Uma nova ciência para um novo senso comum
Bacon e a proposta de um método indutivo
desse modo nos tornar como que senhores e possuidores da
natureza (DESCARTES,2002a, p.60).
Este trecho talvez seja, de todo o discurso, o mais contundente e o que mais compromete Descartes como um dos precursores da ciência moderna. O “nos tornar como que senhores e possuidores da natureza”, poderia servir de lema para toda ciência posterior e principalmente para a atual.
Bacon e a proposta de um método indutivo
Considerado o primeiro grande filósofo da ciência moderna e um
dos primeiros e principais representantes do empirismo19 inglês, Francis Bacon (15611626), embora concorde com Descartes quanto à necessidade de estabelecer um método para ciência, ou mais precisamente a instauração de uma nova ciência (A Instauratio Magna Scientiarum), discorda completamente deste quanto à natureza do método. Conforme escreve Bernal (1976b), o método de Bacon é essencialmente prático e consiste em coligir materiais, executando experiências em grande escala e procurando os resultados na grande massa de provas – um método essencialmente indutivo. Na opinião de Bacon (1988), as ciências deveriam passar por uma nova forma de indução, que analisasse a experiência e a reduzisse a elementos e, nesse processo, a missão dos sentidos deveria ser apenas a de julgar a experiência, de modo que, a própria experiência julgaria as coisas.
Não custa lembrar que, no seu Discurso do Método, Descartes sugere um caminho diferente no qual a centralidade do conhecimento é atribuída à razão, preferencialmente uma razão pura e livre dos enganos produzidos pelos sentidos. Enquanto para Bacon, a experiência é o ator principal, no esquema cartesiano, a experiência é um mero ator coadjuvante e auxiliar do pensamento dedutivo.
Por outro lado, a indução baconiana, assim como a dedução cartesiana, aponta para a necessidade de uma postura negativa e crítica frente à realidade. Assim como Descartes, Bacon (1988) estabelece a dúvida como princípio fundamental no caminho do conhecimento verdadeiro e sinaliza para a necessidade de alertar a mente contra os ídolos, as falsas pistas ou, em sua terminologia, os fantasmas que haviam desviado do caminho da verdade os antigos filósofos.