Uma nova ciência para um novo senso comum
Herbert Marcuse
Quando, no procedimento matemático, o desconhecido se torna
a incógnita de uma equação, ele se vê caracterizado por isso
mesmo como algo de há muito conhecido, antes mesmo que se
introduza qualquer valor. A natureza é, antes e depois da teoria
quântica, o que deve ser apreendido matematicamente. Até
mesmo aquilo que não se deixa compreender, a
indissolubilidade e a irracionalidade, é cercado por teoremas
matemáticos (ADORNO E HORKHEIMER, 1985, p.37).
Para os filósofos de Frankfurt, a dominação universal da natureza acaba voltando-se contra o próprio homem; nada sobrando dele senão aquele conhecido e eterno eu penso. A equação do espírito e do mundo acaba por se resolver, mas apenas como a mútua redução de seus dois lados. “Na redução do pensamento a uma aparelhagem matemática está implícita a ratificação do mundo como sua própria medida” (Idem, p.38).
Herbert Marcuse
Em uma de suas obras principais, “A ideologia da sociedade Industrial: o homem unidimensional”, Marcuse (1982), outro importante integrante do movimento intelectual de Frankfurt, constrói mais uma importante reflexão crítica em torno do que ele chama de sociedade unidimensional, isto é, um modelo de organização social que, fundamentado em uma aliança poderosa entre o capitalismo e a ciência moderna, inaugura uma nova forma de controle que, inibe o espaço da interlocução política e conduz a uma sociedade sem oposição e de pensamento unidimensional.
Embora confluindo para uma conclusão pessimista, a crítica marcuseana não deixa de ser importante, sobretudo, porque revela, de maneira muito transparente, os impasses com os quais se defronta a própria teoria crítica no seu enfrentamento com a moderna sociedade industrial. Ao comparar a fase de formação da teoria da sociedade industrial, no século XIX, com o quadro atual de sua época (meados do século XX), Marcuse reconhece que as bases da crítica foram substancialmente alteradas e que a mediação histórica assegurada pelo confronto político entre as duas grandes classes que se enfrentavam na sociedade: a burguesia e o proletariado, não eram mais as mesmas. Embora as classes permanecessem, o novo desenvolvimento capitalista teria alterado profundamente a função dessas classes, de maneira que elas não pareciam mais ser agentes de transformação histórica.
De acordo com Marcuse (1982), um novo interesse, predominante na preservação e no melhoramento do status quo institucional, une os antigos antagonistas nos setores mais avançados da sociedade contemporânea. Nesse caso, dada a ausência de transformação social, a crítica recua para o campo da abstração não havendo terreno algum em que a teoria e a prática, o pensamento e a ação se harmonizem.
Todavia, a força propulsora de tal processo encontra suas bases no desenvolvimento comprometido das modernas tecnologias que, disponibilizando as mercadorias em escala cada vez maior, utiliza as conquistas científicas da natureza para conquistar, cientificamente, o próprio homem. Nessa perspectiva, a antiga e tradicional noção de neutralidade da ciência e de suas tecnologias não se sustenta, pois como tal, a tecnologia não pode ser isolada do uso que lhe é dado e a sociedade tecnológica torna-se um sistema de dominação operante no próprio conceito e na elaboração das técnicas.
A maneira pela qual a sociedade organiza a vida de seus
membros compreende uma escolha inicial entre alternativas
históricas que são determinadas pelo nível de cultura material e
intelectual herdado. A própria escolha resulta do jogo dos
interesses dominantes. Ela antevê maneiras específicas de
utilizar o homem e a natureza e rejeita outras maneiras. [...]
Como um universo tecnológico, a sociedade industrial
desenvolvida é um universo político, a fase mais atual da
realização de um projeto histórico específico – a saber, a
experiência, a transformação e a organização da natureza
como o mero material de dominação (MARCUSE, 1982, p.19).
É durante o sexto capítulo, “Do Pensamento Negativo para o Positivo: Racionalidade Tecnológica e Lógica da Dominação”, que Marcuse apresenta mais especificamente o processo de transição para ciência moderna, com o seu imanente projeto de racionalização e dominação da natureza.
De acordo com a crítica marcuseana, embora a dominação do homem pelo homem ainda seja o conteúdo histórico que une razão pré-tecnológica e razão tecnológica, ao projetar e empreender a transformação tecnológica da natureza, a nova sociedade industrial altera as bases da dominação, substituindo gradativamente a antiga dependência pessoal – escravo-senhor; servo-senhor da herdade – pela nova dependência de uma ordem objetiva e estabelecida das coisas. Se a nova ordem objetiva ainda é o resultado da dominação, trata-se agora de uma dominação sutil e apoiada na mais elevada forma de racionalidade: de uma sociedade que, mantendo a sua estrutura hierárquica, explora com eficiência cada vez maior os recursos naturais e humanos. Com efeito, na luta moderna pela existência, a exploração do homem e da natureza tornou-se cada vez mais científica, racional e tecnológica e, enquanto o gerenciamento e a divisão científica do trabalho aumenta enormemente a produtividade econômica e o padrão de vida da sociedade, também produz um padrão mental de comportamento que justifica e absorve até mesmo as particularidades mais destrutivas e opressivas do novo empreendimento.
Para Marcuse (1982), e isso é importante que se repita, a racionalidade e a manipulação técnico-científica estão fundadas em novas formas de controle social e não dependem de uma específica forma de aplicação ou utilização da ciência, mas é algo inerente a própria natureza da ciência em sua concepção moderna. É o próprio método científico que, conduzindo a uma dominação cada vez mais eficaz da natureza, fornece tanto os conceitos puros como os instrumentos para a dominação cada vez maior do homem pelo homem, de modo que, “A quantificação da natureza, que levou à sua explicação em termos de estruturas matemáticas, separou a realidade de todos os fins inerentes e, consequentemente, separou o verdadeiro do bom, a ciência da ética” (Idem, p.144).
No entanto, alheio a essa racionalidade, permanece um mundo de valores que, retirados da realidade objetiva tornam-se subjetivos. Paradoxalmente, o mundo objetivo, quando reduzido a qualidades quantificáveis, torna-se objetividade dependente do sujeito, isto é, uma objetividade subjetiva, ou por outro lado, uma subjetividade objetivada. Se a filosofia científica moderna partiu da noção das duas substâncias separadas em res cogitans e res extensa, para Marcuse, ao se conceber a matéria estendida compreensível em equações matemáticas que, traduzidas em tecnologia refazem essa matéria, a res extensa perde o seu caráter de substância independente e, conforme reconhece Heisenberg, a velha divisão do mundo em processos objetivos no tempo e no espaço e a mente na qual esses processos são refletidos, isto é, a divisão cartesiana entre res cogitans e res extensa não é mais um ponto de vista apropriado à compreensão da ciência moderna e “A coisa em si é para o físico nuclear, se é que ele de fato usa esse conceito, finalmente uma estrutura matemática, mas essa estrutura é – contrariamente a Kant – indiretamente deduzida da experiência (HEISENBERG, apud MARCUSE, 1982, p.149).
Nesse caso, em uma situação paradoxal, os esforços desenvolvidos no sentido de estabelecer uma objetividade, a mais rígida possível, conduziram a uma crescente e estranha desmaterialização da natureza. Na física de partículas, por exemplo, a matéria é definida a partir de suas relações com as experiências humanas e pelas leis estabelecidas através da matemática, ou seja, como objeto intelectual e passível de manipulação.