Uma nova ciência para um novo senso comum
As rupturas epistemológicas de Bachelard
Se do ponto de vista das ciências naturais, o testemunho dos sentidos é insuficiente e na maioria dos casos, só induz ao erro, do ponto de vista das ciências sociais, as ideias forjadas a partir de opiniões cotidianas só refletem a ideologia das classes dominantes. É neste contexto que cumpre perguntar: para que serve mesmo o senso comum?
Pensamos que a partir da resposta para essa questão se estabelecerão as diretrizes e linhas de atuação no universo do que estamos chamando de PopC&T. Como já afirmamos em capítulos anteriores, as opiniões e intervenções neste universo não são uniformes e nem consensuais.
As rupturas epistemológicas de Bachelard
O encontro de Bachelard com o problema do senso comum dar-se-á através de sua indagação a respeito de como pode haver avanço no conhecimento científico. No clássico, “A Formação do Espírito Científico. Contribuição para uma Psicanálise do Conhecimento”, o filósofo francês responde a essa questão introduzindo o conceito de “obstáculos epistemológicos”. Para o autor, é em termos de obstáculos que a questão do desenvolvimento científico deve ser colocada, não em termos de obstáculos externos como a complexidade ou fugacidade dos fenômenos, e nem como a admitida culpa atribuída à fragilidade dos sentidos, mas
...é no âmago do próprio ato de conhecer que aparecem, por
uma espécie de imperativo funcional, lentidões e conflitos. É aí
que mostraremos causas de estagnação e até de regressão,
detectaremos causas de inércia às quais daremos o nome de
obstáculos epistemológicos (BACHELARD, 1996, p.17).
Embora não coloque a culpa diretamente nos sentidos e nem na fragilidade do espírito humano, o termo cunhado por Bachelard aponta uma série de atitudes e valores que de alguma forma obstaculizam o desenvolvimento do conhecimento científico e da própria ciência. Curiosamente, o senso comum aparece como um dos principais exemplos dessas atitudes. Juntamente com o preconceito, a ideologia, a idolatria e a opinião, o senso comum figura, numa concepção bachelardiana, como um dos primeiros e mais importante, obstáculos epistemológicos ao desenvolvimento do conhecimento científico. “Na formação do espírito científico, o primeiro obstáculo é a experiência primeira, a experiência colocada antes e acima da crítica – crítica esta que é, necessariamente, elemento integrante do espírito científico” (BACHELARD, 1996, p.29). Para o autor, o espírito científico deve formar-se contra a natureza, contra o que em nós e fora de nós aparece como impulso e informação da natureza, contra o arrebatamento natural e os fatos coloridos e corriqueiros.
Nesse caso, conforme o pensamento bachelardiano, uma satisfação apressada à curiosidade ao invés de benefício pode tornar-se um novo obstáculo epistemológico, substituindo o conhecimento pela simples admiração e as ideias pelas imagens.
Conforme Bachelard (1996), diante do fascínio da realidade, a alma corre o risco de tornar-se ingênua e não superar os conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que, em princípio, acreditamos saber com clareza, ofusca o que, de fato, deveríamos saber.
Outro importante obstáculo apontado na construção bachelardiana é a opinião. Para o autor, a opinião pensa mal ou não pensa e ao traduzir necessidades em conhecimentos e designar os objetos pela utilidade, interdita o conhecimento. Nesse caso, cumpre, antes de tudo, destruí-la (Idem). Além destes, a generalidade ou o conhecimento generalista também figura na filosofia de Bachelard como um forte obstáculo epistemológico. Para ele, “ Nada prejudicou tanto o progresso do espírito científico quanto a falsa doutrina do geral, que dominou de Aristóteles a Bacon, inclusive, e que continua sendo, para muitos, uma doutrina fundamental do saber” (BACHELARD, 1996, p.69). De fato, prossegue, “há um perigoso prazer intelectual na generalização apressada e fácil ...”, o que imobiliza o pensamento e ofusca a verdade (Idem, p.72). Portanto, no contexto das ideias bachelardianas, tanto a generalização como o conhecimento unitário e pragmático são classificados como importantes e difíceis obstáculos epistemológicos.