Uma nova ciência para um novo senso comum
Novos rumos nas Ciências Sociais
A crise, no entanto, continua avançando e conforme Hobsbawm (1995) atinge até os domínios da matemática. Kurt Godel, um lógico matemático austríaco, provou que um sistema de axiomas não pode se basear em si mesmo. Se quer ser provado como consistente, é necessário empregar princípios de fora do sistema. Não se poderia pensar sequer num mundo consistente internamente. A confusão que atinge essa época é melhor traduzida nas palavras de Planck:
Estamos vivendo um momento bastante singular da história. É
um momento de crise no sentido literal desta palavra. Em cada
ramo de nossa civilização espiritual e material parecemos ter
chegado a um ponto de virada crítico. Esse espírito se mostra
não só no estado real dos assuntos públicos, mas também na
atitude geral em relação a valores fundamentais na vida
pessoal e social [...] Agora o iconoclasta invadiu o templo da
ciência. Dificilmente haverá um axioma científico que não seja
hoje negado por alguém. E ao mesmo tempo praticamente
qualquer teoria idiota quase certamente teria crentes e
discípulos num lugar ou noutro (apud HOBSBAWM, 1995,
p.523).
Toda essa confluência revolucionária não se limitará ao universo das ciências naturais, nem ao campo particular da Física. Em muitas outras áreas das ciências também serão constatadas importantes rupturas que prenunciam o nascimento de novos modelos paradigmáticos.
Novos rumos nas Ciências Sociais A nova maneira determinista de tratar a natureza iniciada com a especulação ativa e modelar proposta por Galileu e generalizada por Newton possibilitou a ciência moderna um poder de explicação da realidade tão peculiar e convincente que passou a influenciar diretamente as ciências sociais. Não era difícil concluir que os mesmos métodos matemáticos e experimentais tão satisfatoriamente aplicados ao território da Física, não pudessem ser utilizados nas ciências sociais. No entanto, as primeiras tentativas foram decepcionantes e, de acordo com Bernal (1977), mesmo filósofos respeitados como Spinoza e Leibniz, não conseguiram convencer que as questões de ética e moral poderiam ser aferidas com o mesmo rigor da geometria.
Ainda no contexto do século XVII, um outro tipo de estudo se revela promissor. São as estatísticas sobre a vida que encontram o seu ponto de partida na obra Comentário sobre as taxas de mortalidade. Uma tentativa de Graunt (1620-1674) em aplicar critérios de medição ao campo social. De acordo com Castro (2007), as estatísticas aplicadas à Sociologia serão uma verdadeira febre no século XIX.
Em uma cultura nascente que passa a valorizar as ciências exatas quase como uma religião, não é nenhuma surpresa o surgimento de uma Sociologia influenciada por este movimento, uma espécie de
Sociologia positiva 22 que pretendia antever os acontecimentos sociais com a mesma metodologia empregada pelas ciências naturais; uma espécie de “interpretação física” aplicada ao dinamismo social. Os nomes de Bacon, Locke, Hobbes, Vico e Montesquieu são precursores desse movimento que, mais tarde, é ampliado e aprofundado para as visões que fundamentam as obras de Kant, Comte, Spencer Durkheim e todo o iluminismo dos séculos XVIII e XIX.
Coerente com a crença na plasticidade da natureza humana, Bacon (15611626) sustenta a possibilidade de seu aperfeiçoamento, isto é, dadas às condições sociais, jurídicas e politicamente adequadas, à semelhança das condições iniciais utilizadas nas ciências naturais, também seria possível determinar, com perfeito rigor, o aperfeiçoamento da sociedade futura. De outro lado, uma importante contribuição para a teoria política moderna foi a publicação, em 1651, da obra “Leviatã” de autoria de Hobbes. É nessa obra que o autor apresenta uma justificação racional em favor do absolutismo, defendendo a tese de que a vida em sociedade seria inviabilizada se os homens tivessem a liberdade de agir livremente. Se em seu estado de natureza, o homem é egoísta e lobo do próprio homem, só um poder absoluto poderia garantir a estabilidade social. Na contramão deste projeto, Locke (1633-1704), como um dos principais defensores do liberalismo econômico e político, defende a tese de um Estado Civil e Político em que os homens decidem estabelecer um pacto através do qual criam o Estado e a Sociedade, garantindo ao mesmo tempo a propriedade individual, a liberdade e a segurança. Além disso, Locke também é responsável por uma das primeiras tentativas de aplicar os novos métodos matemáticos ao comércio.
