Política Externa como Ação Afirmativa: o Governo Lula na África
Anexo III – Discurso de posse do senador Abdias Nascimento no Senado Federal
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Mundo". No 6o. Encontro Nacional, em 18/6/1989, aprovou-se o
documento contendo "As bases de ação do Programa de
Governo", com um capítulo exclusivo sobre "Negros", em que
se compromete "apoio às lutas dos povos oprimidos da África,
dos negros da Diáspora e o repúdio aos países que tenham
institucionalizado qualquer tipo de discriminação; e reorientação
das prioridades da política externa em relação ao continente
africano". Em certa medida, pode-se identificar, no Programa de
1989, o embrião da vinculação entre luta contra o racismo e
política externa para a África que se observa de modo mais
evidente no Pograma da Coligação Lula Presidente, em 2002.
Vide Anexo I, que traz os principais documentos do PT que
fazem referência à África ou a temas africanos.
↩
246. De documento intitulado “Socialismo“, aprovado por ocasião do
I Congresso Nacional do PT, em 1/12/1991, consta, no
parágrafo 53, a propósito de "um novo internacionalismo", que o
PT, "que vem desenvolvendo um esforço de articulação dos
partidos de esquerda no Continente – com os Encontros de São
Paulo e da Cidade do México – deve prosseguir com estas
iniciativas, abrindo um novo espaço de articulação partidária e
sindical no Cone Sul. (...) O PT reafirma sua solidariedade ativa
à luta emancipatória e revolucionária dos povos dos países
pobres do Sul, em especial à revolução na Nicarágua, cuja
evolução acompanhamos com interesse. A Revolução Cubana
tem, para nós, um significado particular, pela defesa da
soberania nacional, pelo antiimperialismo e pelas conquistas
sociais por ela estabelecidas. (...) Cabe, também, fortalecer
organizativa e politicamente a Coordenação Sindical Latino-
Americana (...) Como força política capaz de governar o Brasil,
a política internacional do PT, pautada pelo novo
internacionalismo, deve estreitar o diálogo com os partidos de
esquerda, socialistas e democráticos, especialmente com
aqueles programaticamente mais próximos da nossa
concepção de socialismo. Nossa política internacional deve ser
ampla, plural, solidária e capaz de costurar uma rede de
alianças que amplie nossa capacidade efetiva de transformar a
sociedade brasileira".
↩
247. No domínio econômico, a América Latina e a África
desenvolveram um diálogo relevante sobre a teoria da
dependência, valendo-se, para tanto, dos debates produzidos
no âmbito da Cepal e da Comissão Econômica para a África.
Dois expoentes desse debate entre latino-americanos e
africanos foram Fernando Henrique Cardoso e Samir Amin.
↩
248. As relações entre o PT e a Cosatu seriam a exceção ao
distanciameanto entre o PT e a África nos anos 80 e início dos
anos 90.
↩
249. Marco Aurélio Garcia, entrevista concedida em 20/3/2006.
↩
250. O Senador Cristóvam Buarque (ex-PT-DF) é um desses nomes,
tendo realizado inúmeras viagens à África e desenvolvendo
relações estreitas, por exemplo, com Julius Nyerere, ex-
Presidente da Tanzânia. Como Ministro da Educação do
Governo Lula, de janeiro de 2003 a janeiro de 2004, Buarque
realizou mais viagens à África, sempre com o objetivo de
discutir programas de cooperação na área de Educação, em
particular o programa "Bolsa Escola", implantado inicialmente
quando era Governador do DF.
↩
251. O Governo brasileiro, por intermédio do Itamaraty, fez os
convites para a viagem de ambos ao Brasil e participou da
organização das visitas, que, segundo Dowbor, foram, de fato,
idealizadas e objetivamente organizadas pelo PT, pelo PDT e
pelo Movimento Negro, sobretudo nas escalas além do Distrito
Federal. Dowbor, entrevista concedida em 23/3/2006.
↩
252. Na entrevista de 23/3/2006, Dowbor recordou ter sido
responsável, por exemplo, pela organização, em São Paulo, da
visita de Nelson Mandela àquela cidade em agosto de 1991,
pouco depois do líder do CNA ter sido libertado da prisão. À
época, Dowbor era Secretário de Negócios Extraordinários da
Prefeirura de São Paulo, respondendo em particular pelas
áreas de meio ambiente e relações internacionais. Também
recordou a preparação de agendas de visitas para autoridades
africanas na área de gestão pública.
↩
253. Dowbor, entrevista de 23/3/2006.
↩
254. Em dezembro de 1997, por ocasião do congresso que o CNA
realizou em Mafikeng, na África do Sul, foram enviados convites
para o PSDB, partido no Governo, e para o PT. Apenas o PT
compareceu, enviando, como delegado, o Deputado Luis
Alberto (PT-BA).
↩
255. Garcia, entrevista de 20/3/2006.
↩
256. Idem.
↩
257. Talvez o exemplo mais marcante seja ainda o do Senador
Cristovam Buarque. Paulo Freire e Cristovam Buarque, ambos
da área de Educação, são algumas das personalidades
políticas brasileiras mais reconhecidas na África por suas
respectivas gerações de interlocutores.
↩
258. A percepção das semelhanças orientou também a agenda
diplomática do Governo Fernando Henrique Cardoso, que,
desde 1994, quando assumiu o Governo de maioria negra na
África do Sul, propôs o lançamento de um vasto leque de
iniciativas de cooperação e diálogo político com o Governo sul-
africano, conforme atestam os 8 atos internacionais celebrados
com a África do Sul no período 1994-2002.
↩
259. Além de uma vasta bibliografia sobre o tema, na qual se
encontram, por exemplo, as obras e textos de Michael
Hanchard "Orfeu e Poder. Movimento Negro no Rio e São
Paulo, 2001; de João Batista de Jesus Felix Pequeno histórico
do movimento negro contemporâneo", In: SCHWARTZ, L.;
REIS, L. (Orgs.) Negras imagens..., 1996, p. 211-16; e NASCI-
MENTO, A.; NASCIMENTO, E. "Reflexões sobre o Movimento
Negro no Brasil, 1938- 1997", In: GUIMARÃES, A. S.;
HUNTLEY, L. (Orgs.) Tirando a máscara.., 2000, p. 203-36,
assinale-se que, em 2004, o CPDOC-FGV iniciou um projeto
intitulado "História do Movimento Negro no Brasil: constituição
de acervo de entrevistas de história oral" que, por meio de
"entrevistas gravadas com lideranças desse movimento, em
diferentes estados do Brasil, tem por objetivo constituir um
registro de sua história e trazer ao debate sobre a questão
racial no Brasil a contribuição daqueles que optaram por atuar
primordialmente nessa esfera" (ALBERTI, 2005).
↩
260. Além dos vários núcleos de pesquisadores negros, que
funcionam em diversas universidades brasileiras, registre-se
também a existência da Associação Brasileira de
Pesquisadores Negros, cujo primeiro Congresso realizou-se em
2000, em Recife. Em seus documentos constitutivos, consta
que a ABPN "é resultado da trajetória histórica traçada pelos
pesquisadores negros no Brasil, nos diversos espaços
institucionais de pesquisa e nos Movimentos Negros de forma
geral" e tem como objetivos consolidar e ampliar as atividades
de pesquisa e intercâmbio em torno das temáticas étnico-
raciais. A ABPN realizou seu 4 o Congresso Nacional em
setembro de 2006, na cidade de Salvador, Bahia.
