Uma nova ciência para um novo senso comum
Capítulo II - Os impasses e a crise da ciência moderna
Capítulo II
Os impasses e a crise da ciência
moderna
Sentimos que mesmo depois de serem
respondidas todas as questões científicas
possíveis, os problemas da vida
permanecem completamente intactos
(Wittgentein).
Crise da modernidade: um quadro geral
Conforme escreve Cambi (1999), ao final do século XV e início do século XVI, fecha-se um longo ciclo histórico e prepara-se outro, igualmente longo e talvez ainda inconcluso. Ciclo histórico que tem características profundamente diferentes do anterior, em relação ao qual opera uma ruptura. Este novo período que, para alguns historiadores teria seu início na Renascença, atravessando a Revolução Francesa e culminando com a industrialização inglesa no século XIX, vai ser conhecido, mais tarde, como: a modernidade.
A modernidade inaugura uma crise que resultará no desaparecimento de uma sociedade de ordens, típica da Idade Média, governada pela autoridade política, religiosa e cultural representada pela figura do imperador e do papa. Sociedade que, negando as liberdades individuais, valorizava os grandes organismos coletivos: a Igreja e o Império, mas também a família e a comunidade. Esse modelo entra em crise no final dos anos quatrocentos, quando a Europa se laiciza economicamente (fortalecimento do comércio) e politicamente (nascimento dos estados nacionais), mas também ideologicamente (pela separação do mundano e do religioso e pela afirmação da centralidade no homem).
Na visão de Cambi (1999), com o advento da modernidade, desloca-se o eixo da história do Mediterrâneo para o Atlântico, do Oriente para o Ocidente e através das viagens de descobrimento e colonização se estabelecem novos contatos com diferentes áreas do mundo, novas culturas e etnias e modelos antropológicos diferentes. O antigo modelo feudal, ligado a um sistema econômico fechado (baseado na agricultura), cede lugar a uma nova economia de intercâmbio, baseada na mercadoria e no dinheiro. Nasce o sistema capitalista que, livre de princípios éticos, de justiça e solidariedade, caracteriza-se pelo cálculo econômico e pela exploração de todo recurso: natural, humano e técnico.
No mesmo contexto e nas mesmas bases calculáveis e independentes de argumentos subjetivos, nasce a ciência moderna que, a partir das consequências impostas pela revolução copernicana, inaugura uma nova maneira de pensar a realidade, uma nova racionalidade que, exigindo a libertação das antigas tradições platônico-agostinianas e aristotélico-tomistas, desafia o antigo conhecimento baseado no obscurantismo religioso e na irracionalidade da tradição especulativa, opondo-lhe o novo método empírico e experimental (Galileu, Bacon, Locke e Hume) e uma nova razão de bases cartesianas. O abandono das verdades reveladas sugere um retorno à tradição de observação dos antigos pré-socráticos, buscando-se na própria natureza as explicações para os fenômenos. É necessário estabelecer um novo tipo de diálogo com a natureza que, segundo Galileu deveria ser travado a partir de modelos mais simplificados e em linguagem matemática. Do mundo fechado que, conforme Koyré (1979) agora abre espaço para um universo infinito, tudo deve funcionar conforme as leis imutáveis da natureza. O universo deve se enquadrar em uma nova metáfora de uma máquina perfeita e ordenada que funcione de acordo com leis endógenas e traduzidas em linguagem matemática.
Uma outra importante característica da modernidade é o surgimento do Estado Moderno, primeiramente absoluto, centralizado e controlado pelo soberano em todas as suas funções (Maquiavel e Hobbes) e depois o estado liberal (Locke e Rousseau). Um Estado-nação e um Estadopatrimônio atento à prosperidade econômica e organizado segundo critérios racionais e de eficiência. Como revolução social, surge uma nova classe: a burguesia que nasce nas cidades e promove o novo processo econômico (capitalismo), estabelecendo uma nova concepção de mundo (laica e racionalista) e novas relações de poder, opondo-se à aristocracia feudal e aliando-se à coroa para mais tarde romper também com seu modelo de Estado patrimonial e de exercício absoluto do poder e viabilizar o estado Liberal. No campo ideológico-cultural, inicia-se um processo de laicização, emancipando a mentalidade – sobretudo das classes altas – da visão religiosa do mundo e da vida, ligando-a a história e à realidade de suas transformações, o que vai conduzir a uma nova maneira de ver o mundo e uma nova forma de construção do conhecimento.
Estas são algumas das características da modernidade, período que vai conhecer o seu apogeu e o início de sua crise a partir do século XIX. É neste século, que vamos assistir ao triunfo da burguesia industrial, a consolidação do capitalismo de mercado e algumas das mais importantes construções da ciência moderna (Eletromagnetismo, Termodinâmica, Mecânica Estatística, etc...).
Para Cambi (1999), essa é a época de maior consolidação e difusão da indústria e maior articulação das burguesias. O trabalho está fortemente relacionado à indústria e acelera-se o processo de crescimento das cidades. Por outro lado, a realidade do século XIX, possibilita o surgimento e articulação política de uma nova classe que se opõe ao capitalismo burguês: o proletariado.
É no século XIX que se observa uma frontal luta de classes, exacerbando o “medo burguês” do espectro do socialismo-comunismo e intensificando as ações de controle das instituições. Dessa forma, era urgente a consolidação da tradicional família burguesa centrada no patriarcado, no princípio da propriedade privada e no inalienável direito a herança; ao mesmo tempo, tornava-se fundamental uma maior consolidação e controle do estado liberal burguês, amplamente criticado pelos defensores do socialismo nascente, e das escolas que deveriam garantir uma formação de conformidade ao espírito burguês.
