Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 5 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Ciência e tecnologia

As técnicas são, portanto, aqueles saberes ainda não impregnados pelo conhecimento científico sistematizado; são aquelas habilidades e saberes derivados diretamente das experiências práticas e sem a necessidade prévia de bases teóricas. De acordo com Bernal (1975a), os próprios métodos usados pela ciência teriam a sua origem nas práticas e ofícios manuais cotidianos, de modo que, uma técnica seria um processo adquirido individualmente e perpetuado

socialmente 5, de fazer uma determinada coisa, enquanto uma ciência seria outra maneira de compreender como se faz aquela coisa, de modo a poder fazê-la melhor. Mas isso diz muito pouco a respeito da atividade científica, bem como do processo envolvido em seu afastamento das técnicas e dos ofícios.

 

Ciência e tecnologia

 

A ciência é um fenômeno social tão antigo e vem enfrentando tantas transformações ao longo de sua história que, qualquer tentativa de construir um conceito universal em torno desta atividade seria, no mínimo, incompleta. Talvez Chalmers (1993) tenha razão ao reconhecer na pergunta: “O que é ciência afinal?”, que serve de título a uma de suas obras, a premissa arrogante e enganosa de pressupor a existência de uma categoria universal capaz de reunir todas as especificidades da Física, Química, Matemática, Biologia, Sociologia, História..., em um fenômeno único: a ciência. Contudo, embora reconhecendo as limitações aproximativas dos conceitos, não podemos prescindir deles de uma maneira radical e completa, sob pena de cairmos em um relativismo extremado e inoperante. Desse ponto de vista, interessa-nos apresentar um quadro genérico de algumas tentativas conceituais em torno do que o consenso resolveu nomear de ciência.

 

Comumente se apresenta a gênese da ciência em termos de uma evolução linear que, partindo dos mitos, passa pela filosofia, até alcançar o status da ciência experimental moderna. Mas este é um percurso que, muitas vezes, não revela o contexto em que tais transições são construídas. Todavia, se entendemos a ciência como conhecimento lógico e sistematizado, que procura explicar as transformações da realidade a partir de conceitos universais, pode-se dizer que teve sua origem na civilização grega antiga, desenvolvendo-se nos períodos clássico e pós-clássico. Foi dos gregos que herdamos a ideia de ciência (epistéme) como um conhecimento racionalmente fundamentado, uma teoria da realidade. Mas a palavra ciência é de origem latina (scientia), que também significa conhecimento.

 

Sem desmerecer a importante contribuição da ciência primitiva dos egípcios, mesopotâmios, fenícios, hebreus, hindus e chineses, a ciência grega foi, sem dúvida, a que mais influenciou diretamente a nossa cultura científica. Como escreve Ronan:

 

Entre todos os povos da Antiguidade ocidental, foram os gregos

que não apenas colecionaram e examinaram fatos, mas

também os fundiram em um grande esquema; que

racionalizaram o universo inteiro, sem recorrer à magia ou

superstição (2001, p.64).

No entanto, as bases escravocratas de sua produção material não possibilitaram a aproximação entre teoria e prática, entre ciência e técnica. Na antiga ciência grega, teorética e próxima da filosofia, os cidadãos livres e os filósofos desprezaram os trabalhos manuais, as técnicas e ofícios como um tipo inferior de conhecimento. A esse respeito, Platão aconselhava: “Temos feito grandes esforços para liberar nossos cidadãos da necessidade de realizar trabalhos manuais”. E, seguindo a mesma tradição, Aristóteles, também, via muito mais grandeza no ócio que no trabalho. Para ele “... existe no próprio descanso uma espécie de prazer, felicidade e encantos unidos à vida, mas que se encontram somente nos homens livres de todo o trabalho” (apud MIRANDA, 1998, p, 31-32). Com base nesse pressuposto, ele estabelece uma diferença entre os saberes ligados às técnicas produtivas e o conhecimento científico. Por conseguinte, a ciência aristotélica é uma ciência teórica que, apesar de fundamentar-se em observações de senso comum, estabelece princípios universais e livres das transitoriedades acidentais das experiências cotidianas.

 

Nesse contexto, apesar da existência de várias técnicas e engenhos mecânicos, até as proximidades do século XV, o desenvolvimento destas, não tinha quase nenhuma relação com a ciência, que se desenvolvia em outro lugar.