↩
261. Cunha Jr. (2005, p. 2) recorda que, antes de 1995, o campo dos
direitos humanos era operado, no Brasil, sem levar em conta as
especificidades da população negra. Os direitos humanos
tinham caráter universalista, pessoal e individual. Os grupos
sociais não eram considerados como identidades coletivas e
como grupos históricos na sociedade. Mais recentemente, a
ideia de diversidade cultural foi incorporada à ideia de respeito
aos direitos humanos e inspirou, nos planos nacional e
internacional, um código ético-moral de respeito a diferenças
culturais, portanto de respeito à diversidade. Na opinião do
autor, "os direitos humanos tiveram seus aspectos individuais
ampliados para aspectos coletivos, sem, contudo, ter
incorporado os direitos socioeconômicos históricos de maneira
ampla e capazes de dar resposta à situação da população
negra no Brasil. As desigualdades sociais estruturais não são
trabalhadas pelos direitos humanos na sua profundidade".
Ainda segundo o autor, a Seppir é instituída segundo essa nova
percepção dos direitos humanos, para representar um conjunto
amplo de grupos com seus direitos humanos subtraídos devido
ao preconceito racial ou sofrendo discriminações na sociedade.
A Seppir reúne, por isso, o conjunto de toda a diversidade –
judeus, negros, homossexuais, índios, nordestinos etc., que se
fazem representar pela mesma via, a despeito de conviverem,
cada um desses grupos, com distintos problemas, nem mesmo
comuns a todos, sobretudo os de natureza socioeconômica.
Como consequência, anota o autor, a Seppir e as políticas de
promoção de direitos humanos acabam por orientar-se
essencialmente para as agendas dos direitos individuais, sem
preocupação prioritária para as questões estruturais, que, no
caso das comunidades negras, respondem pelas desigualdades
sociais que afetam os negros.
↩
262. Entre os autores estrangeiros, Anani Dzidzienyo (s/d) defende a
participação da comunidade negra brasileira na formulação e
execução da política externa brasileira para a África.
↩
263. A partir dos anos 40, o estreitamento dos laços com o
continente africano é proposto em inúmeras iniciativas da
comunidade negra brasileira. Exemplos de documentos e
registros oficiais com essa pauta são o "Manifesto à Nação
Brasileira", adotado ao final da Convenção Nacional do Negro
Brasileiro (1945); o "Nosso Programa", produzido na sequência
da Conferência Nacional do Negro (1948-49) e do I Congresso
do Negro Brasileiro (1950); os documentos finais do Encontro
Nacional dos Militantes Negros (1984) e do I Encontro Nacional
de Entidades Negras (1991), além do Programa de Superação
do Racismo e da Desigualdade Racial, preparado para a
Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania
e a Vida (1995).
↩
264. Por temas africanos, entendam-se questões internacionais de
interesse específico ou particular para o continente e
populações africanas, como, por exemplo, a descolonização,
nos anos 50 e 60, ou a dívida externa e a AIDS na década de
1990.
↩
265. As únicas exceções no trabalho da autora são as referências à
influência da experiência socialista na Guiné-Bissau, em
facções da esquerda brasileira, durante o regime militar, e à luta
contra o apartheid nos programas do PCdoB e do PDT, bem
como do PT.
↩
266. Carta de Princípios, datada de 1/5/1979, e assinada pela
Comissão Nacional Provisória.
↩
267. Programa e Plano de Ação, datado de 1/6/1980. Documento
aprovado na reunião nacional de fundação do PT.
↩
268. "Nós, dirigentes sindicais, não pretendemos ser donos do PT,
mesmo porque acreditamos sinceramente existir, entre os
trabalhadores, militantes de base mais capacitados e
devotados, a quem caberá a tarefa de construir e liderar nosso
partido. Estamos apenas procurando usar nossa autoridade
moral e política para tentar abrir um caminho próprio para o
conjunto dos trabalhadores. Temos a consciência de que, nesse
papel, neste momento, somos insubstituíveis, e somente em
vista disso é que nós reivindicamos o papel de lançadores do
PT" (Carta de Princípios do PT, documento citado, 1979).
↩
269. Do diagnóstico que consta do encarte "Brasil Sem Racismo", do
Programa de Governo Lula Presidente, sobre a questão racial
no Brasil, registrem-se, em particular, as seguintes
constatações, que traduzem, como reconhecem os autores do
documento, a análise consagrada pelo Movimento Negro:
"Hoje no Brasil, nascer negro ou negra está diretamente
relacionado com a possibilidade de ser pobre. Compreender
essa realidade é assumir o grande desafio de superar o
racismo, questão essencial do programa de governo de Lula.
(...) Não nos satisfazemos com o simples combate às causas
econômicas das múltiplas formas de desigualdade, mas
reconhecemos a necessidade de desenvolvermos ações
afirmativas, para que se ponha fim a toda forma de
discriminação existente contra os negros. (...)
A história econômica e social brasileira deve seu
desenvolvimento a 400 anos de escravidão. Após a abolição,
em 1888, o início do processo de mecanização da lavoura e a
incipiente industrialização, nos primeiros anos do século XX,
consolidou-se a situação de dominação e exclusão da mão de
obra negra, que foi entregue à sua própria sorte. O trabalhador
negro foi mais uma vez condenado a ocupar o último estrato da
pirâmide social: grandes fazendas e indústrias privilegiavam o
trabalhador europeu e reservavam aos escravos libertos e seus
filhos à atividade braçal; com a pior remuneração. A ignorância
oficial, preservada durante séculos, contribuiu para consolidar a
dívida social e política para com os negros e difundir a imagem
equivocada de uma democracia racial. (...)
Na atualidade, práticas discriminatórias ainda são a triste
realidade de milhões de brasileiros, negros e negras. (...)
Apesar do empenho de tantos grupos para denunciar a
exclusão social e garantir a igualdade de condições, nascer
negro está relacionado à probabilidade de ser pobre. Esta
situação não pode ser tratada como simples herança da
escravidão. O racismo é recriado e alimentado a cada dia,
reforçando um ciclo cumulativo de desvantagem para os
negros. As manifestações de racismo causam danos materiais,
simbólicos, políticos e culturais por vezes irreversíveis para toda
a população negra e agridem, acima de tudo, a essência da
democracia. Valor político que orienta a atuação dos membros
da Coligação Lula Presidente. (...)
A exclusão social a que a população negra é submetida
transparece não apenas no raro acesso de negros a cargos de
direção, mas também na idade precoce com que uma maioria
de crianças negras entra para o mundo do trabalho, nas
constantes e injustificáveis diferenças salariais entre
funcionários que desempenham as mesmas funções e
possuem o mesmo grau de escolaridade, e na evidente falta de
critérios objetivos na admissão, contratação e demissão de
trabalhadores negros. (...)
O sistema educacional no Brasil reproduz com frequência
práticas discriminatórias e racistas (...)