Estes são alguns dos importantes esteios de sustentação da modernidade. Mas, conforme alguns dos mais importantes autores, a modernidade está em crise e os referenciais teóricos que definiram essa época (Séculos XVI e XVIII) há muito não respondem a uma série de novas questões postas pela dinâmica da própria realidade.
Os modelos construídos sobre os pilares do racionalismo cartesiano, mecanicismo newtoniano e iluminismo kantiano, tornaram-se insuficientes para dar conta de uma série de novos problemas gestados a partir de seus próprios fundamentos.
Usando a terminologia de Kuhn, diríamos que se trata de uma nova
crise de paradigmas21 e que as características da nova crise podem apontar para uma questão ainda mais complexa: o problema pode não estar nos paradigmas, mas na validade da existência de paradigmas. Para Scocúglia (1997 ), a crise seria “de” e não “dos” paradigmas.
Se a crise é de paradigmas não é simples prognosticar, no entanto, é possível garantir que não se trata de um simples mal-estar provocado por alguns impasses no universo da ciência moderna. Trata-se mesmo de uma crise que atinge diversos constituintes da modernidade.
De um ponto de vista pragmático, por exemplo, as promessas da razão iluminista não foram cumpridas e o modelo que nasceu questionando a barbárie da Idade Média com seus fundamentos teológicos, aristotélicos e feudais, acabou produzindo uma crise sem precedentes na história da humanidade. Para Morin:
Os desenvolvimentos da tecnociência são ambivalentes.
Encolheram a Terra e deram condição imediata de
comunicação a todos os pontos do globo, proporcionaram
meios para alimentar todo o planeta e para assegurar a seus
habitantes um mínimo de bem estar, mas, ao contrário, criaram
também as piores condições de morte e de destruição (2003,
p.75).
De fato, como também reconhece Santos (2005), existe uma ambiguidade no que se refere ao cumprimento das promessas da modernidade. Em alguns casos, os projetos e promessas foram e estão sendo realizados ao extremo, em outros aspectos, o fracasso revela que o saldo da modernidade não é dos mais otimistas e, sem desmerecer os avanços importantes em vários pontos, alguns resultados concretos, apontam indubitavelmente para o fracasso no cumprimento de algumas de suas principais promessas.
No que diz respeito às utopias de igualdade, os saldos são aterradores. Com apenas 21% da população mundial, os países capitalistas avançados controlam 78% da produção mundial de bens e serviços e consomem 75% de toda a energia produzida. Por conseguinte, os trabalhadores da indústria têxtil ou da eletrônica ganham 20 vezes menos no Terceiro Mundo do que os trabalhadores da Europa e da América do Norte na realização das mesmas tarefas e com a mesma produtividade. Com a explosão da dívida externa a partir da década de oitenta, os países devedores do Terceiro Mundo têm contribuído em termos líquidos para a riqueza dos países desenvolvidos pagando a estes em média 30 bilhões de dólares por ano. No mesmo período, a alimentação disponível nos países do Terceiro Mundo foi reduzida em cerca de 30%; enquanto só a área de produção de soja, no Brasil, seria suficiente para alimentar 40 milhões de pessoas se fosse aproveitada para o plantio de milho e feijão (SANTOS, 2005, p.23)
No que se refere às promessas de liberdade, não se pode comemorar grandes coisas. Quinze milhões de crianças trabalham em regime de cativeiro na Índia; a violência policial e prisional atinge índices alarmantes no Brasil e na Venezuela, enquanto os incidentes raciais aumentaram 276% na Inglaterra entre 1989 e 1996. A violência sexual contra as mulheres, a prostituição infantil, as vítimas de minas pessoais, as discriminações contra homossexuais, portadores do HIV, além de limpezas étnicas e chauvinismo religioso, são apenas algumas das contradições postas pela modernidade (Idem, p.24).
As esperanças de fraternidade e paz foram confrontadas com uma realidade assustadora. Enquanto no século XVIII, morreram 4,4 milhões de pessoas em 68 guerras, no século XX, morreram 99 milhões de pessoas em 237 guerras. Enquanto entre os séculos XVIII e XX, a população aumentou 3,6 vezes, o número de mortos nas guerras aumentou 22,4 vezes. Mesmo depois da queda do muro de Berlim e do fim da guerra fria, a paz não se consolidou, sobretudo, por conta dos conflitos entre Estados e no interior destes. Por fim, a promessa de dominação da natureza que, embora esteja sendo cumprida ao extremo, se faz de uma forma perversa e destrutiva. Nos últimos 50 anos, o mundo perdeu cerca de 1/3 de sua cobertura florestal. Apesar de a floresta tropical fornecer 42% da biomassa vegetal e do oxigênio, 600.000 hectares de florestas mexicanas são destruídos anualmente e as empresas multinacionais controlam hoje o direito de abate de 12 milhões de hectares da floresta amazônica. Um quinto da humanidade já não tem hoje acesso à água potável (Idem .24).
De fato, estes e outros problemas atestam uma crise que abala os principais alicerces da modernidade. Se esta crise se resolve salvando o modelo, ou se aponta para um novo paradigma, é uma outra questão. No momento, interessanos destacar alguns acontecimentos que possam justificar o que estamos denominando de crise da modernidade.