Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 26 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

A ciência normal e as revoluções científicas de Kuhn

Contudo, só reconhecerei um sistema como empírico ou

científico se ele for passível de comprovação pela experiência.

Essas considerações sugerem que seja tomado como critério

de demarcação não a verificabilidade, mas a falseabilidade de

um sistema. [...] deve ser possível refutar, pela experiência, um

sistema científico empírico (2002, p.42).

 

Como se observa, Popper não exige que um sistema científico seja dado como definitivamente válido, em um sentido positivo do termo, mas que sua forma lógica esteja aberta à validação através de provas empíricas em um sentido negativo. Portanto, uma teoria é falsificável se, e somente se, apresentar pelo menos um elemento potencialmente falsificador, isto é, algum enunciado que permita uma contestação clara da teoria. Nesse caso, como sugere Lakatos (1999), a honestidade intelectual não consiste em abrir trincheiras ou estabelecer uma posição comprovando-a, mas em especificar, com clareza e precisão, em que condições o indivíduo está disposto a desistir de sua posição. Conforme afirma Popper,

 

... aquilo que caracteriza o método empírico é sua maneira de

expor à falsificação de todos os modos concebíveis, o sistema a

ser submetido a prova. O seu objetivo não é o de salvar a vida

de sistemas insustentáveis, mas, pelo contrário, o de selecionar

o que se revele, comparativamente, o melhor, expondo-os todos

a mais violenta luta pela sobrevivência (2002, p.44).

 

No entanto, de acordo Silveira (1996b), o racionalismo crítico ainda aponta um critério de verdade objetiva como ideia reguladora, isto é, um padrão do qual podemos ficar abaixo, como se existisse uma verdade da qual sempre é possível aproximar-se, mas sem nunca poder alcançar. O falsificacionismo de Popper será criticado por Tomas Kuhn, tanto no que se refere ao entendimento das revoluções científicas como no critério de validação da ciência.

 

A ciência normal e as revoluções científicas de Kuhn

A nova concepção de ciência apresentada por Thomas Kuhn 26 (2003) diferencia-se das ideias de Popper em pontos essenciais, embora mantenha a crítica ao empirismo indutivista e reconheça o caráter construtivo e processual do conhecimento científico.

 

Em termos gerais, a epistemologia de Kuhn propõe a existência dos

chamados períodos de 27 ciência normal nos quais a comunidade científica “converte-se” a um determinado paradigma que mais tarde será confrontado e interrompido por uma revolução científica, seguindo-se um outro período de ciência normal, nova revolução científica, e assim por diante.

 

Enquanto Popper estabelece o falsificacionismo como o principal critério de cientificidade, para Kuhn (2003), é na existência de um paradigma capaz de sustentar uma tradição de ciência normal que se verifica a distinção entre ciência e não-ciência. É exatamente o recuo da crítica que inaugura a transição para uma ciência. Desse ponto de vista, as teorias não são falsificadas por comparações diretas com a natureza, mas por adoção de um novo paradigma revolucionário e incompatível com o anterior. Semelhante a Popper, o problema de Kuhn também está relacionado com as revoluções científicas. Porém, enquanto Popper entende a ciência como um processo permanente de críticas e revoluções, para Kuhn, as revoluções são excepcionais e extraciêntificas, ou seja, em tempos de ciência normal, as críticas são temidas e exorcizadas.

 

A ciência normal, atividade na qual a maioria dos cientistas

emprega inevitavelmente quase todo o seu tempo, é baseada

no pressuposto de que a comunidade científica sabe como é o

mundo. Grande parte do sucesso do empreendimento deriva da

disposição da comunidade para defender esse pressuposto [...]

a ciência normal frequentemente suprime novidades

fundamentais, porque estas subvertem necessariamente seus

compromissos básicos (KUHN, 2003, p. 24).

 

Nesse sentido, considera falsificacionismo ingênuo acreditar que com base na simples refutação se pode desqualificar uma teoria fortemente estabelecida. Conforme a tese de Kuhn, só nos raros momentos de crise é possível à refutação e eliminação de uma teoria. Apenas quando a comunidade científica não consegue mais esquivar-se das anomalias que subvertem os fundamentos das práticas tradicionais da ciência normal, iniciam-se as investigações extraordinárias que, possivelmente, conduzirão a um novo quadro de compromissos, garantia de uma nova prática de ciência normal. São estes episódios extraordinários que Tomas Kuhn, denomina de revoluções científicas. É justamente durante esses períodos que irrompe uma nova e revolucionária visão de mundo, exigindo uma ruptura com a antiga situação na qual a comunidade científica estava familiarizada. A partir de então, o mundo de suas pesquisas tornar-se-á “incomensurável com o que habitava anteriormente” (KUHN, 2003, p. 148). Consequentemente, a superioridade de uma teoria sobre outra não pode ser demonstrada através de uma simples discussão, mas, conforme sugere Kuhn, apenas através de tentativas de persuasão. No entanto, mesmo essas tentativas de persuasão são problemáticas e o próprio autor reconhece o problema.

 

percebem a mesma situação de maneira diversa e que, não

obstante isso, utilizam o mesmo vocabulário para discuti-la,

devem estar empregando as palavras de modo diferente. Eles

falam a partir daquilo que chamei de pontos de vista

incomensuráveis. Se não podem nem se comunicar como

poderão persuadir um ao outro (2003, p.249)?

 

Em todo caso, ainda resta aos interlocutores que não se compreendem mutuamente o reconhecimento de que são membros de diferentes comunidades de linguagem, para a partir de então, tornarem-se tradutores. Esta é a solução final apresentada por Kuhn.

 

Contudo, admitindo-se a incomensurabilidade entre paradigmas, a natureza do argumento científico seria muito mais persuasiva que verdadeira e, na visão de Kuhn, “os tipos de fatores que se mostram eficientes em fazer com que os cientistas mudem de paradigma é uma questão a ser resolvida através da investigação psicológica e sociológica” (CHALMERS, 1993, p.133). Considerando que a Psicologia e a Sociologia não possuíam o status de ciência, era natural que a epistemologia kuhniana fosse acusada de promover o relativismo irracional, sobretudo porque não apresentava nenhum critério universal que oferecesse a garantia de que um dos paradigmas aproximava-se mais da verdade do que o outro. A esse respeito, Lakatos (1999, p. 10) reclama: “lamento fundamentalmente que Kuhn, depois de reconhecido o insucesso do justificacionismo e do falsificacionismo em fornecer descrições racionais do desenvolvimento científico, pareça agora inclinar-se para o irracionalismo”