Montesquieu (1689-1755), em sua obra principal, “O Espírito das Leis”, procura estabelecer uma relação unívoca entre as leis do sistema jurídico e as leis da natureza e pode ser considerado um precursor da sociologia do direito. Aos nomes destes importantes pioneiros da sociologia moderna, ainda devemos acrescentar a contribuição de Rousseau, com a sua teoria da virtuosidade inata do homem e a proposta de um novo contrato social.
Diferente da maioria dos iluministas, Rousseau alerta para os desastres que o progresso estava trazendo para a humanidade e reconhece que as ciências podem ser perigosas justamente pelos feitos que produzem.
Também merece destaque nesse contexto de ascensão das ciências sociais no século XVIII, os trabalhos dos enciclopedistas Diderot e Voltaire, sobretudo, pelas críticas vorazes dirigidas à Igreja que certamente contribuíram para minar a fé no já agonizante mundo medieval. Todavia, conforme afirma Bernal (1977), a todas essas correntes faltava à capacidade de reunir simultaneamente a mentalidade histórica e prática. Uma exceção seria o caso de Vico (168-1744), o primeiro a enfrentar o problema da contradição entre a liberdade e a imprevisibilidade das ações individuais e a determinação possível das ações coletivas. Vico reconhece que a literatura e as leis do passado refletem as características do desenvolvimento social de seu tempo e a sociedade, em todo o seu comportamento, constitui uma unidade sujeita a transformações em que os movimentos da história, determinam a natureza das instituições. Mas é em Marx que Bernal vai identificar uma verdadeira ciência da sociedade. Se a tecnologia havia encontrado a solução de seus problemas através das ciências físicas e de sua capacidade de conhecer os mecanismos da natureza para poder controlá-la, o que faltava no século XIX era o aparecimento de uma ciência da sociedade que pudesse assegurar o controle da sociedade pelas pessoas que a compunham. “A criação desta ciência da sociedade estava destinada a ser a grande façanha de Karl Marx e Friedrich Engels” (BERNAL, 1977, p.1101).
A partir da teoria marxista, as análises sociológicas se bifurcam em dois grupos distintos e rivais: os comunistas e os liberais. Três representantes importantes da sociologia liberal do século XIX são: August Comte (1798-1857), Herbert Spencer (1820-1903) e Émile Durkheim (1858-1917). O primeiro acreditava que a partir de um novo método baseado na ciência positiva, que substituísse as antigas interpretações religiosas e filosóficas, seria fácil alcançar um ordenamento perfeito da sociedade. Além de dogmática e reacionária a sociologia de Comte era uma aplicação grosseira das ciências físicas ao campo social. Spencer, como fiel defensor do capitalismo liberal, procederá a uma reformulação na sociologia de Comte lhe fornecendo novas bases, a partir de conhecimentos biológicos. Sua teoria se baseia em uma suposta lei do aumento contínuo e necessário da complexidade e diferenciação no mundo, mais do que na observação dos mecanismos materiais que a explicam. Para Durkheim, o fundador da sociologia acadêmica, era necessário estudar os fenômenos sociais como se fossem fenômenos naturais, reduzindo os fatos sociais às suas dimensões externas, observáveis e mensuráveis. Como já referimos, uma verdadeira obsessão pela medida e pelas estatísticas, marcará as ciências sociais no século XIX.
