Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 41 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Por uma segunda ruptura: a resposta de Boaventura Santos

 

A tese inicial de Santos (2004a) é que todo conhecimento científico visa a constituir-se em senso comum. Se a ciência moderna nasceu e cresceu contra o senso comum que considerou superficial, ilusório e falso, a nova ciência procura reabilitar o senso comum, reconhecendo nesta forma de conhecer algumas virtualidades fundamentais ao enriquecimento de nossa relação com o mundo. Embora reconheça o caráter conservador e mistificador desta forma de conhecimento, o autor chama a atenção para as suas potencialidades utópicas e libertárias que, em diálogo com o conhecimento científico, podem ser enriquecidas e ampliadas.

 

Em “Introdução a uma Ciência Pós-moderna”, Santos (2003) estabelece com maior clareza o seu ponto de vista e sistematiza melhor os seus argumentos. Partindo de uma crítica à epistemologia bachelardiana, que considera a mais influente dos últimos anos, Santos acredita que, sendo a concepção mais avançada e que traduz, com o máximo de consciência, uma visão de ciência comprometida com a defesa da autonomia e do acesso privilegiado à verdade do conhecimento científico sem para isso recorrer a outras formas de conhecimento que não sejam da prática científica, é também a que manifesta mais claramente os limites de seus pressupostos, sendo, pois, a mais vulnerável a um processo de superação.

 

Ao discorrer sobre o que considera uma primeira ruptura epistemológica, Santos apresenta uma síntese do pensamento bachelardiano, particularmente no que se refere à superação do senso comum visto por aquele autor como um dos principais obstáculos epistemológicos ao desenvolvimento do conhecimento científico.

Como já discutimos a resposta bachelardiana, acrescentaremos aqui apenas os aspectos principais da crítica e da tese de Santos sobre o assunto.

 

Ao defender a tese de uma segunda ruptura epistemológica, Santos (2003, p.34) reconhece que a epistemologia de Bachelard interpreta fielmente o modelo de racionalidade subjacente ao paradigma da ciência moderna e o faz de maneira mais suave e mais simples que as antigas epistemologias idealistas e empiristas. No entanto, só é compreensível dentro do próprio modelo, ou seja, a ruptura epistemológica bachelardiana só é compreensível dentro do paradigma da própria ciência moderna. Assim, se o modelo em questão entra em crise, o mesmo deve suceder-se à epistemologia que lhe dá sustentação.

 

Em “Um discurso sobre a ciência”, Santos (2004a) procura demonstrar que a crise já se instalou e que já se encontra visível um paradigma emergente apontando para uma nova ciência que, na falta de outro nome, ele denomina de “ciência pós-moderna”. De acordo com o sociólogo português, o processo histórico da crise final da ciência moderna inicia-se com a crise da epistemologia que lhe representa com maior fidelidade, isto é, a epistemologia bachelardiana. Nesse contexto, o autor aponta o reencontro da ciência com o senso comum, sugerindo uma visão alternativa que resgata os aspectos positivos dos saberes cotidianos, sobretudo o seu potencial para os projetos de emancipação social e cultural. Para Santos (2004a), justamente pelo fato de ser indisciplinar e não resultar de uma prática orientada para a produção, o senso comum é capaz de reproduzir-se espontânea e pragmaticamente sem descolar-se das trajetórias de vida dos grupos sociais. E nessa correspondência, firma-se de confiança e de segurança. Também é transparente e evidente, questionando a opacidade dos objetos tecnológicos e do obscurantismo do conhecimento científico em defesa do princípio da igualdade do acesso ao discurso e à competência cognitiva e linguística. Embora superficial quando desdenha das estruturas que estão para além das aparências, privilegiando as ações que não se descolem significativamente do real, o senso comum é exímio em captar a profundidade horizontal das relações entre pessoas e entre pessoas e coisas. Nesse sentido, é persuasivo, retórico e metafórico. Mas, conforme acredita Santos (2003), as potencialidades positivas do senso comum só conseguem se desenvolver em um contexto onde tanto ele como a ciência moderna superem a si mesmos, dando lugar a uma outra configuração de conhecimento. É, fundamentado nestes pressupostos, que defende a tese de uma dupla ruptura epistemológica:

 

Uma vez feita a ruptura epistemológica com o senso comum, o

ato epistemológico mais importante é a ruptura com a ruptura

epistemológica [...]. Enquanto a primeira ruptura é

imprescindível para construir a ciência, mas deixa o senso

comum tal como estava antes dela, a segunda ruptura

transforma o senso comum com base na ciência. Com essa

dupla transformação pretende-se um senso comum esclarecido

e uma ciência prudente,... (p.41)

 

Com efeito, no contexto de uma sociedade de classes como é em geral a sociedade conformada pela ciência moderna, a vocação solidarista e transclassista do senso comum não pode escapar de assumir um viés conservador e preconceituoso que, em muitas situações reconcilia a consciência com a injustiça e transfere para o transcendente o desejo de transformação da realidade. De acordo com Santos (2003, p.37), tal argumento não permite opor a ciência ao senso comum como se opõe a luz às trevas. Primeiro porque, embora carregado de traços conservadores, o senso comum apresenta sentidos de resistência, que, dadas as condições, podem converter-se em importantes armas de luta. Depois, os mesmos traços conservadores e preconceituosos, imputados apenas ao senso comum, têm sido verificados em muitas teorias científicas que, dado o poder institucional, acabam sendo muito mais eficazes. Por fim, pode-se dizer que, do ponto de vista de Santos, não faz mais sentido criar um conhecimento novo e autônomo em confronto com o senso comum – primeira ruptura bachelardiana – se esse conhecimento não se destinar a transformar o senso comum e transformar-se nele, fazendo a segunda ruptura.