Pense Grande
O grupo dos 5%, dinheiro e felicidade
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico Kau-Kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou.. até confundir-se com o azul do firmamento.”
O pesquisador Geoffrey Ballard passou anos convivendo com as chacotas de seus colegas ao pretender desenvolver a célula combustível cujo resíduo é água, e que agora é usada para movimentar motores em todo o mundo. Ele era “ridicularizado como maluco em círculos científicos”21.
Albert Einstein não submeteu o seu artigo mais revolucionário para obter o doutorado, e sim um de menor repercussão. Ele sabia que precisava de uma abordagem mais conservadora para não atentar frontalmente contra a ordem vigente e o conservadorismo dos acadêmicos que poderiam condenar suas ideias mais ousadas.
Se essas pessoas priorizassem a aceitação coletiva em detrimento de seus próprios projetos, provavelmente nenhuma delas teria atingido seus objetivos e realizado seus sonhos. Seriam águias vivendo entre galinhas. No entanto, os “nãos” recebidos durante o trajeto, a censura e o descrédito não inviabilizaram seus projetos, pois isso é parte natural do processo.
O GRUPO DOS 5%, DINHEIRO E FELICIDADE
“Não escolha uma profissão que não dê dinheiro”. Quantas vezes, ao longo da vida, ouvimos esse tipo de conselho? Muitos pais repetem isso aos filhos, como um mantra sagrado: “Trabalho bom é aquele que paga bem e oferece estabilidade. Essa é a fórmula para uma vida profissional feliz e bem-sucedida”.
Não é o que indicam as pesquisas que relacionam dinheiro e felicidade. Na verdade, uma delas, feita pelo Ibope/Mídia em 2006, mostra que a proporcionalidade entre dinheiro e felicidade é uma grande falácia. O instituto verificou que 41% das pessoas que ganham até R$ 379,00 se declararam felizes, enquanto entre aqueles que têm renda superior a R$ 4.500,00, o índice caiu para 25%.
O empresário americano Walter Melon parece estar certo ao afirmar que “se você toma uma decisão apenas baseada em dinheiro, você tomou uma má decisão”22.
Na verdade, esses caçadores, ao pautarem suas ações visando algumas recompensas extrínsecas, deixam de acessar algumas importantes estratégias de ação. E quando alguém escolhe uma estratégia equivocada a perseguir, quanto mais eficiente for em direção a ela, mais distante estará do melhor caminho.
É verdade que não é possível ser feliz passando fome. Entretanto, o atendimento às necessidades mais básicas é condição suficiente para restaurar as capacidades humanas que podem levar a resultados significativos. Observamos que a necessidade interminável de dinheiro parece indicar, na verdade, a tentativa de suprir algum tipo de vácuo existencial daqueles que evitaram destampar el puchero.
O economista Eduardo Giannetti da Fonseca, autor de um livro que diz por que o progresso e a melhoria das condições de vida não tornam as pessoas mais felizes, quando perguntado sobre se o dinheiro traz felicidade, respondeu que apenas até certo ponto. Segundo ele, a partir desse ponto, a melhoria das condições objetivas de vida deixa de trazer mais felicidade.
Algumas outras pesquisas indicaram que “nem a sorte grande nem um golpe do destino conseguem alterar a nossa felicidade por muito tempo”. Elas foram divulgadas por um programa de TV brasileiro, que tratou de um tema cada vez mais intrigante para os cientistas: a felicidade. Nele, foram mostrados depoimentos que revelaram, de um modo geral, que o estado de espírito das pessoas não se modifica definitivamente, mesmo ganhando na loteria ou sofrendo um revés indesejável.
É o caso de dona Delma Felipe, faxineira e moradora da Baixada Fluminense, uma das regiões mais carentes do Rio de Janeiro, que do alto dos seus sessenta anos e com dinheiro contado esbanja um contagiante e constante estado de felicidade.