A cultura expressa a identidade de um povo. No caso do Brasil,
é da interseção e coexistência de tantas tradições em território
nacional que surgiu o caldeirão cultural. Dele, fazem parte
hábitos e tradições africanas que devem ser preservados, como
resgate histórico e ferramenta para garantir dignidade à
população negra. Os meios de comunicação, no entanto,
reforçam a imagem do negro de maneira estereotipada e
discriminatória, produzindo efeitos perversos que vão contra a
tentativa de fortalecer a identidade positiva dessa população. A
cultura deve ser considerada, antes de tudo, fonte de
determinação e autoestima. É função do poder executivo
desenvolver ações que propiciem um novo paradigma de
visibilidade e valorização da cultura negra".
↩
270. No tocante aos compromissos, o encarte "Brasil Sem Racismo",
do Programa de Governo Lula Presidente, dispõe, em tom
geral, o seguinte:
"O reconhecimento do racismo como crime e a urgência de
medidas que coíbam manifestações discriminatórias ocupam,
dia após dia, a agenda política mundial. O governo Lula vai
buscar incansavelmente formas de eliminar o racismo
estrutural, unindo forças com aqueles que acreditam que um
outro mundo é possível: um mundo onde equidade e justiça
social deixem de ser um sonho para se transformarem em fatos
concretos. (...) Entre as conquistas legais e a realidade vivida
pela população brasileira, ainda existe uma larga distância.
Para superar esta realidade é necessário ir além da adoção de
políticas antidiscriminatórias. É necessário combiná-las com
políticas públicas nas diversas áreas e adotar um novo modelo
de desenvolvimento para o Brasil, economicamente viável,
ecologicamente sustentável e racial e socialmente justo. (...)
Ações afirmativas têm sido apresentadas como medidas de
enfrentamento da desigualdade racial. No entanto, para a
superação do racismo, tornam-se necessárias medidas
reparatórias sob a forma de políticas públicas efetivamente
comprometidas com a resolução dos problemas nos âmbitos
social, econômico e cultural".
Objetivamente, os compromissos anunciados são, entre outros,
"no capítulo 5, relativo a Trabalho/Emprego e Renda -
Incrementar incentivos a empresas privadas que desenvolvam
programas de igualdade racial e diversidade étnica;
no capítulo 5.5, relativo a Cultura e Comunicação - Desenvolver
programas que assegurem igualdade de oportunidade e de
tratamento nas políticas culturais, bem como a proteção das
manifestações culturais afro-brasileiras e seus templos;
no capítulo 5.11, relativo a Governo e Sociedade - O incremento
de políticas públicas voltadas à população negra será
imperativo na agenda programática dos ministérios durante o
governo Lula, sempre em contato com a sociedade civil, em
especial com o Movimento Negro e todas as instituições que
apontam caminhos para superar a exclusão dos negros no
Brasil. Nosso governo convocará as instituições do Estado e da
Sociedade para participarem de um amplo debate sobre o
racismo e para se empenharem na sua superação".
↩
271. Edson Cardoso, entrevista concedida em 17/3/2006. Edson
Lopes Cardoso é natural de Salvador(BA), mestre em
Comunicação(UnB) e editor do jornal Ìrohìn. Ativista do
Movimento Negro, foi coordenador da Comissão do Negro do
PT-DF e membro da Executiva Regional de 1984 a 1987. Foi
chefe de gabinete do Dep. Florestan Fernandes (PT-SP), de
1992 a 1995, e assessor de relações raciais dos parlamentares
petistas Ben-Hur Ferreira e Paulo Paim (na mesa diretora da
Câmara e do Senado). Foi membro da executiva nacional do
MNU (1989 a 1995). Editou os jornais Raça & Classe (1987) e
Jornal do MNU (1989-1995).
↩
272. Referência às quatro cidades vizinhas à cidade de São Paulo,
que são Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema,
onde, devido à alta concentração de fábricas, sobretudo de
automóveis e autopeças, foi gestado o sindicalismo brasileiro e
o próprio PT.
↩
273. Edson Cardoso lembrou que também participaram da
constituição do PT os ecologistas e os movimentos de mulheres
contra a carestia, entre outros (Cardoso, entrevista citada).
↩
274. Trata-se da criação do Movimento Unificado Contra a
Discriminação Racial, em 18/6/1978, rebatizado, em seguida,
como MNUCDR,e depois convertido, em 1979, em MNU.
↩
275. Segundo Dagoberto Fonseca, "o PT perde com a saída desse
pessoal, os intelectuais negros, a construção teórica sobre as
questões raciais, que são preteridas pela ideologia de classe. O
PDT, no RJ, avança com Leonel Brizola, Abdias Nascimento,
Darci Ribeiro e Carlos Alberto Caó, mas também não prospera.
Então o PT é a única referência, até porque os negros do
PMDB não estavam interessados nos temas raciais; estavam
pensando na máquina pública/empregabilidade da população
negra. (...) A intelectualidade negra abandona a estrutura do PT
porque não são ouvidos, [porque] são colocados de maneira
marginal. Alguns – um ou dois, orgânicos, vão se mantendo
fiéis à estrutura partidária, porque entendem que a única
maneira de fazer a mudança estrutural que o Brasil precisa é
via partido político. E o PT ainda é o partido de ponta, com
possibilidade de fazer isso. Lutar nas trincheiras do Partido para
poder conscientizá-los, aos do Partido, sobre os temas raciais.
A criação da Seppir, por exemplo". Fonseca, entrevista
concedida em 23/3/06.
↩
276. Edson Cardoso observa que o Movimento Negro mantinha e
segue mantendo o diálogo com outros partidos políticos
brasileiros, e alguns avanços alcançados no período do
Governo Fernando Henrique Cardoso foram resultado do
diálogo entre o PSDB e o Movimento Negro (Cardoso,
entrevista citada). Também a Ministra Matilde Ribeiro
reconheceu haver, dentro do Movimento Negro, representantes
de distintas correntes políticas, inclusive "setores de direita",
alguns vinculados a outros partidos políticos. Todas teriam, em
comum, a plataforma de "inclusão do negro como cidadão na
vida política brasileira" (M. Ribeiro, entrevista concedida em
22/3/2006).
↩
277. Cardoso, entrevista citada.
↩
278. Silva, 2004, p. 12.
↩
279. Segundo Dagoberto Fonseca, "os que ficaram fazem a ponte
com os que saíram. Os que ficaram conseguiram construir uma
identidade de luta dentro do Partido" (Fonseca, entrevista
citada).
↩
280. Edson Cardoso (2004, p. 116) aponta, a propósito, que a
assimilação da pauta do Movimento Negro pelo PT é, no
entanto, parcial e seletiva, uma vez que, em 9/1/2003, portanto,
logo no início de sua gestão, o já então Presidente Lula, ao
sancionar a Lei n o 10.639, sobre o ensino da História e Cultura
Afro-brasileiras, vetou alguns dos artigos do projeto de lei
aprovado no Congresso Nacional, entre os quais um que
obrigava a participação das entidades negras nos cursos de
capacitação dos professores que ministrariam os cursos de
História da África e da presença africana no Brasil.
