar (no sentido real da palavra) seu adversário nos primeiros minutos do embate. “Para que se esforçar tanto?”, pensava o campeão, afinal, ele jamais havia sido nocauteado.
Sonny Liston era o franco favorito, 93% dos jornalistas consultados atestavam essa preferência. Era inimaginável que pudesse perder. As pessoas se preocupavam, inclusive, com o fato de que Ali pudesse se machucar seriamente a ponto de aquela se tornar sua última luta. Até mesmo Ferdie Pacheco, médico que fazia parte de sua própria equipe, estava preocupado com os estragos que o garoto poderia sofrer e esquematizou as melhores rotas para os hospitais, verificou quais médicos estariam de plantão, a qualidade do atendimento de emergência e o hospital no qual o desafiante deveria receber os primeiros socorros.