Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 43 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Capítulo IV - Popularização da ciência e tecnologia: limitações e possibilidades

Capítulo IV

 

Popularização da ciência e tecnologia:

 

limitações e possibilidades

 

Introdução

 

“As pessoas e os grupos sociais têm o

 

direito à igualdade quando a diferença

 

os inferioriza, e o direito a ser diferentes

 

quando a igualdade os descaracteriza”

 

(Boaventura Santos).

 

Já se tornou consensual, pelo menos nas falas acadêmicas, o fato de estarmos acelerando a passos largos na direção de uma sociedade cada vez mais dependente da ciência e da tecnologia. Um modelo social que, especialmente impulsionado a partir do século XIX, passou a depositar na ciência e na tecnologia as suas maiores esperanças. Uma sociedade do conhecimento que, de acordo com Assmann (1998), deverá sustentar-se em uma cultura “aprendente”.

 

Por outro lado, não se pode desdenhar o fato de que, desde o simples domínio das técnicas de controlar o fogo, até os projetos secretos da NASA, ou os segredos da engenharia genética e da farmacologia, sem falar dos mistérios das pesquisas armamentistas, o conhecimento encontra-se em paradoxal conflito entre a disponibilização e o controle, constituindo-se em uma antiga questão de poder que, paralela ao seu crescimento, criou uma série de obstáculos no caminho de seu domínio e acesso.

 

Esses são apenas dois dos vários argumentos e justificativas relacionados aos porquês de “popularizar a ciência”. Embora a maioria dos cientistas e comunicadores entre em acordo quanto à necessidade de tal empreendimento, as bases teóricas, os interesses e os objetivos, são diversos e até mesmo antagônicos. Afinal, o que deve tornar-se conhecido? Quem decide sobre o que deve ser publicado? O que deve fazer-se popular? Por que estas ações são importantes? Quem deve assumir a responsabilidade por tal empreendimento?

 

A luz de toda discussão desenvolvida na primeira parte deste trabalho, objetivamos durante este último capítulo, analisar alguns dos principais argumentos apresentados em defesa das políticas públicas de PopC&T no Brasil, revelando as limitações e possibilidades envolvidas nesta complexa interface entre o conhecimento científico e os saberes populares. Começando pelo enfrentamento de uma reconhecida confusão conceitual que vem acompanhando este debate ao longo dos anos. Neste sentido, aproveitamos a primeira seção para desenvolver uma revisão conceitual em torno da problemática questão do conceito de PopC&T em sua relação com uma série de outros termos que em muitas falas e artigos aparecem como se quisessem designar uma mesma forma de intervenção: Difusão, Divulgação, Alfabetização e Vulgarização são os exemplos de uso mais frequente no Brasil.

 

Assim, conforme já discutimos em um artigo recente, (GERMANO, 2007), partindo do pressuposto de que “dentro de uma unidade estrutural lingüística se estabelecem relações associativas que se vão desdobrando entre os campos significativos dos vários termos” (BALLY, apud FREIRE, 1971 p.21), procedemos a uma análise das palavras: difusão, vulgarização, alfabetização, divulgação e popularização, todas elas relacionadas à questão do acesso ao conhecimento científico, fio condutor que liga todos estes termos à palavra ciência. Em seguida, problematizamos alguns daqueles que relacionamos como os mais disputados argumentos em defesa de uma suposta e necessária PopC&T. Começando pelo argumento mais utilizado em nosso país, isto é, a PopC&T como fator de inclusão social, recorremos inicialmente a uma digressão histórica que, à luz do entendimento da ciência como manifestação particular da cultura geral e utilizando o trabalho como categoria fundante, procura entender a contradição de uma “sociedade do conhecimento” em que a maioria dos cidadãos flagram-se excluídos dos limites mínimos de compreensão dos processos de produção desse conhecimento. Ainda na mesma seção, e a partir do discurso oficial, apresentamos algumas das principais justificativas para a PopC&T no contexto das políticas públicas desenvolvidas através do MCT, apontando as possibilidades e limitações envolvidas em algumas daquelas propostas.

 

Iniciamos discutindo o principal argumento apresentado pelo Departamento de Popularização e Difusão da Ciência que se refere a PopC&T como uma das mais importantes iniciativas de inclusão social. Na mesma direção e muito próximo da ideia de inclusão social, por vezes até confundindo-se com ela, situam-se aqueles argumentos relativos ao necessário controle social da ciência e tecnologia por parte da população, temática enfrentada na segunda seção deste capítulo. As justificativas em favor de uma maior qualidade da apreciação estética e do combate às pseudociências, a partir de visões de cunho científico, serão as temáticas da terceira e quarta seções. Além desses, ainda enfrentamos os argumentos relacionados às maiores perspectivas em torno de inovações tecnológicas e desenvolvimento econômico que, a partir de uma maior PopC&T e do crescimento do número de jovens cientistas, conduziria a um crescente apoio da sociedade aos projetos científico-tecnológicos.