↩
281. Por ocasião do 6o Encontro Nacional do PT, realizado em junho
de 1989, aprovou-se o documento "As bases de ação do
Programa de Governo", com um capítulo exclusivo sobre
"Negros", que continha os princípios para a atuação do
Governo PT, entre os quais: apoio às lutas dos povos oprimidos
da África, dos negros da Diáspora e o repúdio aos países que
tenham institucionalizado qualquer tipo de discriminação;
reorientação das prioridades da política externa em relação ao
continente africano.
↩
282. Cardoso, entrevista citada.
↩
283. Ribeiro, entrevista citada.
↩
284. Trata-se da III Conferência Mundial contra o Racismo,
Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas,
organizada pelas Nações Unidas, na cidade de Durban, África
do Sul, em agosto/setembro de 2001.
↩
285. Sobre a Conferência de Durban, o encarte "Brasil Sem
Racismo", do Programa de Governo da Coligação Lula
Presidente, registra que: "Os debates após a conferência
contribuíram para o estabelecimento de uma relação mais
objetiva entre escravidão e racismo, entre tráfico de negros e
discriminação. Mais do que resultado do regime escravocrata, o
racismo passou a ser encarado nas Américas como parte
integrante da escravidão, o que figura como ponto de partida de
todo mecanismo discriminatório: o lugar de qualquer cidadão é
definido de acordo com a cor de sua pele. Historicamente, em
nosso continente, a cor da pele dos negros determinou não
apenas o lugar físico – a senzala – como também o lugar social
a eles permitido.
No documento oficial brasileiro, [levado a Santiago, onde se
realizou a Conferência Preparatória das Américas] é
reconhecida a responsabilidade histórica pelo escravismo e
pela marginalização econômica, social e política dos
descendentes de africanos. Além disso, é recomendada
oficialmente a inclusão no Código Penal Brasileiro de
agravantes de crimes como o racismo, a xenofobia e outras
formas de intolerância.
A Conferência de Durban refletiu positivamente na política
nacional. O governo brasileiro desencadeou uma série de
iniciativas e estratégias compreendidas como ações afirmativas.
O Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado no primeiro
semestre, trouxe algumas das propostas relacionadas à
eliminação do racismo. Medidas de ação afirmativa foram
sugeridas pelos Ministérios da Cultura, da Educação, do
Trabalho e do Desenvolvimento Agrário, mas ainda dependem
de aprovação para serem implementadas, o que não se
concretizará na atual gestão [de FHC].
Cabe ao nosso futuro governo balizar as proposições em curso,
visando ao encaminhamento das propostas incorporadas à
Declaração de Durban".
↩
286. Em entrevista a Carolina Cantarino (2003), Deise Benedito, à
época coordenadora de articulação política e de direitos
humanos da ONG Fala Preta!, comentou que "Durban sinaliza
um consenso sobre a necessidade de se implantar ações
afirmativas no Brasil". O então Assessor da Secretaria de
Direitos Humanos do Ministério da Justiça, Ivair Augusto Alves
dos Santos, declarou também a Cantarino (2003) que "o mais
importante da participação brasileira na Conferência Mundial de
Durban seria o processo de mobilização nacional sobre a
temática do racismo".
↩
287. Ribeiro, entrevista citada.
↩
288. Ver Osmundo de Araújo Pinho. O sol da liberdade: Movimento
Negro e a crítica das representações raciais. 2003.
↩
289. Antonio Ozaí da Silva (2004) indica que esse protesto assumia
formas passivas, como o suicídio e o assassinato de recém-
nascidos escravos, e ativas, como a resistência coletiva.
↩
290. A propósito de alguns trabalhos que oferecem uma nova
historiografia sobre a experiência escrava na história da
escravidão no Brasil, ver: LARA, Silvia Hunold. Na perspectiva
dos escravos. In: Teoria e debate. [on-line], n. 45, jul./set.
Fundação Perseu Abramo, 2000.
↩
291. Silva, 2004, p. 6.
↩
292. Idem, p. 8-9. Entre os expoentes dessa imprensa, contam-se: O
Menelik (1915), A Rua (1916), O Alfinete (1918) e O Getulino
(1924).
↩
293. ANDREWS, 1991, apud SILVA, 2003, p. 217.
↩
294. Silva, 2004, p. 9.
↩
295. Guimarães, 1999, p. 210.
↩
296. Ver Silva, 2003, p. 219. Nesse trabalho, a autora estende-se em
relatos e comentários sobre as múltiplas organizações negras
que atuaram no Brasil nos anos 40 e 50.
↩
297. Silva, 2003, p. 224.
↩
298. Idem, p. 221.
↩
299. Ibidem, p. 218.
↩
300. Ib., p. 223.
↩
301. Abdias Nascimento (2000, p. 206) conta que "o TEN nasceu
para contestar a discriminação, formar atores e dramaturgos
afro-brasileiros e resgatar uma tradição cultural cujo valor foi
sempre negado ou relegado ao ridículo pelos nossos padrões
culturais: a herança africana na sua expressão brasileira".
↩
302. Sobre as teorias raciais ver SCHWARCZ, Lilia Moritz. As
teoriais raciais, uma construção histórica de finais do século
XIX..., In: SCHWARCZ, L. M.; Queirós, R. S. Raça e
diversidade, s/d.
↩
303. D'Adesky (2006, p. 14) explica que "a desvalorização dos
atributos físicos africanos limita em muito a possibilidade de um
indivíduo que os possui conseguir se constituir em objeto de
afeição mútua, como igual, por parte de outros indivíduos dessa
mesma sociedade, sejam eles brancos ou negros". Ele
acrescenta que essa é uma realidade "cruel, crudelíssima para
uma sociedade na qual o elogio da miscigenação ainda
campeia".
↩
304. D'Adesky (2006, p. 25) aponta que "o menosprezo de uma
cultura, de um modo de vida, a falta de reconhecimento
adequado da imagem da pessoa e de seu grupo, configuram
privações de oportunidades iguais e causam danos
psicológicos, sob a forma da tortura de uma baixa autoestima".
↩
305. Guimarães, 1999, p. 210-12.
↩
306. Nascimento, A. Teatro negro no Brasil, uma experiência
sociorracial. In: Revista Civilização Brasília, n. 2, caderno
especial, 1968. (Apud SILVA, 2003, p. 217).
↩
307. Silva (2004, p.11), Semog e Nascimento (2006, p. 165)
esclarecem que foi precisamente no dia 10 de março de 1969,
que o governo Médici proibiu a publicação de notícias sobre
índios, esquadrão da morte, guerrilha, Movimento Negro e
discriminação racial.
↩
308. Foi a partir do final dos anos 70 que as organizações do
Movimento Negro recuperam a memória de Zumbi dos
Palmares e propuseram a celebração do Dia da Consciência
Negra, em 20 de novembro – data da morte de Zumbi, em
substituição às festividades do Dia da Abolição, 13 de maio, de
forma que "o 20 de novembro tornou-se a data principal do
reinvestimento simbólico/histórico da política afrodescendente
no Brasil" (Pinho, 2003, p.2).
