Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 4 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Capítulo I - Ciência moderna: fundamentos de uma nova linguagem

Capítulo I

 

Ciência moderna: fundamentos de

 

uma nova linguagem

 

Toda a nossa ciência, comparada com

 

a realidade é primitiva e infantil – e,

 

no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.

 

(Albert Einstein).

 

Os saberes e as técnicas, a ciência e a tecnologia

 

Saberes e técnicas

 

“A primeira premissa de toda história da Humanidade, como nos sugere Marx, “é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos vivos”, e a segunda que, “ Ao produzirem os seus meios de vida, os homens produzem indiretamente a sua própria vida material” (MARX & ENGELS, 1984). O trabalho é, portanto, o principal fundamento da vida humana e, em certo sentido, criou o próprio homem.

 

De fato, como aponta Engels (1984), as primeiras ferramentas utilizadas pelos homens foram as próprias mãos e foi no processo de desenvolvimento do trabalho que surgiram as técnicas primitivas.

 

Por alguma circunstância adversa, uma determinada espécie de primata teria sido obrigada a descer das árvores e aventurar-se pelas planícies. Os membros superiores, livres de suas antigas obrigações, puderam desenvolver outras habilidades, principalmente habilidades técnicas, importantes para sobrevivência da espécie. A técnica – como meio apropriado de atingir determinado objetivo – nasce, assim, como um prolongamento do próprio organismo, como uma tática de sobrevivência de uma espécie defeituosa que se descola da natureza pela via do trabalho e da cultura.

 

Conforme essa teoria, algum tipo de macaco que existiu há milhares de anos, pôde evoluir principalmente através de sua ação no enfrentamento com a natureza, sendo o uso das mãos, fator decisivo para essa importante transição.

 

Devido precisamente a esta maneira de viver, em que as mãos,

ocupadas para se firmarem nos galhos, desempenhavam

funções diferentes das dos pés, os macacos foram, pouco a

pouco dispensando-as para o ato de caminhar no chão e

assumindo desta forma uma postura cada vez mais ereta. Deu-

se assim, o passo decisivo na transição do macaco ao homem

(ENGELS 1984, p. 9/10).

 

Os benefícios adquiridos pela nova maneira de utilizar as mãos, tornando-as cada vez mais hábeis, iriam repercutir no conjunto do corpo através dos chamados, reflexos da correlação do crescimento, teoria sugerida por Darwin. Portanto, a evolução das mãos, através do trabalho, teria provocado um desenvolvimento correlato no cérebro de uma determinada espécie de primata que, a partir do fazer, da antecipação do pensamento à ação e da capacidade de elaboração abstrata, teria desencadeado o processo de construção da espécie humana.

 

Contudo, é necessário acrescentar que, ao transformar a natureza, o homem já o faz articulando-a simbolicamente através da linguagem, principal elemento da mediação simbólica entre a natureza e a cultura, logo não se orienta apenas por necessidades imediatas, mas pelo transcendente, pela imaginação e pelo desejo de dar um novo sentido à realidade. Diferentemente do animal que permanece colado à sua atividade vital, o homem a distingue de si mesmo, descolando-se dela através de ações oriundas de uma vontade consciente. Embora os outros animais também produzam, só o homem o faz em domínios universais, produzindo para si e para outras espécies. O homem não é mais um ser de natureza,

mas uma contradição dialética entre a natureza e a cultura 3.

 

Essa produção é sua vida ativa como espécie; graças a ela, a

natureza aparece como trabalho e realidade dele. O objetivo do

trabalho é, portanto, a objetificação da vida como espécie do

homem, pois ele não mais se reproduz a si mesmo apenas

intelectualmente, como na consciência, mas ativamente e em

sentido real, e vê seu próprio reflexo em um mundo por ele

construído (MARX, 2004, p. 9).

 

É no, e pelo trabalho, que o homem vai se construindo enquanto constrói o mundo. E é através do trabalho que tentaremos compreender o processo de transição: dos saberes e das técnicas para a ciência e a tecnologia.

