Pense Grande
O surgimento de um novo eu
Segundo o estadista, primeiro-ministro inglês e prêmio Nobel de literatura, Winston Churchill, “há um momento especial que acontece na vida de toda pessoa, o momento para o qual ela nasceu. Quando aproveitada, essa oportunidade extraordinária faz com que a pessoa cumpra sua missão – uma missão para a qual somente ela tem as qualificações necessárias. Nesse momento, a pessoa encontra a grandeza. Esse é o seu mais maravilhoso instante”6.
Foi em um desses momentos que Rubem Alves tomou a decisão que mudaria sua vida. Ao invés de escrever artigos científicos para os colegas que o desprezavam intelectualmente, optou por escrever “artigos que as pessoas comuns entendam”7. Surgia nesse momento o renomado escritor e educador que viria a se tornar.
Esse é o momento de destampar el puchero. Mas, para vivenciá-lo, é preciso visitar a escuridão da consciência e de lá sair vencedor. E essa não é uma tarefa trivial.
O SURGIMENTO DE UM NOVO EU
Todos vivenciamos momentos de conflitos internos. E isso se dá por meio dos sentimentos. As emoções negativas podem significar o seu verdadeiro eu tentando lhe dizer algo. Pode ser a falta de significado em relação às atividades que desempenha. Pode ser a angústia por não se dedicar àquilo que de fato lhe traz entusiasmo. Pode também ser o sentimento de ausência de sentido, incurável pela terapia do consumismo. São momentos de crise, de escuridão, de “morte”.
E, no caso de pessoas de alto desempenho, para as quais “a vida sorriu”, aquelas mesmas que atingiram potencial tão elevado que foram capazes de realizar feitos impressionantes, como essas pessoas lidam com essa “perturbação interna”, com esse “momento do caos”, com o tormento que as fazem reconectar-se à sua fonte de energia e motivação?
Elas simplesmente procuram enfrentar essas ardentes inquietações. Não é tão simples prestar atenção a esses sentimentos e observar a origem das emoções negativas que nos visitam. É um ato de sacrifício. Equivale a morrer e renascer. Refere-se a uma jornada de introspecção, luta e retorno.
Para os mais atentos, essa batalha permite o emergir de um novo Eu, mais evoluído, sob menor influência das amarras que limitam os movimentos e do medo que distancia o indivíduo da sua principal fonte de motivação e criatividade.
Esse processo possibilita a reconexão do homem a sua energia interior, aquela detectada por Jung, que “abrange todas as possibilidades da vida, as energias, as potencialidades – tudo que o indivíduo é capaz de vir a ser”8, que a denominou de self, uma entidade, concentrada nas profundezas da mente inconsciente, que estimula as aptidões e instintos individuais.
Quando aceitamos o desafio e enfrentamos esses sentimentos de impotência e passividade, abrimos a possibilidade de nadar nesse fenomenal mar de possibilidades conhecido pelo Grupo dos 5%, antes inacessível por influência de fatores como insegurança e medo. Com isso, os momentos de escuridão que experimentamos ao longo da vida podem ter um novo significado. Crise, expressão demonizada por tantos outros, passa a constituir uma etapa no processo de emersão para uma nova realidade.
Esse processo introspectivo, que pode gerar significativa mudança, ocorre somente quando passamos a prestar mais atenção àquilo que nos incomoda de fato. Esse sentimento, associado aos nossos desejos e talentos, é capaz de desencadear um magnífico processo de rejuvenescimento de atitudes.
Como conclui o mundialmente conhecido estudioso do campo da Mitologia, Joseph Campbell: “Você não precisa morrer literalmente, fisicamente. Tudo o que tem a fazer é morrer espiritualmente e renascer para um modo de vida mais aberto”.
Portanto, morte, escuridão, abismo, ao contrário do sentido literal com conotação negativa, simbolizam o caminho para o acesso à vida, à luz e à superfície.
Jung também utilizou o termo “sombra” para descrever a região do inconsciente profundo que “guarda dentro de você enormes potencialidades não realizadas”, justamente a “sua parte que você não sabe que existe”9.