Para estes pensadores do iluminismo apenas na aparência a
história era um amontoado de acontecimentos, ocorridos ao
acaso. A verdadeira face do ser aparecia na ordem dos eventos
segundo os aspectos universais e imutáveis da razão, cabendo,
portanto, ao exercício metódico do conhecimento o trabalho de
controle do acaso, por meio do enunciado dos princípios e leis
que organizam o mundo da natureza e dos homens (DE
DECCA apud SCOCUGLIA, 1997, p.121).
Apesar de a vertente mecanicista ter predominado, bem como a ideia de que as ciências sociais nasceram para ser empíricas, pensamento que prevaleceu ao longo de todo século XIX e parte do século XX, na visão de Santos (2004a), uma outra corrente marginal, hoje cada vez mais reconhecida, sempre reivindicou um estatuto epistemológico e metodológico próprio, com base na particularidade do ser humano em relação à natureza. Conforme essa visão, as ciências sociais serão sempre subjetivas, analisando os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas práticas. Nesse caso, são necessárias metodologias e epistemologias diferentes daquelas utilizadas nas ciências naturais, métodos qualitativos que possam conduzir a um conhecimento intersubjetivo, descritivo e compreensivo, em lugar de um conhecimento objetivo, quantitativo e explicativo.
De fato, a própria crise no contexto das ciências naturais, particularmente as novas criações no campo da física contribuiu para questionar as bases teóricas do positivismo, do evolucionismo sociológico e do marxismo. A nova realidade exigiu uma revisão dos excessos deterministas, recolocando em outros patamares a questão da subjetividade e da objetividade do conhecimento científico. Esta nova concepção de ciência social caracteriza-se numa postura antipositivista e, de acordo com Santos (2004a), assenta na tradição filosófica da fenomenologia e nela convergem diferentes variantes, a exemplo da sociologia de Max Weber e de Peter Winch.
Como na ciência clássica, a historiografia também vai construir seus principais modelos paradigmáticos no século XIX e princípios do século XX. Para Martins (2004), a evolução da historiografia aparece com o que se chama de fundamentação metódico-documental, essencial para a disciplina acadêmica contemporânea, desenvolvida pelos tratadistas do século XIX e da primeira década do século XX. Portanto, a disciplina da historiografia, no sentido moderno do termo, foi fundada, na transição do séc. XIX para o XX, mediante um primeiro corpo de regras e normas metodológicas fixado sob influência do positivismo e do historicismo. No entanto, nas décadas de 1920 e sobretudo de 1930, mudanças fundamentais ocorreram tanto na maneira de considerar as formas constitutivas da historiografia quanto em muitos outros campos da criação intelectual. Mudanças que vão resultar em novas concepções que rejeitam a historiografia na antiga linha metódico-histórica.
Conforme Martins (2004), os três grandes núcleos da inovação historiográfica que predominaram na segunda metade do séc. XX — a historiografia marxista, a Escola dos Annales e a historiografia quantitativa — surgiram e se articularam em torno de centros de interesse bem diversos e alcançaram graus muito distintos de coesão e homogeneidade. Parte substancial dessa novidade está não apenas na multiplicidade de paradigmas, mas, especialmente, na circunstância de que os paradigmas operaram de modo praticamente simultâneo, sem constituir uma sequência de substituições.
Nos anos oitenta, constata-se uma mudança no panorama das tendências e ensaios no campo da teoria e da pesquisa social em seu conjunto, incluída a historiografia em todas as suas variações. A época das grandes propostas paradigmáticas, como as do marxismo, dos Annales e do quantitativismo estrutural, que se estendeu dos anos 1940 até os 1980, sucedeu a fase da crise dos paradigmas e da busca de novas formas de investigação e de expressão. Assim, ao se encerrar o séc. XX, a grande linha de desenvolvimento que fez da história um inegável êxito cognitivo ao longo de mais de cinquenta anos, parece ter sofrido uma forte inflexão, da qual resultou a perda de atrativo da história-ciência em benefício da história-ensaio.