Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 38 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Senso comum e ideologia: uma resposta gramsciana

Conforme o pensamendo de Bachelard (1996, p.11), a formação do espírito científico desenvolve-se através de três estados: o estado concreto, o estado concreto-abstrato e o estado abstrato. No primeiro estado, o espírito ainda se entrete com as primeiras imagens do fenômeno, apoiando-se na filosofia, exaltando a natureza e louvando curiosamente a unidade e a diversidade do mundo. No estado concreto-abstrato, embora inseguro de sua abstração, acrescenta esquemas geométricos às experiências físicas, apoiando-se em uma filosofia da simplicidade em que as abstrações ainda são representadas por uma espécie de intuição sensível. Por fim, no estado abstrato, o espírito adota informações voluntariamente subtraídas à intuição do espaço real, voluntariamente desligadas da experiência imediata e até em polêmica com a realidade primeira, sempre impura e informe. É no percurso desses estados que se encontram os obstáculos epistemólógicos, prejudicando o desenvolvimento científico e construindo uma ciência precária e sustentada nas inconsequências do senso comum.

 

Senso comum e ideologia: uma resposta gramsciana

 

É no contexto de recuperação de um significado orgânico das ideologias que se encontra a resposta de Gramsci para o lugar do senso comum dentro da estrutura ideológica. Conforme o marxista italiano, a afirmação e difusão da ideologia é um processo pensado e guiado hegemonicamente, isto é, os grupos sociais, econômica e politicamente dominantes, difundem, através de uma estrutura ideológica organizada, a sua visão de mundo que passa a ser absorvida pela maioria da sociedade. Num estado mais elevado, esta concepção de mundo é incorporada como filosofia, num estado inferior, como folclore e num estado intermediário, como religião e senso comum. Portanto:

 

A filosofia do senso comum é a filosofia dos não filósofos, isto

é, a concepção do mundo absorvida acriticamente pelos vários

ambientes sociais e culturais nos quais se desenvolve a

individualidade moral do homem médio (GRAMSCI, 1981, p.

143).

 

Nesse caso, distante de uma concepção original e coerente própria das classes populares, o senso comum caracteriza-se como uma visão distorcida, desagregada e incoerente do mundo; uma compreensão difusa de uma realidade marcada pela presença da ideologia dos grupos dominantes. Por conseguinte, avançar do senso comum para a consciência filosófica “significa passar de uma concepção fragmentária, incoerente, desarticulada, implícita, desagregada, mecânica, passiva e simplista a uma concepção unitária, coerente, articulada, explícita, original, intencional ativa e cultivada” (SAVIANI, 1980, p.10). Essa passagem exigirá uma educação comprometida com a construção de uma nova hegemonia, além de uma nova categoria de intelectuais engajados com a formação e os interesses das classes populares. Nesse processo, Gramsci reconhece que, não existindo nenhuma atividade humana na qual se possa excluir toda intervenção intelectual, todos os homens são intelectuais.

 

No seu trabalho, que nunca pode ser reduzido só à capacidade

técnica-manual (enquanto trabalho humano), mas também, fora

do seu trabalho cada homem é um intelectual, um filósofo,

enquanto participa de uma determinada concepção do mundo,

tem gostos artísticos e se comporta de acordo com uma linha

de conduta moral... (GRAMSCI, 1979, p. 8).