Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 13 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

A filosofia Kantiana e os limites da faculdade de conhecer

 

Nascido na Prússia três anos antes da morte de Newton, Immanuel Kant (1724-1804) sofreu toda a influência da Matemática e da Física que dominaram quase que exclusivamente o cenário das ciências naturais durante os séculos XVIII e XIX. Em sua obra principal, “Crítica da Razão Pura” defende a tese de que existem conhecimentos a priori e para além dos dados empíricos. Por conseguinte, a faculdade de conhecer não é dada pelo objeto, mas o objeto é que é regulado pela faculdade de conhecer. Nesses termos, estabelece o seu projeto de trabalho, isto é, investigar a existência de princípios apriorísticos que possibilitariam as sínteses construídas a partir dos dados empíricos. Para Kant (1983, p.23), “Não há dúvida que todo o nosso conhecimento começa com a experiência; do contrário, por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser despertada para o exercício senão através de objetos que toquem nossos sentidos...”. Contudo, embora em termos de tempo, todo conhecimento comece com a experiência, isto não significa que se origina nela. Com efeito, poderia ocorrer que o conhecimento fosse um composto daquilo que recebemos por impressão e daquilo que a nossa própria faculdade de conhecer fornecesse por si mesma. Para Kant, essa era uma questão que, no mínimo, mereceria uma investigação mais cautelosa e, embora reconheça a importância dos argumentos empiristas, acredita que, “se um juízo é pensado com universalidade rigorosa, isto é, de modo a não lhe permitir nenhuma exceção como possível, então não é derivado da experiência, mas vale absolutamente a priori”. Portanto, conclui Kant, “é fácil mostrar que no conhecimento humano realmente há semelhantes juízos necessários e universais no sentido mais rigoroso,...” (p.24). Por exemplo, nenhuma imagem de um triângulo alcançaria a universalidade do conceito.

Ao contrário, o esquema de um conceito puro do entendimento

é algo que não pode ser levado a nenhuma imagem, mas é

somente a síntese pura conforme uma regra da unidade,

segundo conceitos em geral que expressa a categoria e é um

produto transcendental da capacidade de imaginação que

concerne à determinação do sentido interno em geral, segundo

condições de sua forma (o tempo) (KANT, 1983, p. 105/106).

 

Na realidade, são duas as formas que determinam o sentido interno: o espaço e o tempo, ambos tomados por Kant como formas a priori da sensibilidade. Nesse sentido, não é a realidade externa ao sujeito que produz a noção de espaço e de tempo, mas o fato de possuir o espaço e o tempo como estruturas apriorísticas de sua sensibilidade que permite ao sujeito perceber os objetos como relacionados espaço-temporalmente. A filosofia kantiana em sua firme defesa da existência de conhecimentos a priori e por uma questão de coerência lógica, deverá conduzir a uma conclusão revolucionária: não é possível conhecer a realidade em si mesma (noumenon), mas apenas os fenômenos frutos da síntese entre as impressões dos sentidos e as faculdades apriorísticas do ato de conhecer.

 

A partir de Kant, o problema da possibilidade ou não de um conhecimento verdadeiro assume um patamar diferente. Ao introduzir a ideia de uma coisa em si, o filósofo alemão estabelece limites à possibilidade cognoscível, fazendo uma distinção entre o mundo dos fenômenos (aparência) e o mundo dos noumenos (a realidade em si). Esta última não seria completamente cognoscível, e o conhecimento estaria condicionado a limites interpretativos que condicionam a atividade racional do homem como estruturas existentes a priori (espaço e tempo absolutos), e desde sempre, na razão humana. Em sua “Crítica da Razão Pura” Kant (1983) defende a tese de que a aquisição do conhecimento depende da percepção, imaginação e entendimento, em uma espécie de aliança entre o pensamento puro e as experiências dos sentidos.

 

Na verdade, esta é uma discussão filosófica que remonta ao debate entre o idealismo cartesiano e o empirismo de Hume. Nesse confronto, Descartes colocava o pensamento como única possibilidade de enfrentar os equívocos das experiências baseadas nos sentidos e os erros da ciência. De modo que, poder-se-ia duvidar de tudo, inclusive da própria existência do mundo, do corpo e do próprio pensamento. Mas se há dúvida é porque pensamos, e se pensamos, é porque existimos. A razão é para Descartes o principal critério de verdade do discurso científico. Nesse sentido, concordamos com Acanda (2001, p.3) que, ao abandonar a concepção cartesiana de um sujeito autocentrado para fazer uma reflexão sobre os elementos que condicionam a atividade gnosiológica do indivíduo, Kant realiza uma espécie de “revolução copernicana” na filosofia, convertendo-a a partir de então, em filosofia crítica.