Uma nova ciência para um novo senso comum
Divulgação Científica
A alfabetização científica prática é aquela que contribui para a superação de problemas concretos, tornando o indivíduo apto a resolver, de forma imediata, dificuldades básicas que afetam a sua vida. A alfabetização científica cívica seria a que torna o cidadão mais atento para a Ciência e seus problemas, de modo que ele e seus representantes possam tomar decisões mais bem informadas. Num outro nível de elaboração cognitiva e intelectual, estaria a alfabetização científica cultural procurada pela pequena fração da população que deseja saber sobre Ciência, como uma façanha da humanidade e de forma mais aprofundada (LORENZETTI e DELIZOICOV, 2001, p.5). Para os referidos autores, um dos problemas dessa modalidade de alfabetização científica, é que, ela está disponível para um número comparativamente pequeno de pessoas. Nesse caso, seria muito importante ampliar as ações de divulgação científica permitindo um maior fluxo de informações relacionadas à ciência e tecnologia em todos os setores da sociedade.
Conforme se observa, a divulgação científica aparece aqui como uma atividade auxiliar e necessária ao desenvolvimento da alfabetização científica em sua modalidade cultural. Novamente, os autores estabelecem uma distinção entre os conceitos que, conforme já identificamos, parece situar-se na fronteira entre o ensino formal e o ensino informal. A alfabetização, mais comprometida pelo peso do próprio conceito, enquanto a divulgação, que discutiremos na próxima seção, aparece como uma forma mais geral e ligada às intervenções informais e do campo da comunicação.
Divulgação Científica
Por se tratar de um termo usado com maior frequência no Brasil, em muitos casos confundindo-se com o conceito de popularização, debruçar-nos-emos mais detidamente sobre o conceito de divulgação científica, acreditando que nos possa conduzir a um maior esclarecimento de suas implicações, numa reconhecida tentativa de escapar à falsa obviedade que esconde as sutilezas por trás de um conceito.
A pergunta de como surgiu a divulgação científica remete-nos imediatamente à problemática questão do conceito de divulgação, que pode ser entendido como o ato ou ação de divulgar; do latim, divulgare, tornar conhecido; propalar, difundir, publicar, transmitir ao vulgo, ou ainda, dar-se a conhecer; fazer-se popular.
Luiz Estrada, prêmio Kalinga 56 da UNESCO, afirma que a divulgação surge com a própria ciência, referindo-se à ciência moderna, inaugurada com a união de experimento e teoria, a partir de Galileu. Para José Reis (2002, p. 76), mais do que contar ao público os encantos e aspectos interessantes e revolucionários da ciência, a divulgação científica é a veiculação, em termos simples da ciência como processo, dos princípios nela estabelecidos, das metodologias que emprega; revelando, sobretudo, a intensidade dos problemas sociais implícitos nessa atividade.
O professor Jurdant, da Universidade Louis Pasteur, acredita que a divulgação da ciência está mais preocupada com a construção de um mito em torno da ciência que com a explicação para o público de aspectos importantes da realidade que o rodeia. Para o autor, uma forma adequada de transmitir o conhecimento científico e tecnológico poderia desafiar o monopólio dos “experts” sobre a compreensão da realidade (apud HERNANDO 2002).
Conforme a professora Sánchez Mora (2003), importante divulgadora científica no campo da literatura, a divulgação da ciência quer tornar acessível um conhecimento superespecializado, mas não se trata de uma tradução, no sentido de verter de uma língua para outra, e sim, de criar uma ponte entre o mundo da ciência e os outros mundos.
É importante notar como, na busca do conceito, a autora remete o problema para o campo da comunicação. De fato, não poderia ser diferente, considerando que qualquer ação educativa acaba sempre recaindo na questão da cultura e da comunicação. Nesse sentido, é importante a observação de Huergo (2001) ao analisar os significados transitivos e reflexivos da comunicação.
Proveniente de uma palavra latina: communis, que significa “por em comum”, a comunicação pode apresentar dois sentidos. O primeiro transitivo “comunicar”, equivalente a informar e transmitir e o segundo de comunicar-se, em diálogo horizontal com o outro. No sentido transitivo, a comunicação estaria intimamente aproximada com “divulgação”, e haveria que se supor que “comunicar” seria transmitir ao vulgo (di-vulgare), algo que um ator ou um setor social especializado possui e tem construído (HUERGO, 2001).
Admitido este significado transitivo, revelam-se duas formas anteriormente veladas de poder. A primeira, quando se constata que enquanto um é o que fala, o outro é apenas o que escuta; um é o que transmite e o outro é o vulgo destinatário da mensagem. A outra, quando reconhece que enquanto um dos interlocutores experimenta o processo de conhecimento, o outro é somente “comunicado” – no sentido de receber comunicados – ignorando-se todo o processo de conhecimento significativo presente nele. A esse respeito, Paulo Freire já nos alertava quando da definição do que chamou de “educação bancária”.
Na visão bancária da educação, o saber é uma doação dos que julgam-se
sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das
manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização
da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância,
segundo a qual esta se encontra sempre no outro (1981 p.66-67).
