Uma nova ciência para um novo senso comum
Das rupturas a superação: a resposta de Paulo Freire
Com efeito, mantendo-se coerente com a ideia de que todo homem é filósofo, o autor reconhece a presença de um núcleo positivo no senso comum o qual denomina de “bom senso”. Apesar de envolto na contradição entre suas próprias falas e crenças e as tradições herdadas e veiculadas pelos grupos dominantes, é possível resgatar do senso comum o seu núcleo positivo de bom senso, tarefa que caberá aos intelectuais organicamente ligados aos interesses populares. Portanto, numa visão gramsciana:
A filosofia da práxis não busca manter os “simplórios” na sua
filosofia primitiva do senso comum, mas busca, ao contrário,
conduzi-los a uma concepção de vida superior. Se ela afirma a
exigência do contato entre os intelectuais e os simplórios não é
para limitar a atividade científica e para manter uma unidade ao
nível inferior das massas, mas justamente para forjar um bloco
intelectual-moral, que torne politicamente possível um
progresso intelectual de massa ... (apud SAVIANI, 1980, p.14).
Como fica evidente, Gramsci não entende o senso comum como algo estático e acabado, mas como um processo no qual, em contato com os intelectuais, pode ser enriquecido com noções científicas e filosóficas que gradativamente penetram nos costumes. O senso comum é considerado o folclore da filosofia e, numa visão gramsciana, ocupa sempre um lugar intermediário entre o folclore propriamente dito e a filosofia (GRAMSCI, 1979). De qualquer forma, é tarefa da filosofia da práxis superar a ideia equivocada de que o senso comum é uma filosofia original e autônoma dos grupos populares, desmascarando a sua realidade contraditória e alienada.
Das rupturas a superação: a resposta de Paulo Freire
Paulo Freire, em sua prática inicialmente vinculada ao problema da alfabetização de adultos, também vai deparar-se com a problemática relação entre o conhecimento sistematizado e os saberes cotidianos e de senso comum. Se, conforme o autor, a leitura do mundo precede à leitura da palavra, esta deveria ser
desenvolvida dentro de um processo de conscientização 44, numa intervenção que conduzisse a uma superação da consciência ingênua em favor de uma consciência crítica. De acordo com Freire (1980, p. 26), “na aproximação espontânea que o homem faz do mundo, a posição normal fundamental não é uma posição crítica, mas uma posição ingênua”. A conscientização implica um afastamento da apreensão espontânea da realidade e uma postura crítica em que o homem assume uma atitude epistemológica. Contudo, diferente da concepção bachelardiana, defende a ideia de que entre a ingenuidade e a criticidade, entre os saberes de experiência e os que resultam de procedimentos metodologicamente rigorosos não há uma ruptura, mas uma superação. É na obra, “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” que expressa muito claramente sua opinião a respeito desta questão.
Na verdade, a curiosidade ingênua que, “desarmada”, está
associada ao saber de senso comum, é a mesma curiosidade
que, criticizando-se, aproximando-se de forma cada vez mais
metodologicamente rigorosa do objeto cognoscível, se torna
curiosidade epistemológica. Muda de qualidade, mas não muda
de essência (FREIRE, 1996, p.31).
Nesse sentido, ele discorda da ideia de ruptura epistemológica cunhada por Bachelard e substitui o termo pela palavra superação. De modo que, no processo em que a curiosidade ingênua, sem deixar de ser curiosidade e, pelo contrário, continuando a sê-lo, criticiza-se, não há uma ruptura, mas uma superação.
No entanto, a superação de uma visão ingênua da realidade não se dará através dos comunicados e imposições das lideranças revolucionárias. É no diálogo que o autor deposita todas as suas esperanças. É necessário acreditar nos homens oprimidos, na sua capacidade de pensar certo também. “Se esta crença nos falha, abandonamos a ideia ou não a temos, do diálogo, da reflexão, da comunicação e caímos nos slogans, nos comunicados, nos depósitos, no dirigismo” (FREIRE, 1981, p.57). Nesse sentido, o autor reafirma em sua “Pedagogia da Esperança”: “O que não é possível – repito-me agora – é o desrespeito ao saber de senso comum; o que não é possível é tentar superá-lo sem, partindo dele, passar por ele” (FREIRE 1999, p.84).
