Uma nova ciência para um novo senso comum
Lakatos e os programas de pesquisa
É na defesa de Popper e contra o suposto relativismo kuhniano que
se coloca a epistemologia de Imre Lakatos 28 e a sua “Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica”.
Grande admirador das ideias popperianas, Lakatos acredita que, na lógica da descoberta científica de Popper convergem duas posições distintas, das quais Kuhn só compreendeu uma delas: o falsificacionismo ingênuo. Nesse sentido, ele mesmo explicita o seu projeto de trabalho:
... penso que a crítica que ele lhe faz é correta e irei até mesmo
reforçá-la. Mas Kuhn não compreende uma posição mais
sofisticada cuja racionalidade não se baseia no falsificacionismo
“ingênuo”. Tentarei explicar – e posteriormente reforçar – esta
posição mais consistente de Popper que, na minha opinião,
pode escapar a severidade de Kuhn, e apresenta as revoluções
científicas não como conversões religiosas mas antes como
progresso racional (LAKATOS, 1999,p.11).
De fato, em sua “Metodologia dos Programas de Investigação Científica”, Lakatos considera a ciência como um imenso programa de pesquisa baseado na suprema regra heurística de Popper: arquitetar conjecturas que tenham maior conteúdo empírico do que as suas predecessoras (1999 p.54). No entanto, as características dos seus programas de investigação científica são relativamente diferentes do falsificacionismo popperiano. Conforme Lakatos,
Todos os programas de investigação científica podem ser
caracterizados pelo seu “núcleo” firme. A heurística negativa do
programa impede-nos de orientar o modus tollens para este
“núcleo” firme. Em vez disso, devemos utilizar o nosso engenho
para articular, ou mesmo inventar, “hipóteses auxiliares” que
formem uma cintura protetora em torno deste núcleo e, em
seguida, reorientar o modus tollenss para estas hipóteses
(1999, p. 55).
Como se vê, os programas de investigação científica, propostos por Lakatos, apresentam um núcleo irredutível (núcleo duro), protegido e menos exposto à falsificação, e um cinturão protetor capaz de enfrentar os frequentes ataques e anomalias, protegendo e sustentando o programa até quanto possível. Entretanto, como ocorre a superação de um programa por outro? O próprio Lakatos (Idem, p.55) responde: “Um programa de investigação é bem sucedido se tudo isso conduz a uma alteração de problemas progressiva; fracassa, se tudo isto conduz a uma alteração de problemas degenerativa”. Neste caso, se houver dois programas de pesquisa rivais em confronto e um deles avança enquanto o outro degenera, a comunidade científica tende a aderir ao programa progressivo e rejeitar o outro. Grosso modo, essa é a explicação das revoluções científicas apontada por Lakatos.
Embora haja uma clara semelhança com as ideias de Kuhn, Lakatos é contrário à tese da incomensurabilidade e acredita que o problema central da filosofia da ciência seja estabelecer condições universais sob as quais uma teoria seja científica. Portanto, se como afirmam os partidários do relativismo, não houver um critério superior para avaliar uma teoria, que não o consenso entre a comunidade científica, a mudança na ciência tornar-se-á uma mera questão de psicologia social e de poder. De acordo com Lakatos, o objetivo da ciência é a verdade, e a metodologia dos programas de pesquisa científica, apoiada em um possível julgamento da história da ciência, oferece a maneira mais adequada de avaliarmos em que medida nos aproximamos dela (CHALMERS, 1993).