↩
309. Guimarães (1999, p. 58) comenta que "as novas formas
culturais do Movimento Negro na América Latina e no Brasil
têm enfatizado o processo de reidentificação dos negros, em
termos étnico-culturais. Ao que parece, só um discurso
racialista de autodefesa pode recuperar o sentimento de
dignidade, de orgulho e de autoconfiança, que foi corrompido
por séculos de racialismo universalista e ilustrado. O
ressurgimento étnico é, quase sempre, amparado nas ideias
gêmeas de uma terra a ser recuperada (quilombos), e de uma
cultura a redimir e repurificar, no contato com uma África
imaginária, a África trazida e mantida como memória. Essa
pauta concreta e popular do antirracismo é repelida por muitos
brasileiros de boa fé, nacionalistas de diversas extrações
políticas, que acreditam no antirracismo oficial e mitológico do
Brasil".
↩
310. Pinho, 2003, p. 2.
↩
311. Guimarães (1999, p. 27) recomenda que "por racialista,
entenda-se a evocação do carisma da raça negra e a formação
de uma identidade racial negra". Nesse sentido, utiliza os
termos racialismo e racialista, como ele próprio registra, tal
como Kwame Anthony Appiah os utiliza, para referir-se à
doutrina segundo a qual "há características hereditárias,
partilhadas por membros de nossa espécie, que nos permitem
dividi-la num pequeno número de raças, de tal modo que todos
os membros de uma raça partilhem entre si certos traços e
tendências que não são partilhados com membros de nenhuma
outra raça. Esses traços e tendências característicos de uma
raça constituem, na perspectiva racialista, uma espécie de
essência racial: [essa essência] ultrapassa as características
morfológicas visíveis – cor de pele, tipo de cabelo, feições
faciais – com base nas quais fazemos nossas classificações
formais" (APPIAH, 1992, p. 4-5, apud GUIMARÃES, 1999,
p.27). Mas Guimarães (1999, p.195) entende ser essa essência
definida pela "cultura", consistindo em valores morais,
intelectuais e culturais. Também explica racialismo como
"crença na existência de raças humanas, o que, a princípio, não
constitui racismo, ou seja, não significa acreditar na
inferioridade moral, intelectual ou cultural de alguma raça".
↩
312. Guimarães, 1999, p. 210-212.
↩
313. Pinho, 2003, p. 4.
↩
314. Guimarães, 1999, p. 211.
↩
315. Vários autores mencionam o impacto de novas pesquisas na
áreas de ciências sociais e economia sobre os estudos da
questão racial no Brasil. A primeira delas terá sido a própria
pesquisa encomendada pela UNESCO, em 1950, que negou a
tese dominante, no Brasil e no exterior, que dava conta de um
paraíso racial no Brasil, ao revelar a existência de preconceito
racial no país. Nos anos 70 e 80, há um aumento sensível da
quantidade e qualidade dessas pesquisas, cada vez mais
associadas, por exemplo, ao campo da Economia, e não mais
apenas ao campo da Sociologia e da Demografia (SANTOS,
2005, p. 11-12). Dzidzienyo (separata, p.199) também concorda
que, a explicar o fato de a tese da democracia racial ter
prevalecido, por muitos anos, no Brasil e no exterior, entre
acadêmicos e não acadêmicos, estaria a "ausência, até os anos
80, de dados quantitativos que evidenciariam os amplos
padrões de desigualdades (...) entre as raças".
↩
316. Sobre o conjunto de direitos e as representações específicas
das desigualdades com que se confrontam os negros
brasileiros, ver D'Adesky, 2006, capítulo 5 – Reconhecimento e
igualdade: distinção e conformidade, e capítulo 6 –
Reconhecimento e liberdade de realização de si.
↩
317. Guimarães, 1999, p. 212.
↩
318. Santos, 2005, p. 198.
↩
319. Escreveram contra os argumentos de Hanchard, entre outros,
FRY, Peter. O que a Cinderela Negra tem a dizer sobre a
política racial brasileira. Revista USP, n. 28, p.122-135, [s.d.] e
BAIRROS, Luiza. Orfeu e poder: Uma perspectiva afro-
americana sobre a política racial no Brasil. Afro-Ásia, n. 18,
p. 227-234, 1996.
↩
320. Hanchard, 2001 (apud PINHO, 2002).
↩
321. Idem.
↩
322. Hasenbalg (1998, p.243) aponta o "caráter ambivalente dos
usos da cultura negra. Para muitos militantes negros essa
cultura se constitui no principal instrumento de resgate da
autoestima e da reconstrução positiva de uma identidade racial
abalada pela ideologia do branqueamento. Ao mesmo tempo, a
cultura negra pode florescer a até ser oficialmente promovida
em contextos caracterizados pelo domínio de oligarquias
regionais e de práticas de clientelismo político".
↩
323. Pinho, 2003.
↩
324. Silva, 2003, p.217-218.
↩
325. Pinho, 2003, p.2.
↩
326. Dagoberto José Fonseca é professor-doutor da Faculdade de
Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista, Unesp, e
Coordenador Geral e Executivo do Núcleo Negro da Unesp
para a pesquisa e extensão (Nupe). Teve larga participação,
desde a década de 1980, na militância do Movimento Negro,
sobretudo junto às Pastorais do Negro. Foi seu colaborador,
ministrando e participando de diversos cursos e oficinas para
dirigentes e militantes de base das entidades negras do Estado
de São Paulo.
↩
327. O Professor Dagoberto Fonseca insistiu no caráter mítico da
referência à África, pelos negros, desde o período colonial, ao
qual viria a agregar-se, posteriormente, também um caráter
místico, marcado pela contemplação e devoção. Em qualquer
dos casos, explicou, a África é uma presença constante na
história daqueles que lutaram contra a escravidão e depois
contra o racismo no Brasil, até os dias de hoje.
↩
328. Alguns deles de fato voltaram. Trata-se dos retornados ou
agudás, que acabaram por criar comunidades de negros
brasileiros na costa ocidental da África, em particular no Benin e
na Nigéria.
↩
329. Mítico = Que diz respeito aos mitos, ou é da natureza deles;
fabuloso. In: Dicionário Michaelis – Dicmaxi, Michaeles Intranet.
↩
330. Místico = 1 Que diz respeito à vida espiritual. 2 Que se refere à
vida religiosa. 3 Que se relaciona com o espírito, e não com a
matéria. 4 Dado à vida contemplativa e espiritual. 5 Misterioso,
alegórico, figurado (falando das coisas religiosas que envolvem
razão oculta e incompreensível). In: Dicionário Michaelis –
Dicmaxi, Michaeles Intranet.
↩
331. Fonseca contou ter vivido pessoalmente, em visita a Angola, a
experiência do retorno à África e do acolhimento, naquele país,
como um típico nativo. Entrevista citada.
↩
332. Fonseca explica que, desde os anos 80, o Movimento Negro
passou a ter "uma noção de que essa África [idílica] não existe,
que só está na cabeça de cada um de nós, embora seja de
fundamental importância marcar a África como o lugar da
origem, para se recordar que não nascemos no Brasil como
povo escravizado. Temos uma origem anterior, que vem com o
dado da liberdade. É preciso voltar à África e recuperar a noção
da liberdade original". Registra, a propósito, a importância das
informações trazidas para dentro do Movimento Negro por
aqueles que haviam vivido, como exilados, no continente
africano. Suas informações teriam servido para "desconstruir a
África que existia no nosso imaginário. Desconstrução de um
mundo mítico e de uma identidade fantasiosa sobre a África".