Esse entendimento da comunicação demonstra muito claramente a relação de verticalidade entre o divulgador e o povo. Relação que é legitimada com mais força no caso da ciência e tecnologia que, devido às “hiperespecializações”, ao rápido desenvolvimento, à sofisticação dos mecanismos e à utilização de uma linguagem própria, vem se afastando crescentemente da cultura geral.
Até o século XVII, a esfera da linguagem comum abrangia, quase
totalmente, experiência e realidade; hoje ela abrange um domínio
reduzido. Nos processos de observação, experimentação e interpretação
lógica, a ciência, em especial a física, foi abandonando a descrição e a
representação literais da realidade ... (SÁNCHEZ MORA, 2003 p.14).
Essas estruturas formais simbólicas, não tendo mais uma ligação direta com os sentidos, tornam-se cada vez mais alheias à experiência comum, dificultando substancialmente o diálogo horizontal no processo de construção
da cultura57.
Uma segunda perspectiva para o significado do conceito de comunicação é a reflexiva. Conforme essa visão, comunicação, antes que “comunicar” é “comunicar-se” num processo horizontal de compartilhamento e diálogo. O significado reflexivo da comunicação encontra lugar em várias correntes de pensamento importantes como “A teoria do agir comunicativo” do filósofo frankfurtiano Jurgen Habermas (1997) e a “Pedagogia do Oprimido” do educador Paulo Freire (1981).
De acordo com Freitag, as peças chave da teoria habermasiana são: a concepção dialógica (comunicativa) da razão e o caráter processual da verdade.
Seguindo a ideia piagetiana da descentralização, Habermas afirma que a
razão e a verdade resultam da interação do indivíduo com o mundo dos
objetos, das pessoas e da vida interior. Por isso a razão e a verdade só
podem decorrer da organização social dos atores interagindo em
situações dialógicas (1986 p.112).
Isso não significa, no entanto, que a comunicação é sempre harmoniosa. Pelo contrário, raramente ocorre uma comunicação simétrica (entre iguais) e o diálogo, mesmo quando possível, não inviabiliza o conflito. Nesse sentido, é importante compreender a comunicação dialógica como um encontro entre diferentes e não como acordo entre iguais.
Contrapondo-se ao modelo “bancário” e domesticador da educação, Paulo Freire (1981), embora não tenha proposto uma teoria da educação, sugere uma concepção dialógica e problematizadora do ato educativo que, em certo sentido, se aproxima de Habermas. Fundamentada na crença inabalável no homem como um ser inconcluso e consciente de sua inconclusão, dirigindo-se permanentemente em busca de ser mais, a educação libertadora, ou como foi chamada em uma de suas obras, a “educação como prática da liberdade”, “ao contrário daquela que é prática da dominação, implica na negação do homem abstrato isolado, solto, desligado do mundo, assim também na negação do mundo como uma realidade ausente dos homens”, assume, portanto, um caráter autenticamente reflexivo da comunicação e a dialogicidade como essência do ato educativo.
A partir dessas duas visões distintas ligadas ao conceito de comunicação, podemos identificar algumas tendências que referenciam algumas práticas de divulgação científica e prosseguir no caminho da diferenciação de conceitos e maior clareza do que entendemos como PopC&T.
Uma tendência muito forte, talvez hegemônica, é aquela fundamentada na difusão de uma espécie de desenvolvimentismo sem limites. Nesta perspectiva, existe uma preocupação em difundir, generosamente, a racionalidade e a cultura modernizada das nações desenvolvidas para as nações subdesenvolvidas ou de setores sociais privilegiados àqueles considerados excluídos. Os proclames 1 e 3 – “A ciência a serviço do conhecimento e o conhecimento a serviço do progresso” – da Conferência Mundial da UNESCO (1999) sobre a Ciência para o Século XXI revelam claramente a força dessa tendência.
Esta concepção ingênua, ancorada em uma visão utópica da ciência e da tecnologia, resulta, não muito raramente, em intervenções apaixonadas e equivocadas de divulgação científica. A falsa crença, quase religiosa, de que a ciência é desenvolvida para o benefício de toda a humanidade e que certamente solucionará todos os nossos problemas, reforça a desarticulação entre ciência, sociedade e poder, apresentando os processos como despojados de todo conflito. Nessa perspectiva, segundo Habermas (apud Huergo, 2001), a comunicação (divulgação) adquire o sentido de “profanação”, isto é, de iluminar o que está escuro ou comunicar o que está calado (tanto a natureza como a cultura popular equiparadas a forças naturais). Por outro lado, também assume o sentido de disciplinamento dessas forças naturais (presentes na natureza e também nas culturas populares). O domínio e controle dessas forças como possibilidade de controle da vida social. Daí se consagra a ideia de que para viver em sociedade é necessário um modo de comunicação determinado: racional, transparente, ordenado e controlado. “Como não há nada que não tenha o seu contrário, na medida em que os invadidos vão reconhecendo-se inferiores, necessariamente irão reconhecendo a superioridade dos invasores” (FREIRE 1981, p.178).