Uma nova ciência para um novo senso comum

Marcelo Gomes Germano · Capítulo 12 de 60

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Uma nova ciência para um novo senso comum

Hume e o impasse da proposta empirista

Na verdade, ao apresentar um estudo metódico e sistemático no “Ensaio Acerca do Entendimento Humano”, Locke acrescenta uma importante contribuição à teoria do conhecimento. Uma obra de fácil compreensão e das mais agradáveis de ler; uma tese extremamente metódica e didática que, de certa forma, sintetiza o pensamento empirista. Dividida em quatro partes, no primeiro, livro afirma que nem os princípios nem as ideias são inatos. No segundo livro, procede a um estudo sistemático sobre as ideias, classificando-as em simples e complexas para, em seguida, estudar as palavras e a linguagem em sua relação com a percepção, analisando depois, o conhecimento em vários de seus pormenores e enfrentando as mais variadas questões relacionadas ao ato de conhecer. Poderíamos afirmar que para Locke, o conhecimento é uma espécie de abertura ao mundo de forma a poder representá-lo na mente, gerando a linguagem e a razão. Entretanto, ao comparar o seu trabalho com outras produções importantes da época, a exemplo da obra de Newton, assume a humilde tarefa de um “trabalhador inferior que limpa um pouco o terreno e remove parte do entulho que está no caminho do conhecimento” (LOCKE, 1998, p.5).

 

Hume e o impasse da proposta empirista

 

Como se sabe, é contra a persistência de concepções medievais escolásticas e o movimento racionalista de inspiração cartesiana, no século XVII, que se levantam os empiristas. E um dos mais importantes representantes desta corrente é, sem dúvida, o escocês David Hume (1711-1776).

 

Seguindo os passos de Locke, Hume atribui a gênese do conhecimento aos sentidos e à experiência, e nega, de forma ainda mais contundente, toda e qualquer afirmação que pretenda ir além daquelas impressões. Sua tese principal pode ser resumida na seguinte afirmação: “A despeito de sua aparente liberdade, o nosso pensamento está, na realidade, confinado em limites muito estreitos e todo o poder criativo do espírito se limita apenas à faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais fornecidos pelos sentidos e pela experiência” (apud OMNÉS, 1996, p.95).

 

Em sua obra principal, o “Tratado sobre a Natureza Humana”, Hume sustenta a tese de que toda a atividade do espírito humano limita-se a exploração de fatos e que as próprias leis definidas pela ciência, através do método experimental, são apenas resumos de fatos. Nesse sentido, questiona a aparente obviedade envolvida na relação entre causa e efeito. Para Hume, quando dois eventos se sucedem no tempo com certa persistência, gera-se uma expectativa de ocorrência do segundo sempre que o primeiro se revela. Esta conexão sustentada no hábito da expectativa é tudo o que podemos saber a respeito da causalidade. Tal conclusão põe em dúvida as prerrogativas do método indutivo e do próprio empirismo.

 

Embora esta afirmação se constitua em uma clara violação ao julgamento do senso comum, mais do que qualquer outro, Hume considera o cotidiano um ponto fundamental para construção de sua filosofia e procura partir da forma original como o homem experimenta a realidade para realizar tal projeto. Além destas questões, também questiona a existência permanente de um “eu” e enfrenta a polêmica em torno do determinismo em seu confronto com o livre arbítrio.

 

O empirismo radical de Hume vai impressionar Kant, constituindo-se um dos importantes substratos para a sua filosofia crítica. Tanto no que se refere ao problema da possibilidade de um conhecimento puro e a priori como no enfrentamento de algumas questões de natureza metafísica.