 

Na sociedade medieval, os homens também se encontravam divididos entre servos e senhores. Os primeiros destinados ao trabalho e à servidão e os segundos ao ócio e às especulações teológico-filosóficas. De acordo com Vieira Pinto,

 

...os representantes da classe pensante entregam-se à pura

especulação, procurando por intuição e por esforço imaginativo

descobrir a essência das coisas, a matéria primeira de que o

universo é composto, as entidades divinas que o governam, as

substâncias imateriais que explicam o comportamento dos

seres animados, as forças ocultas que operam os fenômenos

extraordinários, as qualidades formais pelas quais os objetos

manifestam sua natureza íntima e mil outros problemas

metafísicos, ilusórios, resultantes da exclusiva exploração das

ideias enquanto tais, desvinculadas da materialidade (1979,

p.132).

 

No contexto da modernidade, a situação não é essencialmente diferente. Eliminam-se os servos e a escravidão, em favor de trabalhadores “livres”, mas desprovidos dos meios de produção e subsistência. Na realidade, o trabalho se transforma e assume características diferentes conforme os vários modelos de organização social que vão prevalecendo.

 

Em algumas formas antigas de organização social, o trabalho era dividido como cooperação conforme as capacidades e possibilidades de cada um. Os resultados também eram partilhados igualmente com todos os membros da comunidade, com ênfase no trabalho cooperativo, em uma espécie de comunismo tribal primitivo. A partir dos excedentes de produção, nascem as primeiras possibilidades de troca, o que possibilita a apropriação do trabalho desenvolvido por outros homens e um maior desenvolvimento da propriedade privada. Segundo Marx e Engels (1984), este fato já se verifica na divisão natural do trabalho no interior da família e na separação da sociedade em famílias individuais e opostas umas as outras. Neste processo, se produz uma repartição desigual do trabalho, tanto em qualidade como em quantidade e uma consequente diferença na propriedade.

 

Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, Marx sintetiza o pensamento de Adam Smith sobre a divisão do trabalho da seguinte forma:

 

a divisão do trabalho confere a este uma capacidade de

produção ilimitada. Ela se origina da propensão a trocar e

barganhar, uma propensão especificamente humana que

provavelmente não é acidental, porém determinada pelo uso da

razão e da fala. O motivo dos que se empenham nas trocas não

é a bondade, mas o egoísmo. A diversidade dos talentos

humanos é mais o efeito que a causa da divisão do trabalho, i.

é, do intercâmbio. (MARX, 2004 p.42/43).

Com efeito, à época de Marx, a divisão do trabalho já era reconhecida como o mais eficaz e importante meio de alcançar os mais altos desdobramentos das faculdades humanas para a riqueza social. Também já se sabia que, a cada indivíduo, deveria ser dada a menor amplitude possível de operações, o que diminuía expressivamente a capacidade de cada homem tomado individualmente. Se em Descartes e Bacon a divisão metodológica das dificuldades permitia uma maior aceleração na produção do conhecimento, por seu lado, a divisão do trabalho também alavancava a produção em massa, ao mesmo tempo em que produzia um exército de trabalhadores miseráveis e desqualificados, sobretudo, porque o aperfeiçoamento da Mecânica incorporava às novas máquinas as habilidades do ofício e o conhecimento que antes residia nos trabalhadores, aparecia agora, diluído no mistério de máquinas que pertenciam ao novo patrimônio da empresa. A divisão do trabalho é, portanto, uma condição necessária para o surgimento da ciência moderna.

 

De acordo com Engels (1983), a manufatura transforma e mutila o operário que, incapaz de fazer um produto independente, converte-se em um simples apêndice da oficina do capitalista. O controle intelectual do trabalho desaparece e desemboca no outro extremo da produção, em que a potencialidade espiritual do processo de trabalho é dominada pela propriedade e pelo poder dos patrões.

 

Este é um processo que tem sua gênese no trabalho cooperativo, desenvolve-se na manufatura e aperfeiçoa-se ainda mais na grande indústria. Se no modelo cooperativo, o trabalhador mantinha razoável controle sobre suas habilidades e seu trabalho, a manufatura revoluciona completamente o processo, apoderando-se da força individual do trabalhador e obrigando-o a permanecer condicionado a certas habilidades particulares que inviabilizam o desenvolvimento de seu potencial criativo.

