Uma nova ciência para um novo senso comum
Hegel e Marx: a unidade dialética e a ciência na arena da história
Como Kant, Hegel vai construir um sistema filosófico que se constituirá em uma nova reviravolta em torno da questão do conhecimento. A partir de uma formulação mais complexa e radical do idealismo que conduz a uma totalidade única, o Espírito Absoluto, discorda de qualquer formulação dualista, principalmente aquela formulação kantiana que introduz um interdito entre a realidade em si (noumeno) e o conhecimento que se possa obter dela.
Essa precaução deve até transformar-se na convicção de que
toda a tarefa de conquistar para a consciência, por meio do
conhecimento, o que é em si é, na sua conceituação mesma,
um contra-senso, de que o conhecimento e o absoluto sejam
separados por uma nítida linha de fronteira (HEGEL, 1974,
p.47).
Com efeito, para Hegel é fatalmente contraditória a afirmação sobre algo que, a priori, se estabeleceu como inacessível ao pensamento, de modo que, tudo o que é, é cognoscível, “o real é racional e o racional, é real”, não existindo interdição entre o ser e o pensar. Não se trata, porém, de uma eliminação da contradição entre os termos desta construção. Pelo contrário, na dialética proposta por Hegel, se a ideia, a lógica, é a tese, a natureza é a antítese e o espírito é uma síntese: unidade natureza/ideia. Como sublinha Melo Neto (2001), a cada nova síntese, os momentos anteriores são negados, mas ao mesmo tempo, integrados numa forma superior e o processo segue indefinidamente articulado em uma estrutura do tipo: tese, antítese e síntese, até alcançar a síntese final do espírito absoluto postulado por Hegel. Ao dualismo kantiano, Hegel contrapõe a unidade na contradição dialética que não separa sujeito e objeto, natureza e cultura, mas entende a natureza como cultura que ainda não se reconheceu como tal, que ainda não se negou; ainda não se descolou da experiência natural imediata, e a cultura humana como natureza negada e reafirmada em uma nova síntese autoconsciente.
Por outro lado, enquanto Kant compreendia as estruturas que condicionavam a atividade racional do homem como dadas a priori na razão humana, Hegel as interpretou como estruturas históricas que mudavam com a evolução da sociedade e condicionavam, não só a atividade cognosciva, mas todas as formas de subjetividade social. Nesse sentido, forneceu as bases para a futura síntese elaborada por Marx que, embora atraído pela lógica da dialética hegeliana, rejeitava a noção de um espírito absoluto.
De acordo com Acanda (2001), ao se contrapor ao idealismo absoluto de Hegel, Marx sugere o caráter histórico e social das estruturas condicionadoras da atividade humana, entendendo esta atividade, não só como atividade espiritual, mas como atividade material, como prática, e colocando a interpretação dialético-materialista da produção no centro de sua teoria. “Estas estruturas sociais que condicionam a atividade humana são, por sua vez, resultado da própria atividade humana. Ao produzir sua vida material, os homens estabelecem entre eles uma rede de relações sociais que condicionam, por sua vez, suas formas de subjetividade” (ACANDA 2001, p.4). Em Marx, a verdade da ciência é colocada na arena da história concreta das relações humanas.