Campbell observa, por exemplo, que quando os muçulmanos adotam uma perspectiva positiva quanto à morte, não se referem à morte física como, equivocadamente, alguns costumar crer. Eles cultivam o dito do Anjo da Morte por seus ensinamentos: “Quando se aproxima, o Anjo da Morte é terrível. Quando alcança você, é uma bem-aventurança”. Observa que a morte de Osíris foi simbolicamente associada à cheia e ao transbordamento anuais do Nilo, que periodicamente propiciava a fertilização do solo do Egito. Foi como se a decomposição do corpo de Osíris fertilizasse e vitalizasse a terra. Como ele concluiu, “uma coisa que revela os mitos é que, no fundo do abismo, desponta a voz da salvação”.
O teólogo Huberto Rohden esclarece que o conceito de salvação é “um termo teológico que, em terminologia filosófica, se chama autorrealização. O homem se salva, ou se autorrealiza, pela passagem através do mundo material”. A concepção metafórica da morte, presente na mitologia, encontra guarida na teologia, conforme ele próprio atesta: “Quem não morreu espontaneamente antes de ser morto compulsoriamente, perde o seu tempo. Disto sabiam e sabem os grandes mestres da vida”.
Também os experimentos científicos da Nova Ciência, ou Ciência Quântica, revelam que todo sistema sofre uma perda gradual de energia que o leva a dissipação. Ilya Prigogine, premiado químico russo, utiliza a expressão “estruturas dissipativas” para traduzir esse fenômeno. Curiosamente, Prigogine observou que essa dissipação sofrida pelos sistemas não provocava sua morte. Ao contrário, verificou que o sistema abandonava sua antiga forma e assumia outra, nova, reorganizada para atender às exigências do novo ambiente.
As conclusões foram impressionantes: “Sempre que o ambiente oferece informações novas e diferentes, o sistema escolhe se aceita essa provocação e reage a ela ou não. Essa nova informação pode ser ligeiramente diferente da norma. Mas o sistema lhe dá atenção, incorpora-a e, estando no interior dessa rede, a informação se intensifica e se altera. Se a informação se transformar num distúrbio de tal magnitude que o sistema já não possa ignorá-la, há por certo uma mudança real no horizonte. Nesse momento, acossado por tantas perturbações internas e longe do equilíbrio, o sistema se desintegra. Em sua forma corrente, ele não tem condições de lidar com o distúrbio, então ele se dissolve. Mas essa desintegração não significa a sua morte. Se puder manter a própria identidade, um sistema vivo pode reconfigurar-se num nível superior de complexidade, numa nova forma de si mesmo que consegue lidar melhor com o presente”, conclui Margaret Wheatley, uma atenta observadora sobre o assunto.
Não estaria aí, agora cientificamente tratado, o mitológico conceito de morte e vida? E o que representa esse distúrbio sobre o qual falam os cientistas, o mesmo que propicia o surgimento de um novo sistema, reconfigurado e capaz de “lidar melhor com o presente”? Os experimentos científicos indicaram que a desordem possibilita o surgimento de uma nova ordem, e que esse desequilíbrio interno propicia o desenvolvimento de um novo sistema, revitalizado, ao invés da sua extinção. O paradoxo está no fato de que, justamente no conflito interno, nos momentos sombrios que muitos evitam, é que reside a oportunidade de transformação.
Ainda segundo Margaret Wheatley, a teoria do caos identificou um fenômeno que foi denominado de atrator estranho: “Define-se um sistema como caótico quando se torna impossível saber o que ele fará no momento seguinte. O sistema nunca se comporta da mesma maneira duas vezes. Porém, como demonstra a teoria do caos, se observarmos um sistema caótico ao longo do tempo, ele demonstra um estado de ordem inerente. Suas oscilações incontroláveis se mantêm no âmbito de uma fronteira invisível. O sistema contém ordem em seu próprio interior, e revela esse autorretrato como um belo padrão, seu atrator estranho”. Ela conclui: “É a grande energia destrutiva do caos que dissolve o passado e nos concede a dádiva de um futuro diferente; ela nos liberta dos padrões aprisionantes do passado oferecendo-nos um mergulho arrebatado no que é novo. Somente o caos cria o abismo no qual podemos recriar a nós mesmos”.