Uma nova ciência para um novo senso comum
Feyerabend e o anarquismo epistemológico
De fato, conforme reconhece Feyerabend (2007), depois de Kuhn, Lakatos foi um dos poucos pensadores que, para além do debate inoperante entre os neopositivistas do círculo de Viena e o racionalismo crítico, enfrentou, com maior perspicácia, o problema da discrepância entre ciência e racionalidade, tentando eliminá-la por intermédio de uma complexa e interessante teoria da racionalidade. Contudo, conclui o autor, não logrou êxito em seu projeto.
Feyerabend e o anarquismo epistemológico
Se o fato de reconhecer a natureza construtiva da ciência e o seu caráter aproximativo em relação à verdade colocou os nomes de Kuhn, Popper e Lakatos como inimigos da ciência, certamente o
nome de Feyerabend29 seria acrescentado a esta lista como o pior de todos eles. Amigo íntimo de Lakatos, Feyerabend trilha por caminhos diferentes e compartilha ideias estranhas às do companheiro. É a partir desta divergência intelectual que, seguindo uma sugestão e cobrança de Lakatos, surge à obra Contra o Método e, conforme reconhece o próprio Feyerabend ao escrever o prefácio à primeira edição, deveria ter sido publicada em conjunto com uma réplica produzida pelo amigo. Com a morte de Lakatos, em 1974, o texto foi publicado sem a esperada refutação. “Publiquei, sem sua réplica, minha parte de nosso empreendimento comum” (FEYERABEND, 2007, p.7).
Em sua investida contra o método, Feyerabend, com o seu reconhecido anarquismo metodológico, defende a tese de que o conhecimento não é uma gradativa aproximação da verdade, mas antes um oceano de alternativas mutuamente incompatíveis e em muitos casos, incomensuráveis. As questões centrais que orientam suas teses são postas da seguinte maneira:
É possível assim criar uma tradição que é mantida coesa por
regras estritas, e até certo ponto, que também é bem-sucedida.
Mas será que é desejável dar apoio a tal tradição a ponto de
excluir tudo mais? Devemos ceder-lhe os direitos exclusivos de
negociar com o conhecimento, de modo que qualquer resultado
obtido por outros métodos seja imediatamente rejeitado? E será
que os cientistas invariavelmente permaneceram nos limites
das tradições que definiram dessa maneira estreita (2007,
p.34)?
Naturalmente, as respostas para todas estas indagações são negações que constituem a essência da tese de Feyerabend. Para o autor, “cada teoria, cada conto de fadas e cada mito que faz parte da coleção, força os outros a uma articulação maior, todos contribuindo, mediante este processo de competição para o desenvolvimento de nossa consciência” (Idem, p.46).
Mas se não é tarefa da ciência a busca gradativa da verdade, então, qual será mesmo o seu objetivo? De acordo com Feyerabend (Idem, p.47), “é tornar forte a posição fraca, como diziam os sofistas, e, desse modo, sustentar o movimento do todo”. Nesse sentido, a sua crítica abrange tanto o racionalismo em sua versão original como o racionalismo crítico de Popper e Lakatos. Por outro lado, aproxima-se de Kuhn no que se refere à incomensurabilidade dos paradigmas contrários e, embora admita certa possibilidade de comparação entre estes, assevera que esta só pode ser feita com base em argumentos subjetivos. Nesse caso, o que permanece, depois de removidas as possibilidades de comparações lógicas entre teorias, são julgamentos estéticos, preconceitos metafísicos, desejos religiosos, enfim, o que permanece de fato, são argumentos de natureza subjetiva.
Além de reconhecer o caráter subjetivo que envolve as verdades do discurso da ciência, Feyerabend também enfrenta a questão da comparação do conhecimento científico com outras formas de conhecimento, radicalizando pontos de vista controvertidos e revolucionários. Para ele, a ciência é uma ideologia e como tal não deve pretender-se superior aos mitos, à teologia, à metafísica e outras formas de cosmovisão. Nesses termos, um Estado laico e democrático não pode adotar uma racionalidade científica.