Ele comenta também terem sido "os norte-americanos [que]
mostraram que não haveria mais a África como lugar da luta;
que somos afro, filhos da Diáspora, e não africanos, e que
nossa luta é nas Américas ... nos nossos países. O pan-
africanismo passava [agora] pelas Américas e os encontros das
culturas negras nas Américas são fundamentais para repensar
a luta. É preciso o nosso fortalecimento nas Américas para aí
darmos a contribuição que a África precisa. " (Fonseca,
entrevista citada).
↩
333. Fonseca, entrevista citada.
↩
334. Idem.
↩
335. Dzidzienyo (2005, p.252) sublinha que, nos últimos 25 anos, "a
formação da identidade tornou-se um projeto para os
movimentos sociais que desafiam a cultura hegemônica
existente".
↩
336. Declarações de Maria Palmira da Silva à reportagem de
Carolina Cantarino (2003). Maria Palmira da Silva é professora
universitária e autora de artigos sobre questões raciais. No
mesmo sentido, ver Silva, 2004, e Cunha Jr., 2005.
↩
337. Sobre o conceito de Diáspora africana e outras abordagens
associadas ao tema, ver Harris, 1993. Na Introdução, Harris
(p. 3) explica que o "conceito de diáspora africana engloba o
seguinte: a dispersão global (voluntária e involuntária) dos
africanos ao longo da história; o surgimento de um identidade
cultural no exterior baseada em condições sociais e de
nascimento; e o retorno físico e psicológico para a terra natal,
África". No capítulo 2, African Diaspora: concept and context,
seu autor, George Shepperson, sublinha que o termo coloca
"ênfase na contribuição positiva dos homens e mulheres negros
para a história mundial". Ele também sustenta que o termo
diáspora só se aplica, de fato, aos judeus, mas que os autores
de origem africana, que, a partir dos anos 50, começaram a
usar a expressão, estavam "conscientes dos paralelismos
relacionados à servidão, exílio forçado e ao desejo do retorno à
terra natal que os Africanos no exterior compartilhavam com os
judeus" (p. 46).
↩
338. Em 1995, foi realizada, em Brasília, a Marcha Zumbi dos
Palmares Contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida. Foi
organizada pelo Movimento Negro brasileiro e teve como
resultado a instalação, pelo Presidente Fernando Henrique
Cardoso, do Grupo de Trabalho Interministerial, e também
promoveu o início da implementação de políticas de ações
afirmativas para a população negra no país. Dez anos depois,
em 2005, realizou-se, novamente em Brasília, a Marcha Zumbi
+ 10.
↩
339. Em julho de 2001, realizou-se, na Universidade Estadual do Rio
de Janeiro, a Conferência Nacional contra o Racismo e a
Intolerância, que encerrou o processo de preparação da
participação brasileira na Conferência de Durban.
↩
340. Edna Maria Santos Roland, presidente da ONG "Fala Preta!"
Organização de Mulheres Negras, foi relatora-geral da III
Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerância Correlata. Em 2006, era um dos cinco
membros do Grupo de Especialistas Eminentes independentes
para a implementação da Declaração e Programa de Ação de
Durban, nomeados pelo Secretário-Geral das Nações Unidas.
↩
341. Edna Roland (2006) lembra que o termo foi inicialmente
institucionalizado para designar os descendentes de africanos
nas Américas, mas, depois da constituição do Grupo de
Trabalho Intergovernamental previsto no Programa de Ação de
Durban, passou a incluir todos os descendentes da Diáspora
africana.
↩
342. Em sua página oficial, consta que a Nepad "é uma visão e um
projeto estratégico para a renovação da África", forjados a partir
de um mandato conferido pela então Organização da Unidade
Africana (OUA), aos Chefes de Estado da Argélia, Egito,
Nigéria, Senegal e África do Sul, para "desenvolver(em) um
projeto integrado de desenvolvimento socioeconômico para a
África". Em julho de 2001, a Cúpula da OUA adotou
formalmente o projeto da Nepad. Seus principais objetivos são:
erradicar a pobreza; lançar os países africanos, individual e
coletivamente, em uma rota de desenvolvimento e crescimento
sustentável; interromper a marginalização da África no processo
de globalização e ampliar as condições para sua integração
plena e positiva na economia global; e acelerar o
empoderamento das mulheres. Como princípios, elegeram,
entre outros, a boa-governação, como requisito básico para a
paz, segurança e desenvolvimento político, social e econômico
sustentável; a aceleração do processo de integração regional e
continental; e o estabelecimento de uma nova parceria
internacional que mude a relação desigual prevalecente entre a
África e o mundo desenvolvido.
↩
343. Roland, 2001.
↩
344. A propósito da globalização e a agenda convergente do
Movimento Negro na América Latina e Caribe, ver Dzidzienyo,
2005.
↩
345. Cantarino, 2003.
↩
346. A propósito da agenda comum do Movimento Negro latino-
americano e caribenho, ver Dzidzienyo, 1995.
↩
347. No campo intergovernamental, a Ministra Matilde Ribeiro
informou que os primeiros três anos de sua pasta serviram para
"um aprendizado", com o objetivo de conhecer, de uma maneira
institucional, a realidade africana e, ao mesmo tempo: "(i) poder
dialogar com os colegas ministros e gestores dos países
africanos. (ii) ofertar os instrumentos de relação bilateral em
torno da agenda racial e (iii) contribuir para os processos no
Brasil com os outros ministérios de aproximação com a África -
têm sido os três pontos fundamentais da gestão na Seppir"
(Ribeiro, entrevista citada).
↩
348. Segundo Sueli Carneiro, o trabalho de preparação, nas
Américas, para a Conferência de Durban foi muito importante
para fortalecer os vínculos entre as organizações negras na
América Latina e Caribe. "A agenda dos afro-latino-americanos
foi a agenda vencedora em Durban. Ela orientou grandemente
todas as intervenções e os documentos. Foi a agenda mais
extensa e mais propositiva. O documento de Durban é, em
grande parte, o documento que saiu de Santiago, da
Conferência Regional das Américas" (Carneiro, entrevista
concedida em 24/3/2006).
↩
349. Realizou-se, em Brasília, de 26 a 28 de julho de 2006, a
Conferência Regional das Américas sobre os Avanços no Plano
de Ação e Desafios contra o Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerâncias Correlatas.
↩
350. Carneiro menciona o Fórum Social Mundial como ponto atual
de convergência entre as organizações negras brasileiras e as
representações da sociedade civil africana, para cuja
organização, inclusive, algumas organizações brasileiras, como
a ONG Fala Preta! estaria contribuindo (Entrevista citada).
↩
351. A dissertação de mestrado de Gevanilda dos Santos é
considerada obra de referência sobre a matéria e cobre
especialmente o período que vai de 1978, ano de criação do
MNUCDR, até 1992, data da monografia.
↩
352. Embora Gevanilda Santos reporte-se ao universo político do
Estado de São Paulo, a ausência de trabalhos com objeto
semelhante e cobertura nacional, bem como o amadurecimento
do PT sobretudo na arena política paulista legitimam a
utilização, como referência, da dissertação daquela autora.
