Pense Grande
Explorador e herói dos mares
O premiado jogador de hóquei, Wayne Gretzky, está certo ao dizer que “você erra 100% dos chutes que não dá”81.
Para a cantora Adriana Calcanhoto, o processo criativo envolve não apenas talento, mas uma boa dose de esforço também. Ela costuma afirmar que suas músicas são compostas mais com transpiração do que com inspiração.
O líder do projeto do veículo Honda City, Hiroo Watanabe, vivia dizendo “vamos apostar”82, para incitar o espírito experimentalista dos membros de sua equipe.
Entre tantos exemplos que vemos a todo momento sobre pessoas que realizaram feitos grandiosos, podemos concluir que, na verdade, não há pessoas de sucesso e pessoas que fracassam. Há simplesmente as que desistem e as que persistem. Para os membros do Grupo dos 5% desistir não é uma opção.
EXPLORADOR E HERÓI DOS MARES
Um episódio interessante, que pode ser extraído da vasta bibliografia sobre expedições polares, é o do inglês Ernest Henry Shackleton, narrado por Alexander Caroline, a respeito de sua expedição à Antártida.
Alguns poderiam dizer que Ernest foi um homem que nasceu para fracassar, e que jamais deveria ter deixado de seguir os passos do pai e abandonar a profissão de médico. Tentou, sem sucesso, ser jornalista, negociante e até político, quando então, atendeu ao irresistível chamado do seu coração e optou por “uma vida anormal e arriscada” como aprendiz em um navio mercante. Afinal, o mar era sua vida.
No início do século passado, por duas vezes havia tentado, em vão, investir em expedições polares. Em uma de suas tentativas, chegou a cento e cinquenta quilômetros da latitude 90º – o Polo Sul –, ponto em que nenhum ser humano jamais esteve, mas foi forçado a retornar. Preferiu não colocar a vida de seus homens em risco, pois estavam extremamente cansados e sem provisões suficientes.
Aos quarenta anos de idade, ainda aficionado por expedições polares e derrotado em suas tentativas de conquistar o Polo Norte e o Polo Sul, Shackleton empreendeu o que poderia ser a sua última e mais ambiciosa jornada em busca de um feito jamais realizado pelo homem: a travessia, a pé, do continente antártico. Mal sabia ele que aquela expedição seria um fracasso ainda maior que todas as outras, mas foi justamente em função desse fracasso que seu nome ficou conhecido e respeitado por todos os homens do mar, em qualquer nação do planeta.
Deixando para trás a guerra e muitas dívidas contraídas em função do seu projeto, partiu da Inglaterra, em agosto de 1914, para o que seria seu maior teste de sobrevivência, sob as mais adversas condições climáticas.
Em janeiro de 1915, a apenas um dia do destino final, seu navio, o Endurance, foi cercado por blocos de gelo e impedido de prosseguir. Após nove meses ilhada, esperando por melhorias nas condições climáticas, a embarcação sofreu graves avarias causadas pelos blocos de gelo em seu casco e acabou sendo totalmente destruída, afundando no mar gelado. Era isso, a promissora expedição polar transformara-se numa das mais difíceis odisseias, cujo objetivo maior era manter vivos os quase trinta homens abandonados no Polo Sul, com apenas três barcos e limitadas provisões de alimento.
Arrastar os barcos por cerca de cem quilômetros em busca de mar aberto mostrou ser – após uma semana de pesados esforços e tendo percorrido somente doze quilômetros – uma alternativa inviável. Era preferível aguardar pelo surgimento de aberturas no gelo (espera que consumiu outros seis meses), para rumar em seus barcos, abertos pelo Atlântico Sul, até o ponto de
terra firme mais próximo – a Ilha 5 Elephant – atingido sete dias depois.
