Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 46 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Alfabetização científica

Mas, a difusão da ciência também pode ser entendida de uma forma mais ampla. Na opinião de Albagli (1996), por exemplo, refere-se a “todo e qualquer processo usado para a comunicação da informação científica e tecnológica”, de modo que, pode ser orientada tanto para os próprios especialistas, no contexto da própria comunidade científica, como para o público leigo. No primeiro caso, assemelha-se a disseminação e no segundo, à divulgação científica. Aqui também se observa a utilização ambígua do conceito que ora aparece como difusão, ora se redefine como divulgação. Nesse sentido, é necessário aproximar-se com maior cautela de cada um dos termos e evitar simplificações conceituais que sempre prejudicam a compreensão mais fiel dos fenômenos.

 

Seja como comunicação científica entre os pares, seja como propagação de ideias e feitos tecnológicos da ciência, a difusão científica é um termo muito amplo que escapa e se redime de quaisquer outras implicações de natureza político-metodológica, ou seja, qualquer iniciativa por mais simples e mais abrangente que seja, pode ser incorporada ao conceito de difusão científica. Outros termos, como alfabetização científica, são mais específicos e menos abrangentes, delimitando melhor o seu campo de atuação e as consequentes implicações metodológicas.

 

Alfabetização científica

 

Como qualquer outro, o conceito de alfabetização não é estático e vem se modificando ao longo do tempo. A necessidade de alfabetização certamente está ligada ao nascimento da linguagem escrita, particularmente à escrita

alfabética da qual hebreus e fenícios foram os pioneiros52.

 

Segundo Perdono (2001), à medida que o conceito de alfabetismo evoluiu a partir de uma visão das artes liberais, passou a designar os estudos adequados àqueles homens com capacidade de pensar. Esse conhecimento foi codificado no trivium (estudos em gramática, lógica e retórica) e no quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). Durante a Idade Média, os escolásticos da Igreja que, em especial, tinham o dever de serem letrados ou alfabetizados, dada a sua responsabilidade em guardar e preservar o conhecimento, acrescentaram ao trivium e ao quadrivium os estudos do Latim, do Árabe e do Grego. Mas, o interesse pela difusão do alfabetismo não foi prioridade da Igreja, pelo menos até a Reforma Protestante que, fundamentada na ideia do livre exame, passou a permitir e ensinar a leitura das sagradas escrituras. Outro importante passo no caminho da alfabetização popular foi, sem dúvida, a revolução de Gutemberg.

 

Conforme Chartier:

 

Em meados da década de 1450, só era possível reproduzir um texto

copiando-o à mão, e de repente uma nova técnica, baseada nos tipos

móveis e na prensa, transfigurou a relação com a cultura escrita. O custo

do livro diminuiu, através da distribuição das despesas pela totalidade da

tiragem... Analogamente, o tempo de reprodução do texto é reduzido

graças ao trabalho da oficina tipográfica (1999, p.7).

 

Por ironia da história, o surgimento da imprensa coincide com o advento da Reforma Protestante e toda essa efervescência vai ter uma repercussão direta no caminho da universalização do direito à alfabetização. Durante o século XIX, a Revolução Industrial e o crescimento da democracia burguesa aceleram o processo rumo a uma educação de caráter universal e, em 1870, a Inglaterra fixou uma lei com a Ata de Educação de Foster, garantindo uma educação básica para todos (PERDONO, 2001, p.5). Mais tarde, o século XX vai enfrentar as maiores transformações já ocorridas na história. As duas grandes guerras, a revolução comunista, a revolução cultural, as novas tecnologias, o advento da sociedade da informação e o avanço das democracias liberais e neoliberais certamente conduziram a grandes avanços no caminho da universalidade da alfabetização.

 

Alfabetização, conforme atestam os lexicógrafos, é o ato ou efeito de alfabetizar, ou ainda de propagar a instrução primária. O que nos remete a duas novas definições que, respeitando as anteriores, seriam as seguintes:

alfabetizar como ato de ensinar o alfabeto53 ou difundir o ensino básico. No primeiro caso, como afirma Chassot (2001, p.34), “há uma clara referência às duas primeiras letras do alfabeto hebraico ou do alfabeto grego”. Para o autor, na visão ocidental, há uma homenagem aos hebreus, que juntamente com os seus vizinhos fenícios, foram os pioneiros na escrita alfabética.

 

Para Sabbatini (2004, p.2), “... a alfabetização pode ser definida como o nível mínimo de habilidade de leitura e escritura que um indivíduo deve ter para participar da comunicação escrita”. Esse conceito apresenta-se como uma dicotomia, justamente porque define um limite que separa dois estados. Mas embora a definição desse valor limite seja subjetiva, há um consenso a respeito das habilidades e dos conhecimentos necessários para se estabelecer uma funcionalidade mínima. Dessa forma, a alfabetização científica pode ser definida como o nível mínimo de compreensão em ciência e tecnologia que as pessoas devem ter para poderem operar, em nível básico, como cidadãos e consumidores na nova sociedade científico-tecnológica.

 

Conforme Lorenzetti e Delizoicov (2001, p.3), “em todos os textos pesquisados e utilizados como referência, que são traduzidos do inglês para o português, o termo literacy é traduzido como alfabetização, no Brasil e em Portugal”. Segundo os referidos autores, a tradução correta do termo deveria ser alfabetismo e não alfabetização. Magda Soares (1998), sustenta uma posição

em favor do termo 54 letramento, palavra não encontrada nos dicionários modernos, como uma possível aproximação do termo inglês. A mesma palavra é utilizada pelo casal de professores Salete van der Poel e Cornelis van der

Poel em uma experiência inovadora realizada na Paraíba55. No entanto, respeitando a maior utilização, optamos por manter a tradução do termo em inglês sientific literacy como alfabetização científica.

 

Com efeito, se o termo alfabetizado – ser capaz de ler e escrever – for levado às últimas consequências, a expressão alfabetização científica deve ser entendida como a “capacidade de ler, compreender e expressar opinião sobre assuntos de caráter científico”. Nesse caso, deveria partir do pressuposto de que o indivíduo já tenha interagido com a educação formal e dessa forma, dominado o código escrito. Isso conduz a uma situação contraditória em que os analfabetos (literalmente falando) são imediatamente excluídos do processo. Contudo, para Lorenzetti e Delizoicov (2001, p.4), “é possível desenvolver uma alfabetização científica nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental, mesmo antes do aluno dominar o código escrito”. Conforme os autores, essa alfabetização científica poderá auxiliar significativamente o processo de aquisição do código escrito, propiciando condições para que os alunos possam ampliar a sua cultura.

 

Em todo caso, a questão é remetida para o espaço da escola, isto é, para os domínios do ensino formal. Tal procedimento, revela uma sutil distinção do conceito quando comparado com vulgarização, divulgação e popularização da ciência, termos mais amplos e afeitos à educação informal. Por outro lado, a alfabetização científica também pode ser desenvolvida em contextos que não têm como objetivo principal a PopC&T.

 

De acordo com Lorenzetti e Delizoicov (2001), existem três tipos de alfabetização científica. As diferenças entre elas referem-se não só aos seus objetivos, mas frequentemente ao público considerado, ao seu formato e aos seus meios de disseminação. Estas três formas são denominadas de alfabetização científica “prática”, “cívica” e “cultural”.