Por outro lado, embora tenha afirmado que “ninguém educa ninguém”, Paulo Freire reafirma a necessária presença dos educadores populares junto ao povo oprimido quando lembra que é necessário desafiar os educandos em relação ao que pensam ser o seu acerto.
Que educador seria eu se não me sentisse movido por forte
impulso que me faz buscar, sem mentir, argumentos
convincentes na defesa dos sonhos por que luto? Na defesa da
razão de ser da esperança com que atuo como educador
(Freire, 1999, p.84).
Não podemos, acuados pelo medo de uma suposta invasão cultural, negar que as classes populares possam seguir, para além de suas crenças e “saberes de experiência feitos” do senso comum, até um conhecimento mais metódico, rigoroso e sistemático como é o caso do conhecimento científico.
Para o autor, desvelar a razão de ser das coisas e ter delas uma visão mais profunda e cabal, não pode ser privilégio das elites. No entanto, se os grupos populares desconhecem, de forma crítica, como a nova sociedade tecnológica funciona, certamente devido às condições precárias em que foram sendo proibidos de ser e de saber, a saída não pode se dar através da propaganda ideológica e de uma divulgação massiva de conhecimentos científicos. Mas, encontra-se no diálogo e no intransigente respeito ao conhecimento de “experiência feito”.
Possivelmente foi a convivência sempre respeitosa que tive
com o “senso comum”, desde os idos de minha experiência no
Nordeste brasileiro, a que se junta a certeza que em mim nunca
fraquejou de que sua superação passa por ele, que me fez
jamais desdenhá-lo ou simplesmente minimizá-lo (Freire, 1999,
p.58).
Portanto, a leitura do mundo não pode ser a nossa leitura imposta às classes populares de maneira vertical e messiânica. Não podemos crer, como sugere Erica Marcuse, que somos parte de um grupo especial da sociedade, possuidores de uma consciência crítica “dada”, entendendo-nos como pessoas já libertadas ou inalcançáveis pela dominação e cuja tarefa é ensinar e libertar os outros (apud FREIRE, 1999).
Por outro lado, é importante repetir, não se trata também de silenciar diante do conhecimento do senso comum. A posição dialética e democrática, acrescenta Freire (1999), exige uma clara e explícita intervenção do intelectual como condição indispensável à sua tarefa, sobretudo, no que se refere a uma necessária e imperiosa familiaridade com o universo popular onde pretende atuar.
É neste sentido que volto a insistir na necessidade imperiosa
que tem o educador ou a educadora progressista de se
familiarizar com a sintaxe, com a semântica dos grupos
populares, de entender como fazem eles sua leitura do mundo,
de perceber suas “manhas” indispensáveis à cultura de
resistência que se vai constituindo e sem a qual não podem
defender-se da violência a que estão submetidos. Entender o
sentido de suas festas no corpo da cultura de resistência, sentir
sua religiosidade de forma respeitosa, numa perspectiva
dialética e não apenas como se fosse expressão pura de sua
alienação. Respeitá-la como direito seu, não importa que
pessoalmente a recuse de modo geral, ou que não aceite a
forma como é ela experimentada pelo grupo popular (FREIRE,
1999, p.107).
Portanto, o diálogo, mesmo quando construído a partir de horizontes culturais diferentes, pode, a partir do reconhecimento e respeito do universo vocabular do outro, produzir uma situação emancipadora para ambos. Por isso mesmo, continua Freire (1999), não nivela, não reduz um ao outro, nem é tática manhosa, que se usa para envolver o outro. Implica, ao contrário, um respeito fundamental dos sujeitos nele envolvidos, que o autoritarismo não permite que se constitua.