Mostra também a história da psicóloga Mara Gabrilli, que ficou tetraplégica aos 27 anos em função de um acidente de automóvel e, mesmo depois da fatalidade, continua distribuindo felicidade. Fundou uma ONG que arrecada dinheiro para pesquisas médicas e foi a primeira tetraplégica do país a posar para uma revista masculina. Ela ensina: “Eu não espero nada acontecer para ser feliz”.
O mesmo pode ser dito do iatista e medalhista olímpico Lars Grael, que após perder a perna num acidente que alterou drasticamente sua vida, disse em entrevista: “Sou um homem de muita sorte”.
Exemplo semelhante é o de Iranildo Conceição Batista. Aos 26 anos, um mergulho mal feito tirou-lhe todos os movimentos do corpo e o condenou a viver o resto da vida sobre uma cama. Obstinado a recuperar seus movimentos, dedicou-se bastante às sessões de fisioterapia. Lentamente os resultados foram surgindo. Logo começou a praticar tênis de mesa. Quatro anos depois, foi quatro vezes campeão brasileiro, três vezes campeão sul-americano e bicampeão pan-americano nessa modalidade. Três terceiros lugares em campeonatos mundiais. “Atualmente, sou o primeiro lugar no ranking brasileiro, o primeiro no das Américas e o 16º no mundial”, disse orgulhoso, em entrevista a um jornal.
O escritor Odir Cunha estudou o assunto e confirmou o entendimento de que o dinheiro não assegura a felicidade. Ele menciona que um programa de TV nos Estados Unidos ouviu uma série de pessoas que eram pobres antes de ficarem milionárias com prêmios lotéricos. A maioria delas disse que não se sentia mais feliz depois do prêmio. Ele afirma que uma experiência repetida no Brasil trouxe um resultado semelhante: “Uma das entrevistadas brasileiras, bem velhinha, que morava numa fazenda com o filho caçula e solteirão, parecia até saudosa dos tempos em que as únicas preocupações eram ter saúde e comida na mesa e o dinheiro ainda não concorrera para a discórdia entre os irmãos”.
O artista musical Dennis Augustine confessou que o poder financeiro não conseguiu lhe trazer a paz que esperava alcançar: “Pelos padrões norte-americanos, eu era um tremendo sucesso. Olhava em volta, e via dois belos Mercedes, uma casa elegante, uma renda líquida de milhões; no entanto, nunca, em toda a vida, me senti tão inseguro e cheio de dúvidas”23.
Outra rede internacional de TV produziu um documentário que apresenta o estilo de vida dos milionários do Vale do Silício (reproduzido pela GNT, que mostra histórias de empresários americanos que sofrem da Síndrome de Riqueza Repentina), nos Estados Unidos. O trabalho revela que boa parte deles necessitou buscar ajuda psicológica em terapias, após se tornar milionários, fenômeno batizado de efeito Influenza.
Muitas pessoas alimentam crenças de que, quando desfrutarem de uma boa condição econômica, seus problemas estarão solucionados. Esse é um grande equívoco. As pessoas que agem assim estão, na verdade, perdendo tempo valioso. O mundialmente conhecido tenista norte-americano Andre Agassi diz: “É uma coisa que sempre escutamos – como aquele velho adágio de que dinheiro não compra felicidade –, mas nunca acreditamos nela até que a vemos nós mesmos”.
Flávia Pacheco pesquisou a personalidade de cinquenta brasileiros reconhecidamente bem-sucedidos. Ela afirma que “nenhum dos líderes entrevistados mencionou dinheiro como principal motivador da sua carreira. Ao serem questionados sobre a sua própria definição de sucesso, nenhum deles considerou o fato de ter muito dinheiro como um fator indicativo de sucesso”.
Steve Jobs, criador da Apple, enfatizava que “nunca se deve abrir uma empresa com o objetivo de ficar rico. O objetivo deve ser o de fazer algo em que se acredita e fazer uma empresa que dure”. Ele “não deixava que a gana de lucrar passasse na frente da paixão de desenvolver grandes produtos” e prometeu a si mesmo que o dinheiro não estragaria a sua vida. Para ele, a recompensa era a viagem e o lucro seria a consequência de um trabalho memorável24.