A ideia era bastante ousada: a partir da ilha Elephant, montar um acampamento onde ficaria a maior parte dos homens, enquanto ele e outros cinco tripulantes iriam remar de barco até a ilha da Geórgia do Sul para buscar socorro, um percurso de mais de mil quilômetros, atravessando “o mais temível trecho de oceano do planeta, em pleno inverno”, onde “iriam encontrar ventos de 130 quilômetros por hora e ondas imensas – os notórios vargalhões do cabo Horn – medindo até vinte metros da base à crista; e se tivessem pouca sorte, encontrariam coisa ainda pior. Teriam de achar seu curso até aquela pequena ilha, sem que houvesse nenhum ponto de terra em seu caminho, usando apenas um sextante e um cronômetro – sob céus sempre encobertos, que podiam não permitir a observação dos astros para orientar sua navegação. Aquele empreendimento não era apenas difícil, como todos os marinheiros do grupo sabiam muito bem, era totalmente impossível”.
Seis homens encharcados, com queimaduras de frio, assaduras provocadas pelas roupas molhadas, sem serem tiradas por vários meses, repletos de bolhas produzidas pelas águas salgadas, com ele partiram para a que seria considerada “uma das maiores jornadas por mar jamais realizadas”.
Por mais inverossímil que pareça, conseguiram. Chegando àquela ilha, foi preciso contorná-la por terra até uma estação baleeira, onde poderiam encontrar socorro. Visando poupar os homens do perigo dessa última travessia, três deles ficaram acampados, enquanto ele – Shackleton – e outros dois tentaram vencer os trinta quilômetros por terra, numa região considerada inacessível – ninguém jamais havia vencido um só quilômetro daquele percurso final.
Trinta e seis horas de caminhada, sem descanso, foram necessárias para que os três homens encontrassem os primeiros seres humanos de fora do grupo da expedição, após transcorridos dezoito meses. No dia seguinte, os outros três homens que acompanharam Schackleton em mar aberto foram resgatados e estavam bem.
Restava, agora, conseguir uma embarcação suficientemente forte para salvar os mais de vinte homens que permaneceram na Ilha Elephant. Eles aguardavam há mais de 22 meses longe da civilização. A primeira tentativa deu-se a bordo do navio baleeiro Southern Sky, que não era resistente o bastante para a tarefa. A 140 quilômetros da ilha, encontrou gelo e precisou retornar.
A segunda tentativa de resgatar seus homens ocorreu um mês e meio após a primeira, pois Shackleton teve dificuldades em encontrar um navio suficientemente robusto para a missão. Chegando a 150 quilômetros da ilha, o gelo e o mau tempo, mais uma vez, obrigaram-no a retornar.
Cerca de um mês depois da segunda tentativa, enfim, os demais tripulantes do Endurance foram resgatados. Todos vivos.
A prova de coragem e obstinação que perseguia Shackleton não seria encontrada na travessia a pé, pelo Polo Sul, mas sim, na inacreditável luta para manter todos os seus homens vivos. Graças a sua atitude firme em não desistir diante dos obstáculos, é reconhecido até hoje, por todos os homens do mar, como o grande herói que dividiu a história marítima.
Eunice Soriano de Alencar, professora de criatividade, ensina que “a mudança envolve incerteza, e com a incerteza vem a ansiedade. Ela envolve o risco de que as coisas não ocorram como o esperado, e isso pode significar o fracasso. O fracasso é algo ameaçador que se busca evitar a todo custo. Nota-se que mesmo quando intencionalmente a pessoa seja a favor da inovação e das mudanças que se fazem necessárias no trabalho, emocionalmente ela tende, muitas vezes, a resistir”.
O médico Drauzio Varella confirma: “A diferença entre os que conseguem executar bem o que planejam e os que não o fazem não está no terreno das ideias; ambos podem ter ideias maravilhosas. A diferença é que aquele que obtém sucesso não desiste da empreitada no meio do caminho, persiste nela, mesmo quando os que estão em volta desanimaram”.