↩
353. Santos, 1992, p. 6.
↩
354. Idem, p. 10-11
↩
355. Ibidem, p. 16.
↩
356. Ib., p. 18.
↩
357. O Deputado Adalberto Camargo não tinha vinculações com o
movimento social, como ele próprio reconhecia. Juntamente
com outros parlamentares negros que ajudou a eleger, criou a
Câmara de Comércio Afro-Brasileira "para desenvolver um
trabalho de aproximação com as nossas origens"(SANTOS,
1992, p.20). Gevanilda Santos sublinha, no entanto, que ele
não era uma liderança combativa no meio da comunidade
negra e que, nas eleições de 1982, já não conseguiu reeleger-
se.
↩
358. Santos, 1992, p. 4. O Censo Nacional de 1970 não incluiu o
quesito raça ou cor em seus formulários. Mas, em livro
publicado por Florestan Fernandes, em 1978, já estavam
estampadas, assim como na pesquisa anterior da Unesco, os
indicadores da desigualdade racial no Brasil. Sobre uma
discussão acerca dos indicadores da desigualdade racial no
Brasil, ver HERINGER, Rosana. 'Desigualdades raciais no
Brasil: síntese de indicadores e desafios no campo das políticas
públicas. In: Cadernos Saúde Pública, v. 18, supl, Rio de
Janeiro, 2002.
↩
359. Trata-se de uma organização clandestina formada pela fusão
das tendências trotskistas Liga Operária e Fração Bolchevique.
José Dirceu e Wladimir Pomar, no texto "Algumas
considerações sobre as tendências organizadas no PT",
afirmam, a propósito da Convergência Socialista, que ela
"dependendo de seus humores, ora afirma atuar no PT, ora
afirma estar fora".
↩
360. Do MNUCDR surgirá, posteriormente, o MNU, "primeira
entidade de caráter nacional do Movimento Negro
contemporâneo" (Santos, 1992, p. 57). Segundo a autora
(p. 60), "essa alteração significou a ruptura da aliança com a
esquerda no encaminhamento da luta antirracismo. O projeto
do Núcleo Negro Socialista foi reformulado, sendo formada uma
organização negra – o MNU, independente da estrutura e da
direção da esquerda, embora o princípio classista para a luta
contra o racismo fosse preservado".
↩
361. Nascimento, 2000 (apud SILVA, 2004, p. 12).
↩
362. A propósito do tema, ver Buonicore, 2005a e 2005b. Buonicore
apresenta, nesse texto, um estudo sobre a evolução do
pensamento marxista no tocante à questão do racismo. Sobre a
situação no Brasil, explica (2005b) que "o movimento operário,
nos primeiros anos do século XX, hegemonizado por
anarquistas, não deu atenção especial ao problema racial e
nem incorporou as reivindicações específicas dos trabalhadores
negros. O PCB, como herdeiro dessa tradição, (...) também não
colocou a luta pela igualdade racial entre suas bandeiras".
↩
363. Santos, 1992, p. 61.
↩
364. Os indícios dessa relação contraditória são "um misto de
paternalismo, casuísmo e mesmo algumas mudanças efetivas"
(SANTOS, 1992, p. 7).
↩
365. Cunha Jr, 2005.
↩
366. A única exceção seria o PCdoB, que fazia referência à
realidade racial brasileira e se manifestava contrariamente a
todas as formas de racismo (SANTOS, 1992, p.38).
↩
367. Santos, 1992, p.38.
↩
368. Idem, p.38-9.
↩
369. Saraiva (1996) registra a reação do então Presidente da
Associação dos Diplomatas Brasileiros, Ministro José Antonio
Macedo Soares, a manifestação de um professor da UnB a
propósito do que este considerava "o monopólio do branco na
carreira diplomática". Em artigo publicado no Boletim da ADB,
n. 14, 1994, p. 8, o Ministro Macedo Soares escreveu "Não será
novidade a razão por que não há bastantes diplomatas negros,
como tampouco existem suficientes bispos, parlamentares,
juízes, banqueiros, jornalistas e professores da UnB. As
limitações existentes não nascem no Itamaraty, na revista Veja,
ou mesmo na Universidade de Brasília, mas sim na sociedade
brasileira" (1996, p. 239).
↩
370. A propósito do tema, ver IANNI, Octávio. Capitalismo e racismo.
São Paulo: Brasiliense, 1972.
↩
371. Santos, 1992, p. 39-42
↩
372. Silva, 2004, p. 11.
↩
373. Santos, 1998, p. 219-220.
↩
374. Roland, 2001 [Grifo do original].
↩
375. Buonicore, 2005b [Grifo do original].
↩
376. Guimarães, 1999, p.57-58 [Grifo do original].
↩
377. O estudo de Gevanilda Santos foi baseado em pesquisas
realizadas em São Paulo, nas eleições de 1982.
↩
378. Santos, 1992, p. 93. Ver também Anexo I - Documentos do PT.
↩
379. Fonseca registra que "o PT não deu voz aos negros do MNU
em função de uma leitura política – de que a questão racial não
era uma questão de fundo, porque a questão social era mais
importante. Se viesse a revolução, o que contaria era a questão
de classe. O movimento sindical aceitava discutir classe, mas
não raça, porque raça divide. Uma leitura míope, distorcida da
realidade" (Fonseca, entrevista citada). Cunha Jr. (2005, p.3)
também reconhece que "as esquerdas brasileiras sempre foram
contrárias a tratar da situação da população afrodescendente
como um caso específico e diferenciado das outras etnias do
país. Esta resistência tem várias razões. A principal é que tanto
direita como esquerda compõem as suas percepções de
sociedade brasileira com base nas premissas de Casa Grande
& Senzala. O texto, em última análise, parte de uma versão de
raça biológica e trabalha como solução dos conflitos sociais
possíveis pela fórmula da mestiçagem. Para os seguidores da
ideia de mestiçagem, esta resolveu todas as possibilidades de
conflito e reivindicação étnica no país. Assim, não faria sentido
histórico nenhuma especificidade, todos ficam igualmente
brasileiros e mestiços".
↩
380. Vide Anexo I, com as referências ao tema nos documentos do
PT.
↩
381. Pereira, João Batista B. Aspectos do comportamento político do
negro em São Paulo. In: Ciência e cultura. São Paulo, USP/SP,
v. 34, n. 10, p. 1.291, 1982. (apud SANTOS, 1992, p. 88).
↩
382. Ozaí da Silva (2004, p. 12) afirma que, a despeito de o maior
partido da esquerda brasileira não incorporar, em sua fundação,
"a dimensão racial[;] é certo que a geração de militantes afro-
brasileiros forjada nos anos 1970 encontrou no Partido dos
Trabalhadores um espaço privilegiado para implementar a luta
antirracial".
↩
383. Santos, 1992, p. 95.
↩
384. Mais recentemente, lideranças negras do PT, em particular o
Senador Paulo Paim (PT/ MG), vêm concentrando esforços na
aprovação do Estatuto do Negro.
↩
385. Silva, 2004, p.13. O autor cita o comentário, nesse mesmo
sentido, feito pelo Deputado Luis Alberto, do PT-BA.