 

De acordo com Habermas (1983b), a história da técnica pode ser reconstruída do ponto de vista da objetivação progressiva das ações racionais orientadas para fins. Para o autor, a espécie humana teria projetado, sobre os meios técnicos, os componentes básicos destas ações racionais que antes limitavam-se a esfera do organismo, substituindo as funções de movimento (mãos e pernas); a produção de energia (do corpo humano), as funções sensoriais (olhos, ouvidos e pele) até alcançar as funções centrais de controle (do cérebro).

 

Novamente acreditamos que a consolidação definitiva desse processo só é alcançada a partir do desenvolvimento da linguagem. De modo que,

 

... só passa a ser verdadeiramente técnica, como operativa do

trabalho, como atividade calculada, coordenadora de meios,

quando a aplicação do pensamento se generaliza, quando a

eficácia do trabalho é avaliada e seus resultados previsíveis

logram esquematizar a experiência – o que pressupõe a

linguagem verbal, solo nativo ou principal elemento efetivador

da mediação simbólica da cultura com a realidade (NUNES,

1985, p.105).

 

É, pois, através da cumplicidade social da palavra, coetânea com o trabalho, que se tornam factíveis as técnicas, que estão muito mais próximas dos saberes e práticas cotidianas e de senso comum. Para Gorz (2005, p.34), existe uma distinção bastante clara entre conhecimentos e saberes. “O saber é, antes de tudo, uma capacidade prática, uma competência que não implica necessariamente conhecimentos formalizáveis, codificáveis...” Um saber é aprendido quando, de tal modo a pessoa o assimilou, que não lembra mais que teve de aprendê-lo. O conhecimento formal pode até tornar-se saber na medida em que o formalismo for assimilado e, consequentemente, esquecido. Outros autores como Rodrigues (2003) acreditam que reside na motivação uma das diferenças fundamentais entre ciência e saber. Portanto, a

sabedoria, como forma substantiva do verbo saber 4, assim como seus cognatos etimológicos, sábio e sapiência, significa o conhecimento procurado com gosto, saboreado. Em “Ciência e Sapiência” e em muitas outras obras, Alves (1999) também aponta os saberes como próximo dos sabores e entende a sabedoria como conhecimento vinculado aos prazeres e a felicidade. Se toda sabedoria envolve ciência, nem toda ciência implica necessariamente em sabedoria. Esta precisão conceitual é importante, para manter clara a distinção entre a ciência e os saberes, a tecnologia e as técnicas.

 

De origem grega (tékhne), a palavra técnica está relacionada à utilização de instrumentos, embora possa assumir significados mais amplos tais como: ofício, profissão, habilidade para fabricar, construir ou compor algo. Na opinião de Chauí (1997, p. 225) “a técnica é um conhecimento empírico, que, graças à observação, elabora um conjunto de receitas e práticas para agir sobre as coisas”.

 

Obra de Hipócrates destinada a transmitir as técnicas da medicina, “A Tékhne”, é um registro antigo de utilização do termo. Mas é em Aristóteles que vamos encontrar uma concepção mais próxima do conceito atual. Como se sabe, em uma visão aristotélica, a base primordial do conhecimento são as sensações e os contatos imediatos com o mundo. Impregnadas na memória, as repetidas marcas dessas sensações constituem-se em experiências (Empeiria) que, a partir de percepções individuais, avançam para associações gerais, dando origem, tanto à “arte” (Techné) como à ciência (Episteme). Além de estabelecer um conceito para a técnica, também entendida como “arte”, isto é, habilidade para construir ou compor determinados utensílios, Aristóteles ainda aponta diferenças entre as artes e a ciência que, além de mais exata e mais completa que a arte, deveria exprimir-se numa linguagem passível de ser comunicável, captando o invariante no interior do processo de transformações das coisas. Conforme Granger (1994), a técnica aristotélica não deixa de ser uma forma de conhecimento razoável, no entanto, a ciência lhe é superior, sobretudo, por se referir ao necessário e permitir a demonstração.