 

O trabalho, essência principal da formação do homem, torna-se, pois, motivo de sua alienação e sofrimento. E, como escreve Manacorda (1991, p. 44), “é a essência subjetiva da propriedade privada e está frente ao trabalhador como propriedade alheia, a ele estranha e é prejudicial e nocivo a ele”. Por conseguinte, o homem começa a desenvolver uma relação contraditória frente ao trabalho que, embora necessário, passa a ser encarado como fonte de desgraça e penúria, desencadeando-se o gradativo processo de afastamento entre os trabalhos manuais e a reflexão intelectual. Aos escravos e menos nobres, cabendo o trabalho mais pesado e menos digno; aos líderes e senhores, as elaborações abstratas e reflexões filosóficas,

 

[...] porque com a divisão do trabalho está dada a possibilidade,

mais, a realidade de a atividade espiritual e a atividade material,

o prazer e o trabalho, a produção e o consumo caberem a

indivíduos diferentes. A partir deste momento, a consciência

pode realmente dar-se à fantasia de ser algo diferente da

consciência da práxis existente, de representar realmente

alguma coisa sem representar nada de real. (MARX; ENGELS,

1984, p.35/36).

 

Portanto, como afirma Vieira Pinto (1979), em tal contexto, a cultura deixa de ser um bem unitário e se bifurca em duas metades contraditórias. Uma delas representada pelo seleto grupo dos letrados que se apropria do aspecto subjetivo da cultura tornando-se dona das ideias e das finalidades a lhes dar e assumindo a função do conhecimento “puro”, enquanto a outra é afastada da esfera ideal da cultura e recebe uma função operativa ou, no máximo, uma “instrução básica” condicionada ao desenvolvimento dos novos processos produtivos. Este processo de bifurcação esteve presente em vários outros momentos da história, mas é no contexto da modernidade que ele assume uma versão diferente, sobretudo, porque usurpa dos trabalhadores o domínio das técnicas para substituí-las pelos novos critérios de uma ciência e de uma tecnologia pensadas por outros e em outro lugar.

 

Porém, de acordo com Bernal (1976c, p. 532), mesmo nas fases iniciais da Revolução Industrial, a ciência não teve contribuição direta no processo produtivo, cabendo muito mais aos artífices, técnicos e inventores a sustentação e o desenvolvimento dos aparatos da indústria têxtil. Mas, é justamente por tornarem-se essenciais à produção que os técnicos e artífices deixam de ser desprezados como haviam sido nas épocas clássica e medieval e, uma nova atmosfera de respeito em relação às artes da fiação, da tecelagem, da olaria, da sopragem de vidros e, principalmente, dos mineiros e dos metalúrgicos, mais ligados à indústria, vai marcar a Europa nos séculos XVIII e XIX.

 

De acordo com Bernal (1976b, p.482), a elevação da posição dos artífices tornou possível o encontro entre as suas tradições profissionais e as dos estudiosos, que desde as mais antigas civilizações havia sido interditado. O elo entre essas duas vias não será imediato, mas, depois de iniciado, desenvolver-se-á numa marcha veloz e explosiva. É, por exemplo, a partir do aperfeiçoamento da máquina a vapor – uma aplicação mais clara de princípios técnicocientíficos – que a Revolução Industrial vai ganhar um novo impulso, acelerando bastante o processo de industrialização. Até aqui ciência e técnica desenvolveram-se separadamente. Técnicas, mas sem conhecimento formal, técnicas, mas sem tecnologia.

 

A segunda fase da Revolução Industrial é caracterizada por uma outra grande revolução em sua matriz energética de sustentação. Trata-se da utilização da energia elétrica, associada ao desenvolvimento do eletromagnetismo. Nesse caso, já se verifica um afastamento mais acentuado da pesquisa científica que, embora voltada para o problema da indústria se desenvolve longe do ambiente das técnicas de produção. De acordo com Bernal:

 

A história da eletricidade e do magnetismo oferece-nos o

primeiro exemplo, em toda a história, da transformação de um

corpo de experiências e de teorias puramente científicas numa

indústria em grande escala. A indústria elétrica é

necessariamente científica em todas as suas fases (1976c,

p.629).