↩
386. Santos, 1992, p. 99-100.
↩
387. Idem.
↩
388. Documento intitulado "Partido", aprovado por ocasião do I
Congresso Nacional do PT, com data de 1/12/1991. Disponível
em: http://www.ptgte.org.br/pt25anos Acesso em: 26 jul. 2006.
↩
389. Silva, 2004.
↩
390. No mesmo texto, afirma-se "Apesar de o PT se reivindicar
portador de uma nova matriz no complexo universo político da
esquerda e na trajetória histórica brasileira, isso não o imuniza
diante da ideologia racista hegemônica. Além disso, decorridos
mais de quinze anos de experiência petista podemos afirmar, a
cada dia com maior segurança, que, mesmo com alguns
elementos diferenciadores que dão certa originalidade ao
partido, o PT é, sobretudo, continuidade reciclada da tradição
de esquerda que reduz as contradições da sociedade ao
terreno econômico e enxerga o Brasil com um olhar branco"
(SILVA, 2004, p. 19).
↩
391. Exemplo dessa afirmação é a percentagem de apoio da
sociedade brasileira, superior a 60% dos eleitores, em
praticamente todos os seus segmentos, ao sistema de cotas
para negros e pardos nas universidades e no trabalho. Os
dados mais recentes sobre o tema constam de pesquisa do
Datafolha, de julho de 2006.
↩
392. Munanga (1999, p.15) entende que, "apesar de algumas
conquistas, simbólicas e concretas, como, por exemplo, o
reconhecimento oficial de Zumbi dos Palmares como herói
nacional, 'herói negro dos brasileiros', os movimentos negros
ainda não conseguiram mobilizar todas as suas bases
populares e inculcar-lhes o sentimento de uma identidade
coletiva, sem a qual não haverá uma verdadeira consciência de
luta. (...) As dificuldades dos movimentos negros em mobilizar
todos os negros e mestiços em torno de uma única identidade
"negra" viriam do fato de que não conseguiram destruir até hoje
o ideal do branqueamento".
↩
393. Entre esses dados, o trabalho publicado pelo PNUD, em 2004,
intitulado Atlas Racial Brasileiro, ou ainda o Relatório do
Desenvolvimento Humano Brasil 2005, com o subtítulo
Racismo, pobreza e violência.
↩
394. D'Adesky, 2006, p. 73.
↩
395. Dzidzienyo (2005, p. 253), ao fazer uma apreciação da situação
da questão racial atual no Brasil, registra "um dinamismo
impressionante de múltiplos discursos, publicações e
discussões que conseguiram inserir firmemente a questão dos
afro-brasileiros na sociedade brasileira e dentro do debate
nacional".
↩
396. Azevedo (1987, p. 176) afirma que a historiografia tradicional
contemporânea também foi fortemente influenciada pelo
"ideário marxista. [Porque] Preocupados em apresentar o
movimento da história à luz da luta de classes, esses estudos
perdem-se, porém, nos meandros de uma postura racionalista e
reducionista, que se remete a todo instante à estrutura
econômica em busca de uma explicação última para os eventos
históricos". Uma das premissas desse ideário é de que "coube
aos escravos um papel subordinado nas lutas pela abolição,
pois, além do seu isolamento nas fazendas, eles não tinham
condições de superar a alienação e alcançar por si sós uma
consciência de classe" (p. 177). Azevedo (p. 175 e ss.) mostra
como o ideário marxista retira protagonismo aos negros na luta
pelo fim da escravidão.
↩
397. Jacques D'Adesky é um dos muitos autores, como se pode ver
na bibliografia deste trabalho, que se dedicam ao estudo do
racismo no Brasil. Em um desses trabalhos (2006, p. 30-31), o
autor compara os fenômenos do etnocentrismo, que "é uma
atitude universal que leva as sociedades a se atribuir uma
superioridade cultural em relação a outros grupos" e o racismo.
Explica, no entanto, "para passar do etnocentrismo ao racismo,
é preciso, (...) que se acrescente a essas diferenças objetivas
[não só entre os homens, mas também entre as culturas] uma
diferença imaginária: a consciência, necessariamente falsa, de
uma diferença biológica entre as pessoas. É com base nessa
pretensão que um grupo de pessoas, certas de possuir
caracteres biológicos transmissíveis de geração a geração,
chega a se considerar superior em relação a outros grupos e a
reclamar para si status, direitos e vantagens que a outros serão
recusados".
↩
398. Como parte dessa literatura, é relevante citar o trabalho dos
chamados intérpretes do Brasil. A propósito, ver AXT, G.;
SCHULER, F. (Orgs.) Intérpretes do Brasil. Ensaios de Cultura
e Identidade, 2004. Nesse trabalho, em especial os textos de T.
Malatian. O Brasil visto do Itamaraty: Oliveira Lima e a história
diplomática e PESAVENTO, S. J. Negritude, mestiçagem e
lusitanismo: o Brasil positivo de Gilberto Freyre.
↩
399. Exemplo desse debate e da polêmica a ele associado é o caso
da política de cotas em universidades brasileiras, que tem tido
ampla divulgação na mídia brasileira, assim como os debates
acerca do Estatuto da Igualdade Racial, cujo projeto de lei é do
Senador Paulo Paim (PT/MG).
↩
400. Santos (2005, p.13) cita Marvin Harris (1967), brasilianista, que
"dizia haver diplomatas brasileiros e outros expoentes oficiais e
semioficiais que compartilhavam a crença de Gilberto Freyre
sobre o paraíso racial". Também é oportuno o registro da
cerimônia de instalação do GTI, realizada no Palácio do
Planalto, em 27/2/1996, ocasião em que o então Presidente
Fernando Henrique Cardoso, em seu discurso, contou nunca se
ter esquecido que "certa vez, no Rio de Janeiro, numa reunião
no Itamaraty, onde mais tarde fui Ministro, um Embaixador
esteve a ponto de me tirar da sala. Eu era então bastante jovem
e mais impetuoso. Eu disse coisas que digo sempre. E que
continuo dizendo, de forma educada, como fiz lá também nessa
reunião do Itamaraty. Disse que havia preconceito no Brasil. O
Embaixador considerava que isso era uma coisa contra o Brasil,
contra a nossa imagem no exterior".
↩
401. Santos comenta como a sociogênese brasileira foi apresentada
como um produto de exportação. Recorda, por exemplo,
solenidade comemorativa ao Dia Universal contra a
Discriminação Racial, realizada no Itamaraty, em 21/03/1969,
quando foi lida intervenção em que se enaltecia a mestiçagem,
ao mesmo tempo em que se reafirmava a visão oficial segundo
a qual as razões da discriminação racial no Brasil seriam de
"fundo social, mas não entre pessoas de cor"(apud SANTOS,
2005, p. 110). Segundo a visão estatal, a discriminação racial
na sociedade brasileira se diluía ao mesmo tempo em que se
constatavam desigualdades sociais. Tratava-se de um discurso
"que não só explicitava as razões das desigualdades raciais,
como também apontava a etnogênese do Estado brasileiro, a
mestiçagem, no que ela teria de mais positivo, a pluralidade da
convivência. A construção do discurso baseado na distinção
racial/social não tinha uma única direção – a sociedade
brasileira-, mas intencionava a visualização do nosso sistema
sociopolítico no contexto internacional" (SANTOS, 2005, p. 109-